Com luz verde do Vaticano

Bispo de diocese eslovena aceitou incardinar o padre Rupnik

| 25 Out 2023

Marko Ivan Rupnik, padre jesuíta, arte

Fica agora evidente que, quando em julho passado, a Companhia de Jesus demitiu e se desvinculou de Rupnik, ele já tinha a situação eclesiástica resolvida. Foto © Centroaletti, via Wikimedia Commons.

 

“Não se passou nada, está tudo bem!”, podia ser a frase adequada para aplicar ao padre Marko Rupnik que, depois de ter abusado anos a fio de religiosas, depois de ter sido excomungado, e de ostensivamente ter ignorado as penalizações aplicadas pela Companhia de Jesus a que pertenceu, acaba de ser incardinado numa diocese da Eslovénia, com luz verde do Vaticano.

Segundo divulgou o site da revista católica eslovena Druzina, a diocese de Koper, no sudoeste da Eslovénia, confirmou que o padre-artista solicitou “ad experimentum” (a título experimental) a incardinação (uma espécie de registo e incorporação oficial) e que o respetivo bispo aceitou o pedido, depois de ter consultado o núncio apostólico. Terá argumentado com o direito de um acusado ser considerado inocente, enquanto um tribunal não o dê como culpado.

O 7MARGENS, tendo presente que quer o pedido quer a aceitação, mantidos até agora em segredo, decorreram já em junho deste ano, contactou durante o dia de quarta-feira o serviço de imprensa daquela diocese, procurando obter, além da confirmação, uma informação sobre eventuais missões ou tarefas pastorais atribuídas ao clérigo. No entanto, a resposta, aguardada até ao fim do dia, não chegou.

Fica assim evidente que, quando em julho passado, a Companhia de Jesus demitiu e se desvinculou de Rupnik, ele já tinha a situação eclesiástica resolvida, visto que, segundo o site Silere Non Possum, o pedido apresentado em Koper havia sido feito em 11 de junho e a confirmação da parte do bispo terá ocorrido poucos dias depois, mais precisamente no dia 20, o que é visto como surpreendente, atendendo à complexidade do caso.

Apesar da rapidez da resposta, o núncio apostólico em Liubliana foi ouvido e, de acordo com a mesma fonte, a resposta terá sido: “A incardinação em Koper é uma excelente solução. Não há problema, porque não há condenações, de qualquer maneira”.

Mas terá havido também, da parte do bispo que incardinou Rupnik, consultas junto do cardeal vigário de Roma, de Donatis, e do canonista que analisou recentemente o funcionamento do Centro Aletti, que Rupnik criou e de que continua a ser o nome de referência. O canonista estudou também o processo que levou à excomunhão do padre-artista (ou seja, avaliou, como faz notar o Sillere Non Possum, o processo desencadeado pela então Congregação para a Doutrina da Fé).

Ora, tendo o pronunciamento público do cardeal vigário sido entendido como uma tentativa de limpar a imagem de Rupnik, tudo se conjuga para que os factos destes últimos meses se articulem uns com os outros e sejam vistos como um processo e uma tentativa de fazer passar este escândalo para o plano da história e do esquecimento.

Fabrizia Raguso, professora de Psicologia na Universidade Católica Portuguesa, em Braga, foi a primeira signatária de uma carta aberta dirigida ao Papa e a outros altos responsáveis da Igreja divulgada em setembro último, na qual, com mais quatro ex-companheiras da Comunidade Loyola, denuncia precisamente a operação de limpeza de Rupnik, operada pelo cardeal de Donatis e, sobretudo, o silêncio, abandono e desprezo a que as vítimas de Rupnik (e da ex-superiora Ivanka Hosta, que o encobriu ao longo de mais de 30 anos) foram votadas em todos estes anos, incluindo por Francisco.

Convidada pelo 7MARGENS a comentar este aparente desfecho do caso Rupnik, Fabrizia Raguso começou por chamar a atenção para o cuidado que se manifesta agora em considerar Rupnik com ficha limpa enquanto uma instância judicial não decidir o contrário, mas negar às vítimas o direito que lhes assiste de serem consideradas como vítimas.

Referindo-se ao modo ostensivo como Rupnik se furtou às sanções determinadas pelos superiores jesuítas, recusando-se mesmo a comparecer perante eles para ser ouvido, Raguso considera que esta “arrogância do acusado é assumida como inocência”, enquanto as vítimas continuam, desta forma, “abusadas publicamente”. O que a leva a considerar que “esta Igreja está com os arrogantes”, o que constitui uma mensagem “perversa” relativamente à renovação pretendida pelo Papa Francisco.

A Carta ao Povo de Deus, esta quarta-feira divulgada pelos membros da assembleia sinodal, sustenta que “a Igreja do nosso tempo tem o dever de escutar, num espírito de conversão, aqueles que foram vítimas de abusos cometidos por membros do corpo eclesial e de se empenhar concreta e estruturalmente para que isso não volte a acontecer”.

Todo o processo em torno do caso do padre Rupnik se apresenta como exemplo paradigmático do contraste que ainda existe entre o discurso e a prática da Igreja.

 

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