
“É preciso dar força à expressão laical, em que os leigos se sentem responsáveis juntamente com os padres”, defendeu Armando Esteves Domingues no final da sua primeira visita pastoral como bispo de Angra. Foto © Agência Ecclesia
Foi na ilha mais periférica do arquipélago dos Açores, que é também o ponto mais ocidental da Europa, que o bispo de Angra – no cargo há pouco mais de ano e meio – escolheu iniciar as suas visitas pastorais. A ilha das Flores – que Armando Esteves Domingues confessa ser, para si, a mais bonita de todas – foi, assim, a sua casa ao longo de toda a semana que passou. Ao terminar o périplo por paróquias, instituições particulares de solidariedade social, escolas e outros organismos, o prelado falou ao 7MARGENS, em jeito de balanço daquele que foi apresentado pela diocese como “um novo modelo de visita pastoral”… e que está já a dar frutos.
7MARGENS – Pode dizer-se que este modelo de visita pastoral é novo por ser mais sinodal?
Bispo Armando Esteves Domingues – Talvez a expressão “novo modelo de visita pastoral” seja exagerada da parte da comunicação da diocese… [Risos] O Espírito Santo conduz os bispos a olharem para aquilo que têm de fazer com os olhos de cada momento… e os olhos que me movem nesta visita pastoral são os mesmos que acredito que movem o Papa neste momento da História da Igreja, em que reúne em Roma bispos, sacerdotes, religiosos, leigos e os põe a rezar juntos, a converter-se juntos, a dialogar sabendo ouvir, seja um clérigo ou um leigo, e também a envolverem-se todos nas decisões.
E claramente, uma das ideias fortes que faz parte da missão do bispo é ouvir as comunidades, conhecê-las, poder estar com as pessoas, com tempo… Diria que a grande palavra da minha visita pastoral é “ouvir”. É conhecer as pessoas, conviver com elas, vê-las onde estão, não em grandes ajuntamentos, mas nos seus pequenos grupos.
7M – Abandonar aquela ideia de que a visita pastoral serve para o bispo ir celebrar os crismas…
Sim, essa foi uma das notas que fiz, e que tenho feito desde que sou bispo: colar os crismas à visita pastoral é anular a visita pastoral!
7M – Que critérios usou para definir o programa desta sua primeira visita pastoral nos Açores?
Quando este ano pus em agenda iniciar as visitas pastorais – um ano e meio depois da minha chegada à diocese – procurei perceber diretamente com as pessoas quais poderiam ser os pontos a abordar. Vim cá antes reunir com os padres e com o conselho permanente do conselho pastoral para perceber isso. E também tive por base os relatórios, muito completos, que os diferentes grupos paroquiais prepararam. Uma das coisas fantásticas que tem acontecido é que, celebrando em cada um dos lugares onde costuma haver eucaristia, praticamente em todos eles, no final, há um convívio onde se podem conhecer as pessoas pelo nome, pelo que fazem, pelo que são… Sinto que este ligar o celebrativo ao convivial é o mais importante, porque se conhecem mais as pessoas nesses momentos. E também introduzi nesta visita algum tempo de atendimento pessoal, para quem quisesse falar comigo fora dos momentos ditos “oficiais”.

Bispo Armando Esteves Domingues cumprimenta paroquianos à saída da missa na Fajazinha. “Ligar o celebrativo ao convivial é o mais importante, porque se conhecem mais as pessoas nesses momentos”, diz. Foto © Igreja Açores
7M – E não se limitou a visitar paróquias ou instituições católicas…
Não… Antes de vir, escrevi uma carta a todo o povo de Deus, saudando as comunidades católicas, mas também os membros de outras igrejas cristãs, membros de outras religiões, e homens de boa vontade. Portanto, a minha vontade era estar com todos. E houve instituições, fora do âmbito católico, que quiseram que eu passasse lá. Foi o caso de algumas escolas, por exemplo…
7M – O que mais o marcou na passagem pelas escolas?
Numa delas, estive com uma turma do 4º ano e foi muito interessante, porque começaram a fazer-me perguntas muito adultas, e algumas até provocadoras… Uma criança perguntou-me: “Como é que tu ouves Jesus?”. Nestas alturas, temos de ir buscar a resposta mesmo ao fundo de nós, para partilhar algo que também as ajude… E sinto que às vezes é nestes ambientes ditos menos cristãos que temos até mais oportunidades de lançar os nossos desafios. Numa outra escola, encontrei-me apenas com os professores, por causa da greve [de pessoal não docente, que fez com que não houvesse aulas]. Como era o dia de São Francisco, e terminava o Tempo da Criação, pude falar um bocadinho com os professores sobre o modo como olhamos toda esta bela Criação, com Deus no centro, e foi também uma oportunidade muito interessante. Nestes ambientes, é onde a mensagem cristã se torna cultura. E a Igreja tem uma palavra a dizer em tantos campos que devemos deixar a nossa maneira de ver e interpretar essas realidades.

Numa das escolas que visitou, o bispo de Angra foi confrontado com perguntas “difíceis”. Foto © Igreja Açores
7M – Também estavam presentes professores de Educação Moral e Religiosa Católica?
Sim, estava o professor de Moral. E esta [a Escola das Lajes das Flores] deve ser a escola com maior percentagem de frequência da disciplina no país… praticamente 100%! Alguns alunos não estão inscritos, mas vão às aulas. Vão judeus, vão filhos de pais não crentes… Há alunos alemães, belgas, holandeses… Quem dá as aulas é um padre que consegue ter uma relação pessoal, de muita proximidade, com as famílias e com as crianças, e que tem feito um trabalho excelente com todos. Estava previsto alguns dos alunos de Moral darem os seus testemunhos. Por causa da greve, não foi possível, mas os professores partilharam comigo os textos que eles tinham preparado… Uma aluna judia dizia o quanto gosta das aulas de Moral, porque lá se fala de Deus, que é pai e amigo de todos!… E isto é maravilhoso, porque vivemos num mundo aberto, um mundo multicultural, onde as pessoas têm de aprender a conviver e a quererem-se bem, sem descurarem os seus próprios valores de referência, sem menosprezarem as suas práticas. Cada um é um dom para o outro e a partir daí cada um tem de dar o seu melhor para o bem de todos.

Num encontro com professores, Armando Esteves Domingues introduziu o tema da importância do cuidado da Criação. Foto © Igreja Açores
7M – A ilha das Flores é um bom exemplo dessa multiculturalidade…
Sim, um ponto que aqui descobrimos interessantíssimo é a presença de estrangeiros, de migrantes. Termos 27 nacionalidades numa ilha com 3.400 habitantes é relevante… Há 8% da população composta por estrangeiros residentes. Estive num sítio em que, num total de 25 pessoas, havia 13 ou 14 estrangeiras. Isto significa que há aqui um desafio importante a ter em conta, que é o da integração, e as visitas pastorais também servem para por em realce aquilo que são os novos desafios.
7M – O que leva tantos estrangeiros a querer viver nas Flores?
Há várias razões que trazem os migrantes. É o lugar mais ocidental da Europa, o que é já em si um pouco poético… depois é uma ilha de uma beleza incalculável. Para mim – e que ninguém me ouça dos Açores – é a ilha mais bonita! [Risos] É de uma beleza única, tem coisas que não se encontram em mais lado nenhum do mundo… Mesmo se chove, se há muitos ventos, e isso causa grandes preocupações todos os dias para perceber se o avião aterra, se o barco chega… Também há gente que quer voltar às origens, que quer estar em contacto com a natureza, que quer viver uma forma de vida pacífica… E há aqui algumas experiências alternativas, que acontecem também noutros pontos do país: pessoas que compram casas isoladas, no meio da floresta, e lá vivem, às vezes com pouca água, alguns penso que até sem luz, dando aulas aos filhos em casa. É um pouco um “fugir ao mundo” e também aqui temos de fazer o possível por integrá-los, e nunca por segregar ou isolar, procurando não ferir aquilo que são as suscetibilidades de cada um e também o desejo ou não de caminhar de cada um. A Igreja precisa de dar voz àquilo que é a sua cultura de integração. Nós não somos gregários, mas somos por uma cultura de integração adequada… No respeito pela diferença, mas procurando que haja integração.
7M – Foi também por isso que escolheu começar pelas Flores, a ilha mais remota?
Optei por ir primeiro às ilhas pequenas (Flores, São Jorge em dezembro, Graciosa em fevereiro, e Santa Maria em março) porque fazem uma única ouvidoria, e desse modo é mais fácil ler a realidade conforme está, e também em conjunto programá-la para o futuro. As ilhas pequenas são uma espécie de laboratório e nesta fase sobretudo um laboratório de sinodalidade…

A palavra-chave desta visita pastoral foi “ouvir” as diferentes pessoas e comunidades. Foto © Igreja Açores
7M – E já há frutos concretos do “laboratório” das Flores, na sequência desta visita pastoral?
Primeiro vimos em que ponto estávamos, depois procurámos conhecer-nos, ouvir-nos, sobre os assuntos da economia, da catequese, da liturgia, da pastoral dos jovens… e agora temos já de tomar decisões em relação ao futuro para continuarmos este caminho sinodal unidos a toda a Igreja. Das reuniões que fizemos todos os dias à noite com grupos sinodais de ouvidoria, saiu a conclusão de que o caminho pode passar por constituir equipas de leigos com um padre assistente nas diversas áreas da paróquia, em que os leigos é que coordenam. É verdade que já há leigos responsáveis em algumas áreas – nomeadamente no setor da caridade e da família – mas a ideia agora é alargar essa corresponsabilidade a mais áreas, como os conselhos económicos, a catequese, os jovens… Um modelo que corresponde àquilo que eu sinto de facto que é este momento da vida da Igreja, ou seja: ao estilo sinodal que leva à corresponsabilidade. Podermos todos fazer em conjunto, mas também sentirmo-nos responsáveis em conjunto. É preciso dar força a esta expressão laical, em que os leigos se sentem responsáveis juntamente com os padres, que os acompanharão e dar-lhes-ão coragem. O Papa dizia no início deste Sínodo que nós não somos donos dos leigos e que deveríamos adotar uma atitude muito mais dialogante para que a corresponsabilidade também fosse natural… E realmente é isso: que nenhum leigo entenda o trabalho pastoral como um favor ao bispo, ao pároco…Que o contributo que damos à comunidade seja expressão deste nosso viver do Evangelho.
7M – Imagino que, nas Flores, seja particularmente difícil encontrar jovens disponíveis para assumir essa corresponsabilidade…
Aqui nas Flores encontrei um pouco aquilo que se passa, não quero dizer a nível nacional, mas pelo menos a nível regional, que é uma espécie de uma depressão pós-parto… sendo que o parto foi a Jornada Mundial da Juventude! Das Flores, participaram 40 jovens. Eram aqueles que constituíam os grupos mais vivos, mais empenhados. Mas entretanto saíram da ilha, foram estudar para outro lado… Com o 9º ano, ou o mais tardar no 12º, quase todos os jovens das Flores saem para estudar noutros lados. Vão para São Miguel, para a Horta, para Angra… para poderem continuar os seus estudos. De repente, um grupo de oito ou dez que era fantástico, mobilizador… desaparece! E essa é uma característica das Flores: é preciso estar sempre a recomeçar. Não há ainda grupos de jovens que tenham recomeçado este ano, mas está feita a reflexão para se recomeçar. Há alguns jovens nos escuteiros, na liturgia, na escola… e todos eles têm uma relação com os párocos, com as comunidades, embora a maioria não participando regularmente na eucaristia, e é com esses que temos de trabalhar. Agora, vamos partir para esta fase nova, tentando que a equipa que coordena a pastoral juvenil seja formada por jovens. É importante que sejam eles os motores, e podem até ser muito ajudados nos trabalhos que fazem por pessoas adultas… mas eles têm de aparecer como protagonistas. O jovem, se não mostrar protagonismo na Igreja e não arrastar também outros a querer ser protagonistas, outros o fazem. Este é sem dúvida um dos grandes desafios que temos, e é onde temos de testar a nossa capacidade de acompanhamento, para que os jovens tenham os valores evangélicos e percebam que a eucaristia é fundamental para os cimentar, e que a vida em grupo e em comunidade é também salvadora em tantas situações.

Há alguns jovens nos escuteiros, na liturgia, na escola… e é com esses que temos de trabalhar”, dando-lhes protagonismo, defende o bispo de Angra. Foto © Igreja Açores









