Bispo de Pemba deixa Moçambique, entre ameaças de morte e pouco apoio do episcopado e do clero

| 12 Fev 21

O bispo Luiz Fernando Lisboa “jamais pediria para sair de Pemba (Moçambique), onde a defesa das populações o tornou conhecido internacionalmente. Mas o Papa Francisco nomeou-o para uma diocese brasileira. Não há justificação oficial para a mudança, mas o bispo admite que as ameaças de morte que recebia podem ter ajudado à decisão. Em Moçambique, sectores católicos manifestam a sua tristeza, os bispos limitam-se a agradecer “o abnegado trabalho em tempos e situações tão difíceis”, sem nunca referir as críticas que o bispo fazia à inacção política.

Fernando Luiz Lisboa, Pemba, Moçambique, Bispo

Fernando Luiz Lisboa só voltará a Pemba para passar a pasta ao sucessor. Foto: Direitos reservados.

 

Apesar de dizer que não pediu para sair, o bispo de Pemba (Cabo Delgado, Norte de Moçambique), Luiz Fernando Lisboa, foi nomeado nesta quinta-feira para Cachoeiro de Itapemirim, uma diocese do litoral brasileiro, 400 quilómetros a nordeste do Rio de Janeiro.

Em causa, estarão ameaças de morte recebidas pelo bispo nos últimos tempos, por causa das críticas que lhe têm sido feitas por conta do seu apoio às populações de Cabo Delgado, que há três anos são atacadas por grupos terroristas. O bispo diz que não pediu para deixar Pemba, o que aumenta a incompreensão em muitos sectores da sociedade ou da Igreja em Moçambique pela decisão anunciada pelo Vaticano.

Luiz Lisboa, que o 7MARGENS tentou contactar, sem sucesso, está no Brasil desde a altura do Natal, onde foi para tratar de um problema oftalmológico. O bispo viajou para o seu país depois de ter passado por Roma, onde se encontrou com o Papa Francisco.

Em Moçambique, várias fontes da Igreja Católica manifestaram perplexidade com a notícia, enquanto na hierarquia católica as despedidas e agradecimentos são quase só formais.

Numa curta carta de dois parágrafos dirigida aos bispos, clero e comunidades cristãs, a que o 7MARGENS teve acesso, o presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) e bispo de Xai-Xai, Lúcio Andrice Muandula, limita-se a dizer que agradece ao Papa ter dado a Moçambique “este grande missionário do Brasil como bispo” de Pemba. E acrescenta um reconhecimento a Luiz Lisboa “pelo abnegado trabalho pastoral” realizado na CEM e no país, “mesmo em tempos e situações tão difíceis”. Não faz, no entanto, qualquer referência concreta à situação dos desalojados em Cabo Delgado ou ao que o bispo caracterizava como a inacção do Governo e das autoridades em relação à situação.

 

Críticas ao “silêncio do episcopado”
O bispo de Pemba (Moçambique) com católicos numa aldeia da diocese

Na Igreja Católica, há vozes que dizem que o bispo (na foto, à direita, com mitra) tinha pouco apoio entre parte do clero e dos seus pares do episcopado. Foto: Direitos reservados

 

Outras vozes da Igreja Católica em Moçambique contactadas pelo 7MARGENS dizem que, entre uma parte do episcopado e do clero da sua própria diocese, as denúncias do bispo de Pemba não eram bem acolhidas. Um leigo bem colocado e com prestígio na sociedade brasileira diz ficar triste com a notícia e lamentar “o silêncio da CEM”, que pouco solidária mostrou contra os ataques que o bispo sofreu. E lembra que, no final de Dezembro, o jornal independente Savana elegeu Fernando Lisboa como “figura do ano”, justificando que ele era “a voz da tragédia de Cabo Delgado”.

Uma ex-religiosa também se confessa “triste” pela notícia que afasta alguém “que tem sido voz de muitas e muitas pessoas sem voz daquele povo sofredor”, um “verdadeiro missionário com um testemunho eloquente da sua missionação”.

Três outros padres afirmam igualmente a sua decepção com a notícia. E um deles acusa que há “mão da nunciatura” no processo – o representante da Santa Sé no país, o italiano Piergiorgio Bertoldi, tem sido acusado por alguns de ser demasiado complacente com o Governo moçambicano.

Savana, Fernando Luiz Lisboa, Pemba, Moçambique, Bispo

A primeira página do Savana, com o bispo Luiz Fernando Lisboa como “figura do ano”.

Vários destes testemunhos coincidem na análise de que a decisão do Papa “salva” a vida de Luiz Lisboa. E colocam-no também a par dos bispos Soares de Resende, Vieira Pinto ou Jaime Gonçalves. Os dois primeiros, portugueses, criticaram fortemente o regime colonial, enquanto o terceiro foi o principal mediador das negociações que levaram ao acordo de paz de 1992, entre a Frelimo e a Renamo.

Nas declarações à Rádio Renascença, já referidas, o bispo recorda também que em Moçambique houve vários casos, pro parte da hierarquia católica, de “uma posição muito clara da defesa da população e da dignidade humana”, com bispos a serem acusados e até “expulsos”, como foi o caso de Manuel Vieira Pinto. “Mas a Igreja continua. Sai um bispo, vem outro, é normal isso.”

Pelo contrário, entre os que contestavam publicamente a acção do bispo, o contentamento é notório. Egídio Vaz, antigo jornalista e consultor de comunicação próximo do Governo da Frelimo, escreveu na sua página no Facebook: “Aleluia! Obrigado Papa Francisco. Quando esteve em Moçambique, o Papa Francisco lembrou os Bispos que estes deveriam estar do lado da solução e não do lado do problema.”

Egídio Vaz, recorde-se, tinha posto em causa que o Papa tivesse telefonado ao bispo de Pemba, em Agosto passado. Mas o seu comentário desta quinta-feira no Facebook dividiu opiniões, com pessoas a alinhar pela crítica a Luiz Lisboa, e outras a dizer que deste modo bispo fica a salvo de eventuais atentados contra ele, ou dizendo que as ameaças e pressões resultaram.

 

“Não somos ingénuos”
bispo pemba com presidente Filipe Nyusi, foto FB presidente

O bispo Luiz Lisboa com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, a 31 de Agosto passado: as pressões políticas são uma das razões apontadas para o afastamento do bispo. Foto: Presidência da República de Moçambique.

 

Luiz Fernando Lisboa admitiu nesta quinta-feira à Renascença que os riscos para a sua vida podem estar por detrás da decisão do Papa Francisco, que por várias vezes manifestou publicamente o seu apoio à acção do bispo.

“Pode ser que sim. Eu reconheço a situação delicada do momento e o Santo Padre, analisando toda a nossa situação de Moçambique achou por bem transferir-me. Nós não somos ingénuos, penso que pode ter ajudado nessa transferência”, afirmou, na entrevista citada.

Sublinhando que “jamais pediria para sair”, o bispo relativizava as ameaças que vinha recebendo: “Essas coisas são normais acontecer. Acontece a jornalistas, acontece a militantes pelos direitos humanos e acontece também a membros da Igreja. A isso estamos acostumados, em toda a parte.”

O bispo admite ter recebido “uma ou outra mensagem” e “conselhos” sobre o modo como devia falar.  “Mas quando a pessoa tem consciência do seu trabalho e tem a certeza do que está a fazer, que está correcto, não se deixa amedrontar por essas coisas.”

Para o seu sucessor, o actual bispo auxiliar de Maputo, António Juliasse Sandramo, fica uma situação pesada: mais de meio milhão de deslocados, pelo menos cerca de dois mil mortos e uma população cansada da guerra e da pobreza – quando, na região, há imensos recursos naturais que estão a ser explorados por multinacionais, o que faz com que a questão económica seja a “primeiríssima razão” dos ataques, como denunciava Luiz Lisboa.

O até agora bispo de Pemba fala do seu sucessor – que ficará apenas, por enquanto, como administrador apostólico, ou seja, responsável provisório da diocese até à nomeação de um novo bispo – como uma pessoa “muito preparada”: “Conhece mais a realidade e a história do que eu. E é destemido. Creio que não vai ter problemas”, afirmou à Renascença. “Ele pode dar continuidade ao trabalho e continuar a dar a assistência que a Igreja tem dado aos deslocados”, acrescentava o bispo.

Planos imediatos? O novo responsável da diocese de Cachoeiro de Itapemirim diz que quer voltar a Moçambique para passar a pasta ao sucessor. Em Março ou Abril, espera tomar posse da nova diocese, no estado brasileiro do Espírito Santo, que está sem bispo desde 2018.

 

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