Nomeação nesta sexta, 3

Bispo de Bragança será o novo arcebispo de Braga

| 2 Dez 2021

José Cordeiro, até agora bispo de Bragança, está a caminho de ser arcebispo de Braga. Foto © Ecclesia.

 

O bispo de Bragança-Miranda, José Cordeiro, pode ser nomeado na manhã desta sexta-feira, 3 de Dezembro, como novo arcebispo de Braga, soube o 7MARGENS junto de fontes eclesiásticas. A notícia terá seguido da nunciatura (embaixada do Vaticano) em Lisboa para as duas cidades do Norte apenas na tarde de dia 2, disse ainda uma fonte que acompanhou o processo. A confirmar-se, a decisão porá fim ao longo processo de mais de dois anos e meio de substituição do actual arcebispo, Jorge Ortiga, que resignara aos 75 anos, tendo em conta a regra canónica.

Tal como sucedeu com a ida do ex-bispo de Angra, João Lavrador, para Viana do Castelo, a escolha de D. José abre uma nova vacatura: Bragança, que se junta a Angra, e também Leiria, cujo bispo quer sair. Estas dioceses estão agora a aguardar nomeação de novo responsável – o processo continua a ser sigiloso e sujeito a segredo pontifício, sob pena de excomunhão e por isso nada se pode confirmar com fontes identificadas, mas os nomes são comentados em muitos circuitos eclesiásticos.

As nomeações de bispos continuam a ser sigilosas e baseadas num inquérito secreto que o 7MARGENS divulgou há meses e que quase só se limita a perguntas de disciplina eclesiástica e doutrina moral.

Pelo caminho, para Braga, ficou a hipótese do actual bispo de Coimbra que, no Verão, outras fontes tinham dito que era a escolha feita. Apesar de nessa altura ter havido vários responsáveis eclesiásticos que garantiram ao 7MARGENS que era para aí que apontava a decisão, um outro garantia que o próprio, que é actualmente vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), não queria sair de Coimbra.

Confirmando-se a escolha de José Cordeiro, este acabará por seguir as pisadas do arcebispo que sai: D. Jorge foi nomeado com 55 anos, o bispo de Bragança vai para Braga com 54 – quando foi nomeado para Trás-os-Montes, há dez anos, era o mais jovem bispo português.

Utilizador das redes sociais como instrumento de comunicação, José Manuel Garcia Cordeiro nasceu em Seles, província de Cuanza Sul, Angola, em 29 de Maio de 1967. É o mais velho de três irmãos – tem um irmão e uma irmã. O pai era comerciante, a mãe professora.

O pai foi para Angola em 1955, a mãe dez anos depois. Voltaram em 1975, fruto da descolonização. Regressou várias vezes ao país onde nasceu e, desde 2010, tem dupla nacionalidade. “Aquela terra deixa um fascínio grande.”

A vocação foi um processo de descoberta lento, apesar de ter ido para o seminário aos 10 anos – o pai queria que ele estudasse fora do concelho de Alfândega da Fé. A morte do pai, quando ele tinha 16 anos, foi um dos momentos em que ele mais reflectiu se a sua vocação era mesmo ser padre.

Do pai recebeu a herança de ter “coragem perante a vida e confiança em Deus”. A mãe, uma “mulher grande”, mostrou-lhe muita coisa: “Preocupação com as pessoas que precisam, amor à verdade, fidelidade à palavra dada, disciplina de vida, compromisso e responsabilidade nos trabalhos da casa e o valor da fé.”

Foi ordenado presbítero em 1991, pouco antes de se licenciar em Teologia na Universidade Católica. Em 1998, foi para Roma especializar-se em Liturgia, concluindo o doutoramento em 2004 no Ateneu Pontifício de Santo Anselmo. Seria ainda vice-reitor (2001) e reitor (2005) do Colégio Pontifício Português em Roma.

Sem medo das tecnologias, mas “nada substitui relação pessoal”

Apesar de ser utilizador das redes sociais, diz que “nada substitui a relação pessoal”. Mas “isso não é possível com toda a gente” e a net pode ajudar, “até para colocar dúvidas”. Hoje é um “meio natural de comunicação que aproxima pessoas”.

“Não há que ter medo das tecnologias, das novas linguagens, da comunicação social.” “O grande comunicador é Jesus Cristo.” Por isso, sente-se “feliz”, repete palavras como verdade e naturalidade, mostra-se afável e bem-disposto, com sorriso ou gargalhada prontos a sublinhar cada afirmação ou cada pergunta.

Fernando Pessoa, Sophia, Torga, estão entre os autores pelos quais José Cordeiro tem uma “estima especial”. Também o italiano Erri de Luca é um dos preferidos. E Etty Hillesum, a judia que morreu às mãos dos nazis em Auschwitz e escreveu um diário onde expressa a sua busca espiritual nos tempos sombrios do Holocausto.

“Estes saem naturalmente, são fruto da leitura. Sempre aprendi que a nossa fonte é a leitura. Ler e aprender, venha de onde vier a verdade, porque as sementes do verbo estão para além da Igreja. Deus não é prisioneiro da Igreja nem dos sacramentos.”

A cultura, a arte, o cinema, podem dar à Igreja “elementos para uma maior inculturação do evangelho”, diz. Trata-se de “perceber que outros, com outras leituras e perspectivas, chegam à mesma verdade”. Por isso cita os autores de que gosta. “É para ver a força do pensamento, não é ornamento.”

Vem a propósito citar Torga: “Andei toda a vida a negar Deus, mas nunca o pude esquecer.” Comenta José Cordeiro: “Trata-se de ver quais são as sementes do evangelho que estão nos nossos autores, que são buscadores da verdade.”

Em Roma, o agora bispo de Bragança-Miranda costumava ir ao cinema. “Fã do cinema italiano”, tem alguma dificuldade com alguns dos seus rumos actuais, diluídos pela política. Nanni Moretti, sim, aprecia. “Fui ver Habemus Papam”, sobre a eleição de um Papa. “Gostei, ri-me. Ridiculariza a parte do conclave em si, mas traz muitas interrogações.” Mas aprecia muito o “cinema de mais reflexão – Pasolini, Fellini, são autores que provocam, alguns pegaram mesmo em temáticas bíblicas e teológicas”.

Na música, a predilecção é pela antiga (Bach, Palestrina) e contemporânea (Marco Frisina, Arvo Pärt). E aprecia recriações femininas na música portuguesa: Kátia Guerreiro, Mariza, Mafalda Arnauth, Teresa Salgueiro…

O bispo dizia, à sua chegada a Bragança, que os padres estão, muitas vezes, reduzidos quase só a serem administradores do sagrado. “O activismo é a nova forma do clericalismo”, observa. O clero teve que assumir muitos serviços e isso faz os padres “andar num rodopio”. Autor de O Padre – Do Mistério ao Ministério (ed. Pedra Angular) diz que o desafio é que eles vivam “para o essencial, para serem pessoas de escuta, dispostas a acolher os outros, a serem facilitadores do encontro com o mistério”.

Quando olha para a Igreja, diz que nunca ela esteve tão bem, mesmo se há problemas – como o de pessoas divorciadas que lhe escreveram, expressando dúvidas e desejos que o Papa Francisco respondeu em 2016, com a exortação Amoris Laetitia. “Os problemas maiores têm de ser sujeito de uma atenção muito especial da própria Igreja. Tem de haver um debate maior e uma abertura maior a estes casos, que devem ser considerados com maior cuidado; não tenho soluções nem receitas, mas a Igreja deve ter atitude materna para com estas situações.”

 

(Nota do autor – A parte do texto sobre a biografia e o perfil do futuro arcebispo de Braga reproduz ou adapta excertos de um texto publicado em Outubro de 2011, no Público/P2, da minha autoria.)

 

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