Bíblia ou Tradição?

| 5 Dez 2023

mulher a ler a biblia foto pixabay

“Os protestantes afirmam que não há maneira de aceder a Cristo senão através do texto bíblico. Os católicos consideram que há ainda uma outra via, a da tradição eclesial.” Foto: lendo a Bíblia. © StockSnap / Pixabay

 

Desde a Reforma Protestante que o Catolicismo se debate com a questão das fontes da revelação. Por oposição ao Protestantismo, que vê na Bíblia a única e exclusiva fonte da revelação, o Catolicismo sublinha a importância da Tradição para o estabelecimento da revelação divina. A questão, em termos simples, resume-se a saber como é que cada crente pode aceder à Palavra de Deus. É indubitável que Cristo é, no âmbito da fé cristã, o cume da revelação divina. Contudo, como chegar até Cristo? Há outra maneira de saber o que Deus quer para o mundo que não seja através da leitura da Sagrada Escritura, sobretudo do Novo Testamento como testemunho escrito da ação, da mensagem e do destino de Jesus? Os protestantes afirmam que não há maneira de aceder a Cristo senão através do texto bíblico. Os católicos consideram que há ainda uma outra via, a da tradição eclesial.

Não nos cabe a nós, simples humanos, reduzir Deus ao silêncio e, por isso mesmo, temos de admitir a possibilidade de ele continuar a falar por outros meios para além do texto bíblico. Deus age e comunica quando quer, como quer e onde quer. Nenhum de nós tem obviamente autoridade para declarar o silêncio definitivo de Deus. Mas quando nos referimos à fonte da revelação, não nos referimos à contínua intervenção de Deus na história humana, mas à revelação do conteúdo essencial do Evangelho, ou seja, à mensagem originária de Jesus Cristo e ao seu significado existencial. Se a referência da revelação cristã é a pessoa histórica de Jesus de Nazaré, é o acesso a essa entidade normativa que temos de determinar por forma a encontrarmos a “fonte” ou as “fontes” da revelação cristã.

Para a Reforma Protestante foi claro que todos os acrescentos históricos que a Igreja cristã foi introduzindo ao longo dos séculos só terão o selo divino se tiverem fundamentação bíblica, de outro modo serão, na melhor das hipóteses, formas humanas de organizar a vida e de interpretar a doutrina e, na pior das hipóteses, falsificações da fé cristã. A Bíblia determina, assim, a legitimidade da vida eclesial. Esta posição, sendo clara, tem os seus perigos. O mais evidente é o biblicismo, ou seja, a crença de que o texto bíblico é imediatamente a Palavra de Deus e, portanto, não pode conter qualquer erro (inerrância), devendo ser aceite e praticado nos seus mais ínfimos pormenores. Todos sabemos que a Bíblia não é um texto, mas uma biblioteca de textos diversos, com teologias díspares e perspetivas mais ou menos conciliáveis. Deduzir de uma tal pluralidade uma normatividade absoluta põe problemas dificilmente resolúveis.

Por outro lado, a perspetiva católica tem igualmente os seus perigos. O primeiro consiste no facto de abrir as portas à discricionariedade da instituição e à arbitrariedade das doutrinas e práticas estabelecidas pela Igreja. O raciocínio é simples: uma dada afirmação pode não ter sustentação suficiente no texto bíblico (por exemplo, o dogma da Assunção de Maria), mas será considerado revelação divina se tiver sustentação na Tradição, ou seja, nesse corpo de doutrinas, teologias, dogmas e práticas que a igreja foi acumulando ao longo dos seus dois mil anos de história. Claro que nem todas essas doutrinas estão em pé de igualdade, a teologia romana tende a diminuir o impacto das que não se coadunam com as suas pretensões e exaltar a normatividade das que derivam sobretudo das instâncias de poder (o chamado Magistério). No fundo, o raciocínio é este: Deus revela-se ao longo da história da Igreja por meio da sua Tradição, sendo que a tradição se consubstancia, em última instância, nas decisões das instâncias de poder eclesial.

Temos, por isso, um corpo de doutrinas e práticas que pouca ou nenhuma sustentação bíblica têm, mas que foram elevadas à condição de “conteúdo da revelação” por se enraizarem na chamada Tradição. Muita tinta tem sido gasta para justificar o facto de tradições muito posteriores às primeiras comunidades serem hoje elevadas à condição de revelação divina. O corpo de teólogos mais conservador tende a justificar essa pretensão da Igreja com a suposta prioridade da tradição em relação ao texto bíblico.

Arte. Evangelhos. Evangelistas

“O anúncio do Evangelho começou por ser transmitido oralmente e só posteriormente foi passado a escrito. Sendo assim, a tradição oral tem prioridade sobre o texto escrito.” Gravura: Os quatro evangelistas e os seus símbolos

 

Partem de uma constatação universalmente aceite: o anúncio do Evangelho começou por ser transmitido oralmente e só posteriormente foi passado a escrito. Sendo assim, a tradição oral tem prioridade sobre o texto escrito. A ambiguidade do conceito de prioridade tem sido amplamente explorada pelos teólogos mais conservadores, uma vez que o conceito pode ter um significado meramente cronológico ou ainda um significado normativo. A “Igreja” já existia antes do Novo Testamento. É no seio da Igreja nascente que se desenvolve e fixa o texto do Novo Testamento. A comunidade eclesial tem, por isso, prioridade em relação ao texto bíblico, uma vez que foi no seu interior que o texto foi redigido, fixado e acolhido. O passo seguinte consiste em afirmar, de forma aberta ou sub-reptícia, que a Igreja tem, por isso, as chaves da revelação, como teve desde os seus primórdios e que não há forma de aceder à palavra de Deus senão através dos pronunciamentos da Igreja.

Há dois grandes problemas nesta lógica. O primeiro é atribuir à Igreja (qualquer que seja o tempo histórico da sua atuação) um poder discricionário para estabelecer o conteúdo da revelação. De modo a resolver este problema os teólogos romanos atribuem à comunidade e às suas autoridades uma especial assistência divina quando estabelecem conteúdos de fé, de modo a não errarem. Esta perspetiva trouxe consigo uma atitude que é, a meu ver, incompatível com a condição falível e humana da Igreja. Os mais altos representantes da instituição arvoraram-se em porta-vozes incontestáveis da verdade divina, ao arrepio da atitude humilde que todo o ser humano deve assumir face à omnipotência e à impenetrabilidade do mistério divino.

O segundo problema é que esta posição esquece deliberadamente a diferença substancial entre a “Igreja” das origens e a Igreja posterior. A primeira estava investida de uma autoridade que a posterior já não podia ter, por força das próprias circunstâncias. Se a revelação definitiva de Deus ocorreu em Jesus Cristo, só as testemunhas dos acontecimentos relacionados com a pregação, a atuação e o destino de Cristo, aqueles que com ele viveram ou que tiveram acesso aos testemunhos originários dos seus discípulos, têm legitimidade para fixar o Evangelho. Quanto mais nos distanciamos cronologicamente da primeiríssima comunidade cristã, menos autoridade tem o nosso testemunho ou, se preferirmos, a autoridade desse testemunho tardio determina-se a partir da sua consonância com o testemunho originário dos discípulos de Jesus. Em conclusão, a Igreja que se foi desenvolvendo ao longo da história a partir do século II não tem obviamente a mesma autoridade e legitimidade que a Igreja primitiva tinha, uma vez que os seus membros haviam convivido com as testemunhas oculares dos acontecimentos primordiais. É por isso que o texto bíblico, enquanto testemunho da mensagem originária (embora já num período em que boa parte das primeiras testemunhas tinham morrido) tem uma relevância que não pode ser atribuída a tudo o que a tradição posterior foi consubstanciando ao longo da sua vida bimilenar. O texto do Novo Testamento é dotado de uma autoridade que nenhuma outra voz pode reivindicar, por mais poder que tenha.

Seria necessário referir alguns aspetos que, em boa medida, relativizam também boa parte do texto bíblico, mas vamos deixar para uma próxima oportunidade, uma vez que o texto já vai longo. Se Jesus de Nazaré, a quem atribuímos o título de Cristo, é a revelação definitiva de Deus, nenhum pronunciamento da Igreja pode ter legitimidade se não se sustentar nas palavras, nos gestos e no destino de Jesus. É esse o motivo pelo qual os textos e afirmações do Novo Testamento não gozam todos da mesma autoridade, pois nem todos se referem ao Jesus real, mas a confabulações teológicas dos cristãos do século I ou mesmo II. Por maior força de razão, as afirmações posteriores da Igreja gozam de um grau de autoridade muitíssimo inferior.

Infelizmente, o ambíguo e perigoso conceito de Tradição tem sido usado pelas instâncias do poder para definir o que pode ou não ser pensado, crido ou realizado pelos crentes, submetidos às definições dogmáticas do passado, coartando assim indevidamente a liberdade de pensamento e de ação no interior da comunidade eclesial.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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