O pedido direto de compaixão e misericórdia para os imigrantes e para a comunidade LGBTQ que a líder espiritual da Igreja Episcopal em Washington, Mariann Budde, dirigiu a Donald Trump, no momento em que ocorriam os primeiros raides à caça de indocumentados, converteu-se num dos temas fortes deste início do segundo mandato presidencial.
Uma cerimónia religiosa e um sermão na catedral nacional de Washington que, noutras circunstâncias, teriam ficado sem cobertura mediática, saltaram para as aberturas de telejornais e para as primeiras páginas de jornais dos Estados Unidos e de muitas partes do mundo, com clips de vídeo nas redes sociais a atingirem os milhões de visionamentos.
A bispa episcopaliana de Washington foi solicitada de vários lados para explicar o que tinha dito perante o presidente, o vice-presidente e as respetivas famílias, que estavam sentados nos bancos da frente, face a face com o púlpito de onde o sermão foi proferido. Do que mais significativo se pode colher das suas declarações foi o que disse a uma jornalista da CNN, quando referiu que não estava a falar de temas ou problemas abstratos, mas de pessoas concretas, que ela conhece. E foi em nome delas que tomou a palavra.
No final do serviço religioso, Budde, ainda paramentada e de báculo na mão, e o presidente cumprimentaram-se rapidamente. Foi só à saída do templo que, perante alguns jornalistas que o interpelaram sobre se tinha gostado, ele devolveu a pergunta e acabou por comentar: “Não acho que tenha sido um bom serviço. Poderiam ter feito muito melhor”. Resposta que a responsável religiosa considerou “respeitosa”.
Mal Trump se pôde dedicar a uma das suas atividades regulares – escrever posts na sua rede social – libertou-se de freios e atacou. Começou por desqualificá-la, dizendo que se trata de uma “assim chamada bispa”, para alegar, depois, que a autora do sermão é “uma esquerdista radical que odeia Trump”. E ainda: “Adotou um tom desagradável, não foi convincente nem inteligente”. Acrescentou também que os comentários que ela fez foram “inapropriados e aborrecidos e muito pouco inspiradores”. “Ela e a sua Igreja devem desculpas ao público”, rematou o presidente.
Desculpas, não, responde, entretanto, a visada. “Entendo que estou a implorar misericórdia para outros; por isso, não tenho de pedir desculpas”, diz ela. Explicando um pouco mais, acrescentou, num dos canais televisivos a que prestou declarações, a propósito dos efeitos de algumas promessas de Trump: “Eu tinha a sensação de que havia pessoas que observam o que estava a acontecer [com as ordens executivas] e a perguntar-se: será que alguém vai dizer alguma coisa?”. Ela sentiu que uma perspetiva cristã crítica do poder que se estava a instalar não tinha tido voz no conjunto das cerimónias inaugurais dos dias anteriores. Ao assumir ser essa voz, a bispa tornou-se a voz incómoda deste momento – inconveniente para uns e corajosa para outros.
Um sinal eloquente da forma como o sermão de Mariann Budde foi recebido entre os apoiantes de Trump pode ver-se na reação de um deputado eleito pela Georgia para a Câmara dos Representantes, ao sugerir que a bispa seja incluída na “lista das deportações”, referindo-se aos imigrantes. As redes sociais, a par dos apoios e aplausos, encheram-se de ataques, insultos e ameaças, levando à criação de contas destinadas a defender a bispa de Washington.
(Foto de destaque: Bispa Mariann Budde fala durante o serviço desta terça-feira, 21, na Catedral Nacional de Washington. © Catedral Nacional de Washington)
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