Serpe, a criatura serpentiforme gigantesca que surge do nada, convocada in extremis para salvar os Bugios da catástrofe, acaba por ser o fator decisivo da narrativa que perpassa toda a Festa de São João de Sobrado (Valongo), ao fim do dia 24 de junho de cada ano. A aparição surpreendente não dura mais de 15 minutos. O poder da Bicha, como também é chamada, é tal que vira os acontecimentos do avesso.
Em jogo está, nesse preciso momento festivo, o destino dos Bugios, que representam os cristãos. Para trás está um dia intenso que encontra nos Bugios e Mourisqueiros o seu eixo estruturante, feito de desfile, bênção e danças várias, em diferentes lugares e com diferentes fins; mas também, em paralelo ou nos interstícios, críticas aos acontecimentos do ano, rituais agrícolas e representações de cenas da vida quotidiana, sempre protagonizadas por mascarados [ver 7MARGENS].
Durante o banquete, logo ao início da manhã, surgiram os primeiros sinais de tensão e hostilidade com os Mourisqueiros, manifesta na troca de cascas e restos de comida, ossos e cornos, que cada parte envia à outra. Nunca se cruzam, nem sequer se encontram.
Todos recordam, na celebração, o episódio lendário da disputa da imagem milagrosa de São João, de boa-fé emprestada pelos Bugios para curar a filha do Reimoeiro, mas da qual os mouros mostraram querer apropriar-se. A solução para tal problema é o que vai ser dirimido, naquilo que na festa se designa por Prisão do Velho e se desenrola no passal, ao fim da tarde.
Entre as duas partes desenrolam-se três modalidades de procura de solução: a via diplomática, através de um embaixador a cavalo entre os dois palanques que servem de castelos; a via judicial, através das (impossíveis) negociações entre dois doutores da lei, um de cada parte; e, finalmente, a via militar, através da guerra (troca de tiros de ‘canhões’ entre os castelos).
Tudo se precipita no fim da Dança do Doce. A banda de música leva cada uma das formações aos respetivos palanques, ao som de uma marcha militar. Os combates travam-se com denodo mas ninguém cede. A dado momento, porém, começa a ser notória a falta de resposta do lado bugio aos tiros dados no campo adversário. A mensagem é rapidamente interpretada: acabou-se a pólvora aos cristãos. Os Mourisqueiros apeiam-se, organizam-se e atacam, ao som de tambor.
Ao terceiro assalto, o Reimoeiro irrompe pelo castelo bugio e, depois de várias tentativas, prende o seu homólogo, o Velho da Bugiada. A desolação grassa entre os seguidores do Velho, perante a evidente derrota. O Velho é levado como prisioneiro. Os Mouros partem, ao som de uma música triste. Aparentemente nada havia a fazer. O poder da força tinha ditado o resultado.
A Serpe entra em jogo

Alguns Bugios não se rendem à desolação de ver partir o seu líder, o Velho da Bugiada. Recorrem a uma Serpe para fazer reverter a situação. Foto: Direitos reservados.
É neste ponto que a Serpe entra em jogo. Um grupo de Bugios vai buscar essa criatura esverdeada e de grande boca que se abre quando é movimentada, deixando ver uma língua enorme e de vermelho vivo. O grupo de Bugios movimenta-se de forma discreta e avança por um caminho que lhe permita intercetar o trajeto do exército dos Mourisqueiros. Entretanto, o grupo bugio, que tinha começado com meia dúzia, conseguiu já congregar atrás de si todos os membros da formação. A tensão sobe, à medida que uma e outra parte se aproximam. Quando têm os Mouros à vista, os Bugios arrancam numa correria desenfreada, com a Serpe à frente. Perante a velocidade e a força do ataque e o aspeto ameaçador da Bicha, os Mourisqueiros abrem brecha no círculo em que transportavam o Velho e este aproveita a oportunidade e foge, à frente dos Bugios e da Serpe.
Uma primeira nota que convém sublinhar é que, não havendo combates, mas apenas uma ‘operação’ surpresa para libertar o líder dos Bugios, também não se pode dizer que há uma vitória destes. Há, isso sim, uma reposição da situação inicial, quando, lendariamente, as duas comunidades – diversas entre si – conviviam pacificamente, cada qual na sua esfera de ação. Nisto se distingue o desfecho desta narrativa de mouros e cristãos em Sobrado, quando comparada com outras manifestações análogas, quer em Portugal (veja-se, por exemplo, o Auto de Floripes, do lugar das Neves, no município de Viana do Castelo), quer sobretudo em todo o sul e sudeste de Espanha. Aí há claramente combates que redundam, na quase totalidade, em vitória final dos cristãos.
A segunda nota é que a (re)presentação de tais conflitos constitui uma linguagem com a sua própria gramática, para uma comunidade lidar com as tensões e contradições que a habitam. Nesta festa, as formas de simbolização da violência são múltiplas. Enquanto a que ocorre na Prisão de Velho se encontra bastante codificada, já o mesmo não acontece nas Entrajadas de cunho carnavalesco, que, ao fim da manhã do dia de festa, levam à apresentação de cenas de crítica social, nas quais os protagonistas locais e de fora não são poupados. Aí é a espontaneidade e criatividade que impera, sob a proteção da máscara.
Presença dos dragões, de Oriente a Ocidente

No castelo dos Bugios, Reimoeiro segura o Velho da Bugiada, já feito prisioneiro, que abraça uma criança bugia, em despedida. O ‘doutor da lei’ observa a situação. Foto © Projeto Festivity.
Mas voltemos à Serpe. Como pudemos ver, a sua intervenção em Sobrado, no desenlace do conflito entre Bugios e Mourisqueiros, é fugaz e, aparentemente, apenas funcional. É como que uma ‘arma secreta’ a que a Bugiada deita mão, em desespero de causa, para reaver o seu rei, que seguia para o cativeiro. Algumas versões da lenda que subjaz à festa pretendem que se trata de um “milagre” do patrono S. João”. Mas cabe perguntar: porquê uma Serpe gigante?
A Serpe, tomada aqui como equivalente a Dragão ou Serpente gigantesca, é uma criatura extraordinária que, tal como os répteis mais comuns, apresenta múltiplos sinais de presença em diferentes culturas e civilizações, do Oriente ao Ocidente, da pré-história à contemporaneidade. Entre os fatores distintivos merecedores de realce estão o seu carater ameaçador e aterrorizante (visível na luta que contra elas travavam figuras mitológicas ou hagiográficas, como São Jorge contra a Coca, em Monção), mas também a sua caraterística de maravilhoso, a sua sagacidade. O padre Rafael Bluteau, no seu célebre Vocabulário Português e Latino, do início do século XVIII, referia-se à Serpente do Génesis dizendo que era “o mais sagaz dos animais, [já que] com um pomo soube roubar aos nossos progenitores e toda a sua posteridade o Paraíso”.
Ainda que em algumas partes do mundo o Dragão possua uma carga semântica e simbólica que recorda os animais gigantescos que hoje designamos por dinossauros e concentra os nossos medos dos animais perigosos em geral, noutras partes, o que cativa a imaginação humana é a sua sabedoria, o contacto com o misterioso e o desconhecido, o revestimento com energias e forças primordiais. De qualquer modo, muitos estudiosos sublinham também a ambivalência e a hibridez, a presença de uma mistura de sentimentos e emoções que a sua evocação – tão presente na literatura e nas religiões – traz consigo.
Os mais novos a ver de longe

O Embaixador a cavalo viaja entre castelos levando e trazendo mensagens, com vista ao cessar-fogo. Foto © Projeto Festivity.
As crianças apercebem-se um pouco de longe das correrias e atropelos do ataque com a Serpe, pelos perigos que isso representava. Mas sem dúvida a Bicha tanto é motivo de curiosidade e atração, como gera, ao mesmo tempo, um certo respeito, quando os Bugios a fazem subir e descer. Por isso é que, quando os mais novos descobrem que ela era guardada nos fundos do seu castelo, escondida pelas folhagens de carvalho, procuram aproximar-se para espreitar e vê-la melhor, antes que ela seja retirada. Aquilo mete respeito, apesar de saberem que não está viva; e provoca admiração, porque, não estando viva, mete medo.
Em Sobrado, há certamente um conhecimento mais ou menos apurado de situações em que a Serpe também atuava, por sinal até bem próximas. Por exemplo, durante muitas décadas, se não séculos, ela figurava na procissão de Corpus Christi do Porto, como determinava o respetivo regimento. E em Penafiel ainda hoje ela se incorpora nessa procissão.
Porquê, então, a Serpe em Sobrado? Como hipótese de compreensão, podem ler-se dois fatores conjugados: as necessidades da narrativa e as caraterísticas atribuídas à Serpe. O momento da aparição da Bicha é crucial: é, afinal, o de uma crise existencial e comunitária, contida na prisão e cativeiro do líder. A Serpe, dada a sua força simbólica, é a resposta mais poderosa (e pacífica) que poderia haver: aquela que atua pela surpresa, pelo temor e pela desorganização momentânea. Restabelecido o equilíbrio da situação de partida, tudo fica preparado para que a festa regresse no ano seguinte. Daí que Mourisqueiros e Bugios vão, cada qual na sua vez, fazer a Dança do Santo. Em louvor de São João.
Com este pormenor não despiciendo: se esta festa sanjoanina é, em certa medida, uma “festa de rapazes”, um medir de forças entre a comunidade e o seu grupo de jovens (o futuro no vigor do presente, sob a forma de um outro estranho), os novos ganham pela força; mas os velhos (a experiência e a memória) repõem a vida comum através de uma artimanha inesperada.
O melhor será mesmo ir ver. A festa promete. E faz o que promete.










