Bispo de Pemba ao 7MARGENS depois do telefonema do Papa e dos ataques que tem sofrido: “Continuarei a fazer aquilo em que acredito”

| 22 Ago 20

Luiz Fernando Lisboa ficou “muito animado” com telefonema do Papa. Mas, aos ataques públicos de que tem sido alvo nos últimos dias, diz que nem sequer responderá: “Quem não deve não teme.”

D. Luiz Fernando Lisboa. Pemba. Papa Francisco

O bispo de Pemba (Moçambique), D. Luiz Fernando Lisboa, com o Papa Francisco. Foto: Direitos reservados.

 

O bispo de Pemba, Luiz Fernando Lisboa, confessa ao 7MARGENS que ficou “muito animado” com o telefonema que recebeu do Papa Francisco na quarta-feira, 19 de Agosto, manifestando solidariedade e apoio ao povo de Cabo Delgado (Norte de Moçambique) e à forma como o bispo tem levantado a sua voz para defender as pessoas, por causa dos ataques protagonizados por grupos armados.

Ao mesmo tempo, garante em entrevista telefónica, Luiz Lisboa prosseguirá com o trabalho que tem feito: “Continuamos a fazer aquilo em que acreditamos. Tudo o que tenho feito é de acordo com as minhas convicções e com o que a Igreja tem falado ao longo de décadas sobre a democracia, a liberdade e os direitos humanos”, afirma.

Na chamada recebida, às 11h29 da manhã de quarta-feira (menos uma hora em Lisboa), o Papa afirmou que está “bem próximo do bispo e de todo o povo de Cabo Delgado” e que acompanha a situação vivida nesta província do Norte de Moçambique “com muita preocupação”, acrescentando que “tem rezado” pelas pessoas. Desde o final de 2017, mas sobretudo nos últimos meses, sucedem-se uma série de ataques por grupos armados que, em algumas vezes, já se reivindicaram do Daesh, mas cujas razões ainda não estão bem definidas.

Foi com “surpresa e alegria” que, do lado de lá da linha, Luiz Fernando percebeu que era o Papa a ligar, perguntando se havia “mais alguma coisa” que pudesse fazer”. “Agradeci muito a ele por esse gesto e por ter mencionado a crise humanitária que vive a província de Cabo Delgado, durante a bênção urbi et orbi que ele pronunciou no dia da Páscoa, 12 de Abril.”

O Papa já conhece a situação na região, acrescenta o bispo ao 7MARGENS. “Tem manifestado sempre esse carinho e no dia de Páscoa surpreendeu-nos a todos com esse telefonema. Foi um acto de muito carinho ao nosso povo. E agora disse para continuarmos.”

“Seria uma petulância da minha parte aconselhar o Papa no que fosse, para lhe dar alguma sugestão”, responde D. Luiz à pergunta sobre se respondeu alguma coisa quando Francisco lhe perguntou o que era preciso mais. Em qualquer caso, ambos acertaram que, para o que for necessário, Luiz Lisboa entrará em contacto com o cardeal Michael Czerny, responsável do Dicastério do Vaticano para o Desenvolvimento Humano.

No telefonema, D. Luiz contou ainda que disse ao Papa que, “depois de sua menção a Cabo Delgado, houve muito mais interesse por parte de todos (países, dioceses de várias partes do mundo, congregações religiosas, organizações internacionais, individualidades) tanto de dentro como de fora de Moçambique e que, a partir daí, Cabo Delgado voltou para o mapa porque parecia que já não estava”. Francisco respondeu: “Que bom!”

 

Falta de notícias dos atacantes é positiva… e preocupante
Ataque de grupos armados, que se reivindicam do Daesh, na província de Cabo Delgado (Moçambique).

Ataque de grupos armados, que se reivindicam do Daesh, na província de Cabo Delgado (Moçambique), dia 6 de Abril de 2020. Foto: Direitos reservados.

 

Luiz Fernando Lisboa tinha, no entanto, uma má notícia para o Papa: “A difícil situação de Mocímboa da Praia que, neste momento, está tomada pelos insurgentes”. Duas religiosas da Congregação de São José de Chamberry que trabalham na localidade estão sem contacto com a diocese há uma semana. Perante o relato, o Papa comentou: “Que triste!” e prometeu rezar também por essa intenção.

Na conversa com o 7MARGENS, o bispo acrescentou que não há notícias, nos últimos dias, do que se passa em Mocímboa da Praia. A localidade, a cerca de 350 quilómetros a norte de Pemba, a capital da província, continua “tomada” pelos bandos armados que têm atacado a província de Cabo Delgado. As duas religiosas, que davam abrigo a mais de 60 pessoas idosas e crianças na sua casa, não voltaram a dar notícias.

Também não há informações de novos ataques, diz o bispo. E isso é positivo mas, ao mesmo tempo, preocupante, acrescenta: já em outras ocasiões houve vários dias de “silêncio”, após o que os grupos armados apareceram a atacar outras povoações. Os números conhecidos apontam para perto de um milhar de mortos e mais de 200 mil deslocados por causa desta situação, que levou já à destruição de aldeias inteiras, incluindo de lugares onde havia projectos de desenvolvimento postos em prática, como Bilibiza, conforme o 7MARGENS noticiou no final de Fevereiro.

Na conversa do Papa com o bispo, Francisco lembrou ainda a sua visita a Moçambique, há pouco menos de um ano (entre 4 e 6 de Setembro). “Já naquela altura se preocupava por Cabo Delgado”, conta o bispo. Na quinta-feira, 20, a pretexto do aniversário, os bispos divulgaram uma nota pastoral em que reafirmam que o lema da viagem papal – “Esperança, paz, reconciliação” – continua a exigir “um forte, continuado e renovado empenho, no sentido da sua concretização”. No texto, refere-se já a conversa com D. Luiz, que é o secretário-geral da Conferência Episcopal de Moçambique.

No final do telefonema, o Papa disse que está com o bispo Luiz e com o povo. E encorajou: “Adelante!”

 

Ataques ao bispo
Cabo Delgado, Moçambique. Deslocados

Um grupo de deslocados por causa dos ataques de grupos terroristas: calcula-se que haja mais de 200 mil pessoas fugidas das sua aldeias ou vilas. Foto © ACN-Portugal

Há, no entanto, quem tenha considerado que o telefonema do Papa para o bispo de Pemba não existiu. Egídio Vaz, antigo jornalista, que se apresenta como consultor de comunicação e é considerado próximo do Governo da Frelimo, publicou na quinta-feira, 20, na sua página no Facebook (e depois num blogue) um texto com o título “Dom Luiz pode ter ‘inventado’ o telefonema do papa, e explico”.

No texto, escreve: “O Papa Francisco não ouviu do D. Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Pemba de que Moçambique estava sendo alvo de ataques terroristas [sic]. O Papa tem em Moçambique, uma Nunciatura Apostólica e um Conselho Episcopal [refere-se à Conferência Episcopal] que o atualiza. Mais do que isso, o homólogo do Papa em Moçambique é o Presidente Filipe Nyusi, com quem mantém e troca correspondência diversa, para além de obviamente serem amigos.”

Já antes do telefonema do Papa, Gustavo Mavie, ex-diretor da Agência de Informação de Moçambique e membro da Comissão Central de Ética Pública, escrevera também na sua página da mesma rede social que “um dos estrangeiros que têm estado na vanguarda dos que injustamente criticam o Governo de Nyusi e as Forças de Defesa e Segurança que dia e noite arriscam as suas vidas para combater os terroristas em Cabo Delgado é, sem dúvida, o actual Bispo de Pemba, Luiz Fernando Lisboa” (o bispo é de origem brasileira, membro da Congregação da Paixão de Cristo, ou Passionistas, e está em Moçambique como missionário desde 2001, sendo bispo desde 2013).

À Deutsche Welle (DW) África, a rádio pública alemã, o colunista justificou: “Esse bispo, no lugar de apoiar e ajudar o Governo pensar melhor em como resolver os problemas, está a bater na entidade errada. A mim não me parece justo ele culpar o Governo que é liderado por uma pessoa que até é capaz de conversar com o diabo.”

Também na mesma emissora, o bispo respondeu a estes ataques: “Vejo-os com serenidade. Não é a primeira vez e não será a última e nem sou o único atingido. Muitas pessoas são atacadas por falarem a verdade, por trabalharem pela justiça, por defenderem os mais fracos. (…) Há pessoas que pensam que os religiosos só devem ficar dentro da igreja a rezar. Nós trabalhamos com as pessoas, estamos ao lado das pessoas e sobretudo das que mais sofrem. Esse foi o exemplo que Jesus deu e nós não podemos fazer diferente.”

Logo depois da publicação do texto de Mavie, Vaz ainda escreveu: “Acabo de ler o longo texto de Gustavo Mavie sobre o bispo católico de Pemba. Concluo que ele [o bispo] é de facto, um dos logísticos dos terroristas [sic]. É ele quem dá comida aos insurgentes.”

 

“Nem sequer vou responder”

Na semana passada, o Presidente Filipe Nyusi esteve em Cabo Delgado e afirmou, a dado passo, numa intervenção: “Lamentamos por aqueles moçambicanos, que bem protegidos, levam de ânimo leve o sofrimento de quem os protege, incluindo alguns estrangeiros que livremente escolheram viver em Moçambique mas que, em nome camuflado dos direitos humanos, não respeitam o sacrifício dos que mantém erguida esta jovem pátria, e garantir a sua estadia em Cabo Delgado e em Moçambique em geral.”

Apesar de várias pessoas terem visto esta declaração como visando o bispo Lisboa, o próprio não entende assim: “Não me senti visado”, afirma ao 7MARGENS. “Em nenhum momento me senti atingido, estamos fazendo o nosso trabalho.” E os que se afirmam amigos do Presidente e julgam que lhe estão a fazer um favor Penso que estão a fazer um favor atacando o bispo, em vez de ajudar Nyusi “estão a atrapalhar”, considera Luiz Fernando Lisboa.

“Nem sequer vou responder a nada disso”, diz o bispo, acerca dos textos que o criticam. “Como diz o ditado popular: quem não deve não teme. Isto pode ser apenas uma maneira de denegrir a Igreja atacando um dos seus membros”, adianta, dizendo que tem sempre informado o Presidente de todas as notícias que recebe e de todas as suas posições.

Luiz Fernando Lisboa tem uma referência importante: o bispo brasileiro Pedro Casaldáliga, de origem catalã, que morreu há duas semanas. Na sua página no Facebook, D. Luiz Lisboa tem várias referências a Casaldáliga. “Conheci-o e estive com ele várias vezes. Ele era um dos ícones, um marco na Igreja do Brasil em relação à opção preferencial pelos pobres, pela vida no meio do povo, de uma Igreja que que não fica na sacristia, mas ia ao encontro das pessoas”, recorda.

“Escritor, poeta, amante dos mais pobres, era um defensor incansável dos indígenas e dos povos ribeirinhos.” E o bispo de Pemba conclui: “Foi uma grande perda, porque é um santo dos pobres e defensor da causa dos direitos humanos. Mesmo sabendo que tinha 92 anos e já não podia fazer o que fazia por causa da doença, a sua vida continuava a falar.”

 

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