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Bispos, CEP, José Ornelas, Manuel Barbosa, Virgílio Antunes.

Em causa um congresso em Fátima

Bispo de Leiria não alinha com “coisas estranhas” como as “terapias de conversão” de pessoas LGBT

| 12/04/2024

Bispos, CEP, José Ornelas, Manuel Barbosa, Virgílio Antunes.

José Ornelas nesta quinta-feira, 11, em Fátima: o bispo de Leiria não quer alinhar com “coisas estranhas”. Foto © António Marujo/7MARGENS

O bispo de Leiria-Fátima demarcou-se esta sexta-feira da realização de um congresso dos jovens da Família do Coração Imaculado de Maria, que decorre em Fátima neste fim-de-semana e que contará com a participação de Maria José Vilaça, a psicóloga que tem defendido as chamadas “terapias de conversão sexual” de pessoas LGBT. Em declarações nesta sexta à noite ao 7MARGENS, José Ornelas afirmou que não fica “tranquilo” com a realização do congresso em Fátima e a anunciada participação de Maria José Vilaça. O facto mereceu já uma carta dirigida à Ordem dos Psicólogos que recolheu em 24 horas um total de 1622 assinaturas de profissionais, pedindo que a respectiva Ordem assuma uma atitude firme contra o discurso daquela sua membro.

“Não alinhamos em coisas estranhas como essas”, afirmou o bispo, referindo-se às designadas “terapias de conversão” e garantindo que na diocese se seguem as “orientações da Igreja”. “Temos uma ideia muito clara, que é esta: não se pode fazer nenhuma pressão sobre nenhuma pessoa – como deve ser com qualquer outro tipo de abusos”, assegurou.

A polémica foi-se avolumando na sequência da publicação, no passado dia 4, de uma notícia sobre o congresso no site da diocese. A informação veio do movimento que organiza e a publicação no site correspondeu ao que é feito habitualmente quando se recebem comunicações de movimentos ou estruturas católicas, diz o bispo de Leiria-Fátima – que, no entanto, só tomou conhecimento da informação na manhã desta sexta-feira, 12.

“Da informação descrita na notícia, não inferimos, em momento algum, que haja divulgação e/ou promoção de práticas atentatórias à dignidade humana”, diz um comunicado da diocese entretanto divulgado pela diocese ao princípio da noite desta sexta-feira e enviado também ao 7MARGENS. Por isso, são uma “extrapolação todas as tentativas de associação da Diocese de Leiria-Fátima a este tipo de ideias e eventuais atos discriminatórios”, acrescenta o documento.

O mesmo texto tinha sido publicado pouco antes no site, como “nota do editor”, acompanhando a informação divulgada sobre o congresso, que é assinada por Marina Vieira, uma das responsáveis do movimento promotor do congresso. A Diocese orienta-se pela “doutrina da Igreja expressa no pensamento do Papa Francisco que, na linha da práxis cristã, sempre se posicionou do lado dos mais frágeis e marginalizados, combatendo todas as formas de discriminação”, assegura o texto, reafirmando que a Diocese de Leiria-Fátima “não integra a organização [da iniciativa] e apenas veiculou a informação, como o faz habitualmente com outros movimentos e associações”.

A informação veiculada pelo site começa por apresentar o essencial do programa: o II congresso dos Jovens da Família do Coração Imaculado de Maria tem como tema “Homens e Mulheres de Verdade!” Depois, afirma: “Este ano a preocupação é levar os jovens a refletir sobre a beleza de ser homem e mulher, à luz da Teologia do Corpo de João Paulo II e dar-lhes respostas para as mentiras de uma ideologia de género que destrói a riqueza da identidade masculina e feminina.” Apresenta em seguida os convidados: padre Luigi Polvere, licenciado em Teologia Dogmática que falará sobre o tema “À Procura de um Pai – a crise da paternidade na época pós-moderna”; Teresa Adão da Fonseca, fundadora e colaboradora do programa Love Generation, “que falará sobre os perigos da ideologia de género”, o casal Francisco e Teresa Tovar, que intervém falando “da beleza do amor conjugal como missão para a santidade” e Maria José Vilaça, que aborda o tema da homossexualidade.

 

Contra a ciência e promoção de um crime

homossexualidade, "terapias de conversão"

Imagem do congresso anunciando as conferências de Maria José Vilaça e Luca di Tolve.

As informações sobre o congresso nunca aludem às “terapias de conversão”, mas isso está implícito num outro ponto do programa dos três dias para os quais se prometem “momentosRole Editor de oração, reflexão, workshops, testemunhos e muita animação”. Afirma o texto: “Para além destes oradores, teremos um Testemunho Fabuloso de Luca Di Tolve, vencedor do programa ‘Mister Gay’ em Itália nos anos 90, que viu a sua vida mudar ao perder pouco a pouco os seus amigos mais próximos com sida e perder, também ele, o sentido de viver.”

Luca di Tolve, que fala neste domingo, 14, a partir das 10h da manhã, “vem directamente de Itália para partilhar connosco o seu testemunho de vida e o seu Projeto de acompanhamento dos Jovens a descobrirem a sua verdadeira identidade”, lê-se numa publicação da organização nas redes sociais. Foi quando se voltou para Nossa Senhora que a sua vida mudou, diz o mesmo texto. Luca é casado, tem uma filha e uma associação que pretende “ajudar os jovens de hoje a encontrar a sua verdadeira identidade”.

Uma carta-apelo dirigida à direcção da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), e cuja cópia foi também enviada ao 7MARGENS, recolheu entretanto um total de 1622 assinaturas em menos de 24 horas. O texto refere a participação de Maria José Vilaça no congresso, lembrando que o seu discurso, “para além de ser anti-ciência e contra os Direitos Humanos, constitui uma promoção de um crime, de acordo com o diploma legislativo (Lei n.º 15/2024, de 2024-01-29) que proíbe as denominadas práticas ‘de conversão sexual’ contra pessoas LGBT+”.

Recordando ainda que as posições da psicóloga em causa são recorrentes e motivaram já uma análise disciplinar, a carta enumera a seguir um conjunto de seis princípios do código deontológico da profissão que, de acordo com os signatários, as posições daquela profissional estarão a violar. Por isso, o documento apela à “reflexão e acção” da direcção da OPP no sentido da “atenção e cumprimento” da sua responsabilidade. Estarão em causa questões de respeito pela dignidade e direitos da pessoa, competência técnica, responsabilidade, integridade (não se deixando guiar pelas “próprias motivações ou crenças, preconceitos e juízos morais”), práticas baseadas em conhecimento científico e rigor nas declarações públicas.

A carta lembra ainda que, em Portugal, desde a lei aprovada este ano, “a promoção da repressão ou da alteração da orientação sexual, identidade ou expressão de género é punida com pena de prisão até três anos ou outras penas”.

Neste âmbito, e em relação a eventuais medidas contra a pertença de Maria José Vilaça à Associação dos Psicólogos Católicos, o bispo José Ornelas entende que os bispos não podem ser “controladores de tudo”. Isso seria, diz, “cair num outro dogmatismo”.

O 7MARGENS tentou contactar os organizadores do congresso mas não obteve resposta.

 

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