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Biblioteca Apostólica do Vaticano dedica Agenda de 2021 à “mulher e os livros”

| 17/11/2020

Fra Angelico, Anunciação: “O importante não é saber que livro Maria estava a ler. O importante é colher como o livro, nesta cena, funciona já como facilitador de uma experiência espiritual: uma experiência de escuta e de conhecimento que configura o mundo.” 

 

“Não é possível fazer a história da Biblioteca dos Papas sem iluminar o contributo das mulheres”, escreve o cardeal português José Tolentino Mendonça, bibliotecário da Santa Sé, na apresentação da nova Agenda 2021 da Biblioteca Apostólica Vaticana, dedicada ao tema “A mulher e os livros. A mulher como construtora e guardiã das bibliotecas no tempo”.

“Mulheres escritoras, mulheres artistas, mulheres teólogas, mulheres protagonistas da vida da Igreja, mulheres mecenas, mulheres criadoras, mulheres de ciência e de cultura. E tudo é hoje assim. Basta pensar que mais da metade da comunidade de trabalho que faz funcionar a Biblioteca Apostólica do Vaticano é constituída por mulheres”, acrescenta o primeiro director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, em Portugal.

A agenda desvela ainda a “presença da mulher nos tesouros literários e iconográficos da Biblioteca Apostólica do Vaticano”, refere o cardeal num texto de apresentação da nova edição publicado no jornal L’Osservatore Romano.

No artigo, refere a página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o biblista recorda o comentário de Santo Ambrósio à narrativa bíblica da anunciação: “resultou útil a Maria, no seu colóquio com o arcanjo, ter lido antecipadamente o profeta Isaías, em particular o passo em que se diz que uma virgem dará à luz um filho.” Estas palavras, acrescenta, ofereceram “ao imaginário artístico ocidental aquele que se tornaria depois um dos elementos mais curiosos e constantes na representação do mistério da incarnação: a presença de um livro entre as mãos da Mãe de Cristo”.

A primeira figuração de Maria cum libro, escreve o cardeal Tolentino no texto, “remonta ao século IX, uma inovação medieval que o Renascimento não só acolherá e ampliará, como dela deixará também um legado seguro à modernidade: a Virgem Maria alfabetizada, que manuseia com intimidade os textos e se faz representar não com os utensílios da vida doméstica da aldeia camponesa de Nazaré, mas com aquilo que se tornará um instrumento da fecundação que o cristianismo oferece ao tempo, a biblioteca”.

No estudo O que lia Nossa Senhora? Quase um romance por imagens, Michele Feo individualiza, “surpreendentemente, mais de quarenta textos em que Maria aparece mergulhada na leitura”, recorda o bibliotecário da Santa Sé. “Por isso, o importante não é saber que livro Maria estava a ler no decisivo episódio da anunciação. O importante é colher como o livro, nesta cena, funciona já como facilitador de uma experiência espiritual: uma experiência de escuta e de conhecimento que configura o mundo. A começar pelo mundo interior de cada leitor, de cada leitora.”

A agenda abre com a reflexão do Papa Francisco sobre a mulher, seguindo-se “representações de gestos, olhares, sentimentos, textos de mulheres que marcaram a história, a arte, a literatura, ou simplesmente a vida quotidiana, cujos nomes são muito conhecidos ou desconhecidos”, observa Claudia Montuschi num outro texto publicado também no jornal do Vaticano.

Nas duas versões da agenda (18×25 cm, 20€; 12×17 cm, 14€), que também evoca o escritor Dante Alighieri, de quem se assinala, em 2021, o sétimo centenário da morte, incluem-se “materiais diversos, tipologias iconográficas referentes a várias épocas e culturas, espelho da extraordinária heterogeneidade e infinita riqueza do património da humanidade conservado na Biblioteca e cada dia colocado à disposição, de diversas maneiras, dos estudiosos de todo o mundo”.

 

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