Depois de ter decidido deixar de iluminar os painéis de mosaicos da autoria do padre e imputado abusador contumaz Marko Rupnik que se encontram nas entradas no Santuário de Lourdes, em França, o bispo local, Jean-Marc Micas, deu agora outro passo simbólico, ao mandar cobrir com folhas de alumínio esses painéis.
Depois de perto de um ano de ponderação, com a assessoria de uma comissão composta por pessoas de diferentes sensibilidades e perspetivas (vítimas, especialistas de história da arte, juristas…), o bispo tinha anunciado, em 2 de julho de 2024, que os mosaicos deixariam de ser realçados, como até então acontecia, através de um jogo de luzes durante as procissões noturnas das peregrinações.
Tratou-se, como ele esclareceu na altura, de “um primeiro passo”, motivado pelas “muitas pessoas que foram vítimas de violência sexual e abuso nas mãos do clero”, que “exprimiram o seu sofrimento e a violência” que a exposição dos painéis representava para elas.
O bispo Jean-Marc Micas entende que o seu papel primordial não é avaliar ou salvaguardar obras de arte, mas “garantir que o Santuário acolha a todos, especialmente aqueles que sofrem e, entre eles, as vítimas de abuso e agressão sexual”, sejam as vítimas crianças ou adultos. “Em Lourdes, as pessoas provadas e feridas que precisam de consolo e reparação devem estar em primeiro lugar”, acrescentou.
Logo nesse momento ficou claro, no comunicado e declarações do responsável pela diocese de Tarbes e Lourdes, que outros passos se seguiriam, e que não se davam naquele momento para evitar polémicas e divisões que poderiam travar as mudanças necessárias. Agora, o pretexto para a cobertura foi o facto de Jean-Marc Micas ter decretado que a basílica de Lourdes seria um dos templos onde o Jubileu pode ser observado e obtida a indulgência plenária. “Passar pelas portas de entrada da basílica [que se abriram esta segunda-feira, 31] deve refletir o significado simbólico do momento”, disse o prelado.
O outro pretexto foi a celebração, na última sexta-feira, 28 de março (e terceira da quaresma), para toda a Igreja da França, do Dia de Oração em memória das vítimas de abuso sexual cometido na Igreja.
Numa nota do serviço de Comunicação do Santuário, refere-se que os próximos passos continuarão a ser ponderados pelo grupo de trabalho que tem acompanhado o bispo. “Preferimos – afirmou este – seguir em frente com calma em vez de ficar sob o fogo de várias pressões. Trabalhamos a longo prazo, pelas vítimas, pela Igreja, por Lourdes e a sua mensagem para todos”.
Bispos de França analisam abusos, em fim de mandato do presidente
Cabe referir que teve início também nesta segunda feira a assembleia plenária da Conferência dos Bispos de França, num encontro que marcará o fim do mandato do atual presidente, Éric de Moulins-Beaufort, que foi peça-chave num processo de gestão complexa de avanços e resistências, que contribuiu de forma significativa para uma mudança de cultura eclesial no que aos abusos diz respeito.
Esta assembleia tem previsto dedicar boa parte dos dois primeiros dias a um “ponto de situação” da luta contra o que os franceses preferem designar por “violências sexuais no seio da Igreja”, desde que, na abertura do seu primeiro mandato, Éric de Moulins-Beaufort alertou os seus pares: “No agitado processo da conversão, devemos começar por nós mesmos”. Nem ele sonharia, então, que, pelo caminho, vários bispos tiveram de ser apeados, quer por abusos cometidos quer por encobrimentos descobertos.










