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Sara Laísse

“Bhelani khu nyumbani, namuguphedhe khu guhamba mandza”

| 02/11/2020

Fui há dias a Inhambane, a chamada “terra da boa gente” – ganhou esse epíteto, no primeiro contacto com o povo português, a propósito de ser acolhedora. Ao chegar a essa província, recebi uma mensagem do editor do gala-gala, que publicou o meu último livro. Dizia ele: “Sara, a tua obra está quase pronta, já podemos pensar numa data para o lançamento.” Respondi-lhe que era uma grande bênção, chegar à casa dos meus avós, dos meus ancestrais, na verdade, dos que intercedem por mim junto a Deus e ter uma informação tão preciosa.

O livro leva o título Entre Margens: Diálogo Intercultural e Outros Textos e reúne um conjunto de textos publicados no 7MARGENS, entre 2019 e 2020. A primeira parte do título é uma homenagem a este jornal, que me permitiu exercitar um tipo de escrita, que nunca tinha experimentado: a crónica. Foi um exercício feliz, que me concedeu a graça, não só de poder partilhar as minhas culturas (xitswa e gitonga) e outras culturas moçambicanas, com outras pessoas, mas, também me conferiu a possibilidade de encontrar parte da minha família que não conhecia, quando publiquei um texto explicando o meu cognome.

Pelo livro, pela aprendizagem na escrita de outros tipos de textos, pela possibilidade de reconstituir parte da minha história e pela possibilidade de partilhar as culturas moçambicanas, agradeço imenso aos editores do jornal, especialmente ao prof. Manuel Pinto, que me convidou a colaborar e foi claro no desafio: faz, por favor, uma partilha sobre as culturas moçambicanas! Pareceu-me uma tarefa difícil, mas a equipa de editores do jornal é tão motivadora, que não tive outra saída senão colocar mãos à obra.

É também sobre as mãos que desejo falar no presente texto. Dizia que fui a Inhambane “beber a minha ancestralidade”, após alguns meses de ausência criada pelo impacto da pandemia do coronavírus. Entrem para “dentro de casa”, depois de terem lavado as mãos, ou seja, bhelani khu nyumbani, namuguphedhe khu guhamba mandza, foi a grande mensagem que dominou a minha atenção durante aquela viagem. Em muitas portas de residências e de restaurantes e em murais vi escrito “lave as mãos” (hamba manza); daí ter retido a ideia de que a permissão para “entrar” tinha o condicionalismo referido.

Tinha partido da província de Maputo, onde vivo, passei pela de Gaza, tendo como destino Inhambane. A separar Gaza de Inhambane, encontra-se o distrito de Zandamela. Espantou-me uma paragem obrigatória que tive de fazer. Primeiro, julguei que fosse um controlo de trânsito e que deveria apresentar a carta de condução e/ou provar que a viatura na qual me deslocava se encontrava em condições de circular na via pública; mas não foi o caso. Era um posto de controlo de saúde pública, como nunca tinha visto igual. Nesse posto, mediram-me a temperatura e pediram-me que lavasse as mãos. Gostei.

Continuei com a viagem e, como me é característico, fui prestando atenção aos artefactos culturais. Vi vários, mas um levou-me de volta à infância e não o via fazia muito tempo: o alambique.

O alambique é um destilador de álcool, de perfume ou óleos. É um objecto antigo; dos utilizados desde a Idade Média. O que vi era feito de tronco da palmeira. Fez-me lembrar as férias que eu passava na casa dos meus avós, nessa província.

Passava as tardes a apanhar cajus (pseudofruto do cajueiro). Após a apanha, seguia-se o processo de retirada da castanha no fruto. Os cajus frescos serviam para fazer sumo. Abríamos o fruto à mão, dividindo-o em quatro partes que colocávamos numa bilha de cerâmica. Depois de algumas horas soltava o sumo que serviria para beber e para fazer biscoitos de sura. Este sumo era o que se utilizava ainda em estado fresco, não fermentado, diferente da bebida retratada mais adiante.

As castanhas eram postas a secar para, posteriormente, serem assadas rusticamente. Isso era feito com recurso a um recipiente metálico, que era colocado por cima de uma fogueira. Para as assar, as castanhas eram mexidas, sem parar, até que ficassem totalmente pretas, numa cor uniforme. Isso significava que estavam prontas para partir. Partíamo-las com uma pedra pequena, por cima de outra grande – que servia de base e, desse modo, separávamos o miolo da casca. Só de lembrar, dá água na boca…

Mas falava no alambique. O que vi em Inhambane é feito de tronco de coqueiro e serve para fazer aguardente da fruta de caju fermentada, cujo processo de fabrico, embora artesanal, produz um resultado similar ao do processo científico e a bebida tão deliciosa quanto qualquer rum ou qualquer cachaça.

O processo de fabricação tem como ponto de partida os frutos de caju bem limpos e bem lavados, que são antes colocados a fermentar, numa bilha que é fechada hermeticamente. Deixa-se o conteúdo repousar por três ou cinco dias. Depois a bilha é colocada em lume de lenha e deixada a ferver, ligada ao alambique, numa primeira linha de montagem da “máquina”, libertando, nesse processo, grandes quantidades de vapor, que depois se condensam. No final da linha é colocado um recipiente sobre o qual cai a aguardente, que resulta desse processo de condensação.

Soube que o objecto tem sido massificado, nos últimos tempos, estes nos quais, após um grande interregno, vemos à venda diferentes tipos de óleos essenciais, antes produzidos e consumidos em foro doméstico. Actualmente, têm sido vendidos em lugares públicos e em frascos etiquetados, após a introdução desta nova era na qual voltamos a acreditar no poder dos produtos manufacturados. Andávamos todos embebidos pelo consumismo trazido pela revolução industrial, mas nos dias que correm cada vez mais aceitamos o poder de cura dos produtos naturais. Apresento como exemplo o aumento da venda de óleo de eucalipto, este ano, por se acreditar que ajuda a combater febres, gripes e resfriados, tal como me informaram os vários vendedores de alambique que entrevistei.

É celebrando o ressurgimento e a massificação desse objecto que saí culturalmente enriquecida de Inhambane e será, também, com a aguardente da fruta de caju que pretendo brindar a minha última obra. E mais do que brindar, pedirei a quem actualmente, na minha família, ocupa o estatuto dos meus avós, para utilizar essa bebida para phahlar (pedir bênçãos pelo novo nascimento, invocando os espíritos dos meus antepassados) pelo nascimento desse livro…lililililili…wuya wuya wuyani vana Nheve (sejam louvados os Nheve – “Neves”!)

“É celebrando o ressurgimento e a massificação desse objecto que saí culturalmente enriquecida de Inhambane”. Foto © Tamorlan Wikimedia Commons

 

Sara Laisse é docente de Cultura Moçambicana, na Universidade Politécnica e membro do Graal – Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

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