
Um indígena na Cidade do México: a Bíblia chega a cada vez mais pessoas nas suas línguas nativas. Foto © Eduardo Ruiz Mondragón, via Wikimedia Commons.
A tradução completa da Bíblia para o tzotzil da zona de San Juan Chamula (Chiapas, México), “falada por cerca de 350 mil pessoas”, é a última novidade numa lista de várias edições do texto bíblico em línguas nativas do país da América Central.
O México tem 69 línguas nacionais – 68 indígenas e o castelhano –, o que o coloca “entre as dez nações com mais línguas nativas e ocupa o segundo lugar com esta caraterística na América Latina, depois do Brasil”. Uma primeira tradução foi feita em 2003 para o tzeltal, língua falada por mais de meio milhão de pessoas. A Conferência Episcopal Mexicana promoveu depois idêntica iniciativa da edição completa da Bíblia, em 2015, para o tzotzil falado na área de Zinacantán e do Novo Testamento para o tzotzil falado na região de Huixtán, ambos em Chiapas (Sul do país). Já este ano foi concluída a tradução completa para o tzotzil da zona de San Juan Chamula.
Estes dados foram resumidos à Catholic News Agency, na última sexta-feira, 6, pelo cardeal Felipe Arizmendi Esquivel, bispo emérito de San Cristóbal de las Casas, no estado mexicano de Chiapas. Foi ele quem liderou, nos últimos anos, as iniciativas dos bispos mexicanos para levar o texto bíblico às comunidades indígenas. Numa entrevista à ACI Prensa, o ramo espanhol daquela agência, o cardeal afirmou que as Bíblias que foram já traduzidas se destinam principalmente às comunidades das terras altas de Chiapas.
Há também uma tradução ecuménica para o ch’ol, em colaboração com as Sociedades Bíblicas, dos livros deuterocanónicos, ou seja, os que não são aceites pelo judaísmo rabínico nem, regra geral, por vários setores protestantes. São eles os livros de Tobias, Judite, I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruque (incluindo no último capítulo a epístola de Jeremias).
Há ainda várias traduções parciais feitas por padres nas suas comunidades, mas o cardeal salientou que muitas delas “não foram apresentadas para aprovação pela conferência episcopal”. Por exemplo, disse que o nahuatl, a língua indígena mais falada no México, “com quase dois milhões de falantes”, tem pelo menos seis versões protestantes da Bíblia, mas “não há nenhuma [versão] católica” disponível.
“Durante séculos, os católicos deram mais importância às celebrações litúrgicas do que à preocupação de que a palavra de Deus chegasse a estas línguas marginalizadas”, observou.
Arizmendi explicou também que um dos maiores desafios neste processo é que “muitas palavras bíblicas são difíceis de traduzir para qualquer língua”. No caso dos idiomas indígenas, isso é ainda mais complicado, pois “é preciso conhecer bem a cultura original para encontrar uma forma de a tradução ser fiel ao texto bíblico e à cultura local”.
Por exemplo, a expressão “‘o Verbo se fez carne’, que é um mistério inexplicável em si mesmo, deve ser traduzida de modo que o conteúdo seja expresso em termos específicos da cultura indígena”, observou. O mesmo acontece com outros termos, como “batismo, sacerdote, virgem, eucaristia, bispo, diácono, pecado, salvação, etc.”, acrescentou o cardeal.
Apesar destes desafios, Arizmendi sublinhou que tanto as traduções já aprovadas como as versões locais feitas em diferentes línguas foram “muito bem recebidas pelos seus falantes”.
Os que falam estas línguas “sentem-se reconhecidos pela Igreja” Católica, que dedica especialmente à Bíblia este mês de Setembro. E esses falantes sentem também que “a sua cultura tem valor”, o que, concluiu o cardeal, “os ajuda a ter mais autoconfiança e a sentir que a Igreja os tem em conta”.










