Bilibiza: do sonho da água à destruição que chegou do mato

| 29 Fev 20

Há doze anos, a aldeia lutava para ter água mais perto; em Abril do ano passado, teve a água e o vento demasiado perto e o ciclone Keneth devastou a região (mesmo se de forma menos intensa que o Idai, mais a Sul, em Pemba); agora, mais recentemente, foi arrasada por ataques que não se sabe de onde vêm nem que objectivos têm: a aldeia de Bilibiza (quase 200 quilómetros a Norte de Pemba, província de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique) estará quase deserta, depois de ter sido objecto de um ataque no final de Janeiro.

Trabalhos de abertura de um furo de água em Bilibiza (Pemba, Cabo Delgado), Moçambique, Junho de 2008. Foto © António Marujo/Arquivo 7MARGENS

 

A agressão deixou a região e a aldeia devastadas: não só pelas muitas palhotas incendiadas nas várias aldeias dependentes do “posto administrativo” (uma espécie de freguesia), como também pelos danos das instalações da escola agrária e centro de saúde, entre outros equipamentos, de acordo com informações do jornal digital Carta de Moçambique.

Nesta vaga de ataques que desde há pouco mais de dois anos tem atingido o Norte de Moçambique, terão morrido já várias centenas, talvez perto de mil pessoas, segundo um líder sénior muçulmano de Pemba contactado pelo 7MARGENS. Suspeita-se que os ataques são perpretados por grupos jihadistas que vêm do Congo, mas até agora não há confirmação sobre a sua origem e objectivos. “Não há um rosto, é alguém que desconhecemos que está por detrás de tudo isto”, diz a mesma pessoa que, por razões de segurança, prefere não ser identificada.

Em Bilibiza e nas aldeias vizinhas, as pessoas que puderam fugiram para o mato, à espera que os ataques cessassem. Mas os elementos das Organizações Não-Governamentais que trabalhavam na zona deixaram de aparecer. “A aldeia ficou vazia e muitas pessoas continuam escondidas”, acrescenta ainda a mesma fonte, que diz que as aldeias da região estão praticamente isoladas desde então.

Como agravante, deve acrescentar-se que o Instituto Agrário de Bilibiza tinha sido remodelado há dois anos, com o apoio da Fundação Aga Khan. As salas de aula da escola, as casas para os professores e os dormitórios foram renovados, à semelhança do equipamento informático. “Ainda não sabemos muito bem o que aconteceu, mas parece que, tirando os dormitórios, ficou muita coisa queimada: salas de computadores, os blocos de aulas, o escritório da Fundação, barracas, o posto de saúde…”

Escola Agrária de Bilibiza (Pemba, Cabo Delgado), em Moçambique, em Junho de 2008, que tinha sido remodelada há dois anos. Há um mês, a escola foi atacada. Foto António Marujo/Arquivo 7MARGENS

“Têm conseguido fazer quase tudo, sem resistência”

Há pouco mais de uma semana, houve notícia de dois novos ataques. Num deles, houve uma pessoa degolada – um dos métodos de assassinato que tem sido utilizado com alguma frequência. E em ambos os casos, os atacantes foram mais para sul de Bilibiza, no distrito de Meluco. “Eles estão a operar num modelo de guerrilha: chegam a um sítio, atacam, incendeiam, matam e vão embora.

Ainda não chegaram a Pemba, mas já há ameaças e estão a descer cada vez mais para sul, em direcção à cidade. Apareceu uma carta, num português manhoso, mencionando várias aldeias do distrito de Quisanga (a norte de Pemba, na costa) Mieze e Metuge”, a apenas 30 e 40 quilómetros da capital da província.

Nas zonas de Quisanga, Macomia, Ibo, Mueda e outras (sobretudo a Norte de Pemba) já “é perigoso circular, muita gente já não o faz”. E todas as ameaças têm sido levadas a sério pela população, pois os bandos armados “têm conseguido fazer” quase tudo o que ameaçam. E isso acontece “sem resistência, sem combate”, a resposta do Estado é “nula”, diz a nossa fonte.

Serve o exemplo do que aconteceu em Bilibiza, de acordo com o relato da Carta: os efectivos das Forças de Defesa e Segurança não deram resposta, uma vez que eram em menor número que os atacantes.

Esse é outro problema, na opinião deste responsável muçulmano, que trabalha para uma organização da sociedade civil que opera na região: as forças armadas de Moçambique, incorporam muitas vezes “miúdos sem prática militar e sem prática do mato”, que recebem 5000 ou 6000 meticais (entre 70 e 90 euros). Chegou a haver notícias, ainda neste mês de Fevereiro, de recrutamento forçado nas ruas do Maputo, com miúdos a serem levados em camiões para serem incorporados, como também noticiou a Carta.

 

“Coisas que correm e ninguém esclarece”

Bilibiza (Pemba, Cabo Delgado), Moçambique, Junho de 2008: os habitantes perderam muitas das suas palhotas. Foto © António Marujo/Arquivo 7MARGENS

 

Calculam as autoridades que haja já 156 mil deslocados internos causados por esta situação, desde Outubro de 2017. E já há mesmo instituições internacionais a prepararem planos de evacuação para os seus funcionários, caso seja necessário – assegura a mesma fonte, que tem conhecimento de pelo menos uma ONG internacional nessa situação.

Os bandos armados retomam algumas reivindicações do Daesh ou da milícia Al-Shabaab, que opera sobretudo na Somália. Há já imagens com atacantes que usam fardamento moçambicano, carros da PRM (Polícia da República de Moçambique) roubados e que, “sem medo, mostram as caras”. Já ninguém entra nas machambas, os terrenos de cultivo, diz o responsável muçulmano.

Sobre os objectivos e interesses que estarão por detrás, correm muitas versões: as jazidas de gás natural descobertas na região, as areias pesadas, as pedras preciosas… Entre a população até se conta que por vezes, depois das populações abandonarem determinadas terras, chegam empresas a comprar por preços irrisórios… Ou que o grupo paramilitar russo da Wagner, contratado para ajudar a conter estes ataques (em troca pelo perdão da dívida de Moçambique à Rússia, comenta-se também), já teria identificado uma base dos insurgentes, mas depois teria recebido ordens para não atacar…

Há duas semanas, o embaixador russo em Moçambique recusou comentar se havia alguma força armada russa em Cabo Delgado para combater os grupos que têm provocado os ataques na província. Mas o resto “são tudo versões que não estão confirmadas, são coisas que correm e que ninguém esclarece”, diz a nossa fonte.

Vários destes dados são confirmados pelo bispo católico de Pemba, Luís Fernando Lisboa, quer nas informações já publicadas pelo 7MARGENS, quer num depoimento que deu à edição portuguesa da Deutsche Welle. No início, as pessoas fugiam das aldeias atacadas, depois começaram a fugir antes das aldeias serem atacadas; no início, buscavam, refúgio nas vilas vizinhas, agora estão a chegar a Pemba famílias inteiras, resume, num vídeo disponível na página da rádio.

Pemba, uma cidade com cerca de 140 mil habitantes, terá já alguns milhares mais. Há um ano a região, cuja esmagadora maioria da população é muçulmana, sofreu o impacto do Keneth, que teve epicentro em Macomia, onde ficou tudo destruído. “Em Pemba andava-se de barco em vários bairros da cidade, mas em Macomia foi pior, só nãos e falou tanto como do Idai”, diz a mesma fonte.

Em Bilibiza, a destruição não chegou da natureza. Há 12 anos, o que as pessoas queriam era ter fontes de água próximas, a escola agrária a ensinar e o posto de saúde a funcionar em caso de necessidade.

Agora, em poucas horas, esses sonhos foram destruídos.

A pequena maternidade de Bilibiza (Pemba, Cabo Delgado, Moçambique), em Junho de 2008, que entretanto tinha sido remodelada e melhorada. Foto © António Marujo/Arquivo 7MARGENS

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