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Bispo auxiliar de Braga traça rota para a prevenção dos abusos

| 05/05/2023

“O bispo Nuno Almeida, num documento importante, propôs três eixos inspiradores da ação a desenvolver na diocese, mas relevante para o conjunto das dioceses. São eles: prestar toda a atenção (reconhecer); prevenir (interpretar atempadamente); intervir (decidir).” Foto: D. Nuno Almeida © Comissão Episcopal Laicado e Família

 

O bispo auxiliar de Braga Nuno Almeida afirmou este sábado, 5 de maio, que, na Igreja, “não pode continuar a haver vítimas, agressores e silenciadores”, ao mesmo tempo que traçava um quadro de orientações para o muito que falta fazer no terreno da luta contra os abusos sexuais, de poder e de consciência.

O bispo intervinha na sessão de encerramento do Seminário ‘Cuidado e Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis’, organizado pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) – Braga, com intervenções de docentes da UCP e da coordenadora da Comissão de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis.

O bispo Nuno Almeida, num documento importante, propôs três eixos inspiradores da ação a desenvolver na diocese, mas relevante para o conjunto das dioceses. São eles: prestar toda a atenção (reconhecer); prevenir (interpretar atempadamente); intervir (decidir). Para cada um deles, apresenta linhas de reconhecimento e compromisso.

 

Atenção, prevenção e intervenção

Quanto ao reconhecimento, assume que o Relatório da Comissão Independente “confirma que perante indícios ou provas de abusos, no passado, houve: desvalorização, encobrimentos ou silenciamentos, transferência de sacerdotes de um lugar para outro, ingénuas reparações privadas na ilusão de compensar o dano sofrido pelas vítimas”.

Reconhece, nessa linha, que “a luta contra os abusos sexuais por parte de membros da Igreja ou no âmbito das suas atividades, no passado, não foi uma prioridade para a Igreja e houve erros, omissões e negligência”, bem como “mensagens confusas e contraditórias, sobre o modo de agir na hora atual”.

No que toca à cultura de prevenção, o bispo bracarense começa por reconhecer também que tem havido “muita dificuldade” em a fomentar.

Esse desiderato passa, desde logo, por “fazer tudo o que for possível para que a infância seja valorizada” e “se consolide, a nível ético e jurídico, o respeito pelas crianças”.

A ação eclesial para a promover deve, por outro lado, assentar numa “ótica interdisciplinar”, ou seja, ir além do “olhar intraeclesial e intrateológico” e convocar o contributo das ciências humanas, vistas não como “auxiliares”, mas como “parceiras”.

Isto supõe reconhecer que os abusos sexuais de menores e pessoas vulneráveis dentro da Igreja são, em si mesmos, “uma traição à sua identidade e à sua missão”, já que são “autênticos ‘homicídios psicológicos’, devido às consequências irreparáveis que podem ter para a saúde mental e espiritual”.

 

Exige-se “um olhar sistémico-eclesial”

Por outro lado, acrescenta o bispo auxiliar de Braga, os escândalos “deixaram de se considerar somente uma responsabilidade pessoal do agressor e, por isso, exigem um olhar sistémico-eclesial que amplie o espaço de responsabilidade de maneira mais honesta”.

“A responsabilidade é também da instituição eclesial, da qual o agressor e a vítima são integrantes. (…) O abuso não somente o comete o agressor, mas também uma Igreja ou instituição negligente, permissiva e silenciosa que permite, ou pelo menos tolera, tal abuso”.

Daí que o responsável da Igreja aponte para “uma pastoral mais do que preventiva”, que “se antecipe reflexivamente às ameaças e tenha como objetivo não somente adaptar-se às mudanças, mas também gerá-las e orientá-las”, tendo como “paradigma de atuação pastoral Jesus Cristo e o seu projeto do Reino”. “Uma visão de futuro que provoque as mudanças necessárias na Igreja”, acrescenta, sem, no entanto, especificar.

Finalmente, no que se refere à intervenção, o bispo Nuno Almeida propõe que a ação se deve orientar para:

  • “Promover transversalmente em todos os níveis e instituições da ação eclesial, uma pastoral integral, caraterizada pela atenção, prevenção e intervenção, em vez de uma “pastoral de contenção [de diques e paliativos], muitas vezes tardia e insuficiente”.
  • “Criar as condições para que qualquer pessoa que tenha sido vítima por um membro da Igreja se sinta segura no momento de o testemunhar” e possa contar com “mecanismos de proteção” e garantias de “acompanhamento, tanto espiritual como pessoal, tanto na fase dos trâmites judiciais como no quotidiano das suas vidas”.
  • “Disponibilizar pessoas e programas de acompanhamento psiquiátrico e psicoterapêutico, bem como de acompanhamento espiritual e de reconciliação para as vítimas que o desejarem”, incluindo a “absolutamente necessária criação de uma ‘bolsa de técnicos’ e de acompanhadores espirituais”.
  • Tentar a cooperação entre as comissões diocesanas e as comissões de proteção de crianças e jovens de cada concelho; manter um canal de comunicação com o Ministério Público ou Polícia Judiciária e encontrar formas de colaboração com a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima).
  • “Abrir caminhos de reconciliação e de cura para os agressores”, que nunca podem ser abandonados.
  • Criar programas de acompanhamento psiquiátrico e psicoterapêutico, de acompanhamento espiritual e de reconciliação para as vítimas e para abusadores.

 

Uma Igreja sem haver “vítimas, agressores e silenciadores”

O bispo auxiliar de Braga frisou que a “ação pastoral integral” que entende necessária faz com que seja “ilusório e irresponsável pensar que as ações pastorais preventivas se podem realizar única e exclusivamente a partir da teologia, do magistério e do direito canónico”. Nessa linha pede aos agentes da pastoral “uma alta dose de humildade e de modéstia” para se deixarem “guiar e questionar pelas perspetivas especializadas das ciências humanas”.

Uma nova consciência sobre o poder de cada um para saber ouvir e ler os sinais de alerta, de forma a romper com a impunidade e o silêncio e “comunidades e instituições cristãs sãs e seguras, conscientes de que não pode continuar a haver vítimas, agressores e silenciadores”, foi um desejo expresso também pelo bispo Nuno Almeida.

 

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