Bispo Jacques Gaillot: o que permanece

| 27 Jan 20

Jacques Gaillot, ex-bispo de Évreux, bispo da diocese virtual de Parténia, numa manifestação em 2011. Foto © Marsupilami92/Wikimedia Commons

 

Faz por estes dias 25 anos que Jacques Gaillot, arcebispo de Évreux (n.1935), foi dispensado da sua diocese, por intervenção e denúncia de católicos conservadores, manifestantes contra as suas causas sociais, os seus testemunhos e defesas formais em tribunal pelas “periferias,” pelos cidadãos sem documentos, pelos mais frágeis na sociedade. Parténia foi a sua “virtual” diocese sem fronteiras, em sequência. Hoje vive em Paris, com os Missionários Espiritanos.

Desde a chegada do Movimento Nós Somos Igreja em Portugal em 1997, liderado por Ana Vicente e Maria João Sande Lemos, o arcebispo Jacques Gaillot, uma das personalidades mais expressivas da Igreja, pastor de paixão pelo Evangelho, a Paz, a Justiça, foi nossa figura próxima, referência de pensamento e atitude em relação às grandes questões desse tempo. Autor de vasta obra, criador do site Parténia, os seus textos de reflexão permanecem, na atualidade que vivemos.

Em uma das várias vezes que esteve em Lisboa, sempre em auditórios esgotados de público, Jacques Gaillot fez uma conferência (8 de setembro de 2004) em parceria com o Centro Nacional de Cultura e na sua sede. O tema era “O futuro da Igreja Católica”.

Reencontro as minhas anotações nesse dia. Permito-me transcrevê-las. Há que pensar sobre o que foi, o que é, o que será:

 

1 – As imagens da Igreja são as caras das pessoas

Falo de uma Igreja que encontra o seu tempo e o vive. Não haveria Igreja se não houvesse mundo. Se o mundo muda, a Igreja tem de mudar. A fé é uma viagem, as coisas mexem. A família mudou, o indivíduo está no centro da sociedade. Houve a evolução das mulheres, que só tiveram em França direito ao voto depois da Guerra. Há mudanças sociais profundas, a democracia instalou-se, deixou de haver ditaduras.

As instituições não gostam de mudanças. É preciso voltar à ideia de que o indivíduo está no centro da sociedade. O discurso normativo deixou de funcionar, cada um quer viver a sua experiência.

A peregrinação: um homem vai a Compostela e não reza. Não entra na Catedral. Não é cristão e não é crente. Está reformado. Quer dar um sentido à sua vida. Falou com peregrinos que lhe disseram coisas que o transformaram. Muita gente procura a transcendência, a espiritualidade, os valores da tolerância e da paz.

É preciso que a Igreja encontre o seu tempo.

 

2 – A Igreja que faz a opção dos pobres

Manifestação de africanos, em frente do Hotel de Ville. Um branco vem e pergunta: “E Deus, no meio disto tudo? Se Deus está com os africanos, não está com os polícias do outro lado.” É a escolha do Evangelho que é importante. Não a dos que são ricos e bem-sucedidos.

Num autocarro. Uma mulher de idade: “Ninguém quer saber dos romenos ciganos.” – O que fez com eles?” – “Não os conheço.” – “Mas conhece gente pobre. Aí descobre Deus.”

Encontrei Deus naqueles que a sociedade rejeita… A Igreja nunca é Igreja sem os pobres… Mas não é por causa dos pobres que devemos ficar com boa consciência.

Os pobres são aqueles que não são amados por ninguém. Como poderíamos viver se cada um de nós não tivesse ninguém a quem amar? Em França e em Paris há muitos suicídios: “Não sou amado, não tenho atenção nem interesse de ninguém,” dizem. Um dia, perguntou-me uma mulher: “O que fazemos quando somos abandonados? O meu marido deixou-me com as crianças, não conheço ninguém em Paris.” – “E reza?” – “Sim.” Já sorriu. “Sim, foi por isso que falei. Não tenho ninguém com quem falar.”

Em Julho de 2003, com a vaga de calor, houve muitos velhos mortos, enterrados, sozinhos. A solidão da velhice. A solidão do Natal.

É preciso anunciar a Boa Nova aos pobres. Aos excluídos de casa, dos pais, do amor. Aos que não têm documentos. São Bernardo é o patrono dos sem-documentos. Ele levava a esperança dos pobres. Jesus vai mostrar-nos a solidariedade, é o ressuscitado que foi condenado, que conheceu a infâmia. Deus está onde levamos a esperança dos pobres.

O bispo Jacques Gaillot (dirª, da diocese virtual de Parténia, com o holandês Jef Ulburghs. Foto © René Peetermans/Wikimedia Commons

 
3 – Que a Igreja pratique o diálogo inter-religioso

“A nossa religião é a boa.” Chove, um homem chega perto de mim, oferece-me a gabardina. Não aceito, chove muito. “São Martinho cortou a capa.” O homem era judeu. Uma mulher veio com o guarda chuva: “Venha abrigar-se.” Era muçulmana. Quando temos tudo, não precisamos dos outros. Quando não temos, precisamos de ajuda. Das outras religiões, da sociedade. É preciso conhecer-se, respeitar-se, estimar-se. Em, França, muitos têm medo do islão. É a segunda religião, há muitas mesquitas, são reconhecidas.

Em Basileia, na Suiça. Uma mulher. “Estou descontente com a Igreja Católica. Trata mal as mulheres.” Outra: “Sou muçulmana.” Silêncio. É preciso conhecer a religião. Aconselho-a a não abandonar a sua religião. Fui convidado para jantar. Se não há paz nas religiões, como pode haver paz no mundo? Nós não fomos feitos para a violência nem para a guerra. Temos a responsabilidade pela paz.

 

4 – O futuro da Igreja

São pequenas comunidades, partilha-se a fé, o convívio com Deus, as reflexões, a procura. Um cristão isolado é um cristão em perigo. A comunidade é o tecido da Igreja.

Para encontrar cristãos em liberdade: É importante a maneira de levarmos a nossa vida. A Liberdade é atrever-se, é ter a coragem da verdade. Não vivemos bem com a mentira. O medo da mulher, a perda de amigos, o medo que os políticos têm de perder o poder, o medo do risco, o medo de falar. A libertação do medo: Jesus livra-nos dos nossos medos. Aqueles que não podem sair, que têm medo, são libertados pelo Espírito Santo, têm a coragem de se expor.

Epístola aos Gálatas: o medo da liberdade, a liberdade dá medo. Porque a liberdade dá medo. As autoridades acordavam as consciências. A liberdade de não prender as pessoas. Jesus não retém as pessoas, não se aproveita delas. Disse-lhes uma palavra de liberdade. Disse-lhes que sigam o seu caminho. Não somos livres para viver, no Evangelho somos livres para o amor. Nas nossas vidas, ou o amor alargou o nosso coração, ou o nosso coração é duro, intolerante. “Tem uma palavra a dizer-me?” Uma velha freira, na Alemanha: “Que o seu coração nunca azede”. Diziam-me uns católicos: “A grande provação da nossa vida é termos filhos divorciados, netos não baptizados.” – “Não se lhes pode dizer uma coisa qualquer” – “Vamos dizer-lhes que deixem de vir a nossa casa.” Felizmente, não o fizeram. É preciso ampliarmos o nosso olhar e o nosso coração. Ámen.

 

Mais discurso direto de Jacques Gaillot, no Mosteiro de Sobrado de los Monges, Galiza
1 – O Movimento da Paz

Há cinco anos está entre  judeus, ateus, muçulmanos, cristãos. Um padre morreu de cancro, chegou uma multidão, gente que nunca tinha ido à Igreja. “Viemos por esse padre que não suportava a injustiça.” Paz e justiça preparam o futuro da Igreja. Temos de viver as bem-aventuranças. Ter vitalidade, estarmos atentos àquilo que se passa.

 

2 – Na Argélia estive com muçulmanos.

Não tinha sacramentos nem igreja. A diocese de Parténia tem o sentido do acolhimento. Eu era o único francês lá no meio de uma família. Fiz amizade com eles. As grandes amizades são importantes. Antes de termos um culto, uma religião, somos humanos. Somos terráqueos, habitantes do planeta, irmãos.

 

3 – As religiões ampliam-se

O conhecimento permite a tolerância. Que as crianças sejam ensinadas nas escolas, não se pode evitar o fenómeno religioso. A escola é um lugar de integração.

 

4 – A estrutura do poder

Os primeiros problemas nunca foram da Igreja, mas da sociedade. Os da Igreja são importantes, mas não são os primeiros. Um homossexual e um amigo vieram à paróquia. Cantavam no coro, quiseram sair: “Um documento do Vaticano revoltou-nos. Vamos talvez deixar a Igreja.” – “Se deixarem, vão dar razão ao instituído. Mas não é o documento que me interessa, é o que vos vai acontecer. Se vão mais longe, se vão transpor o obstáculo.” – “Eu sofro e não peço mais nada e vou-me embora e vou ser mais livre, voltar-me mais para os outros.”

Na montanha ouve-se uma torrente, são as pedras, que são os obstáculos, que fazem o barulho. Os obstáculos da Igreja podem tornar-se caminhos novos, podem fazer-nos ir mais longe. A esperança é ultrapassar as provações, não deixar-se esmagar. Os princípios são feitos para se viver. Graças a este acontecimento não sou o mesmo, abro os olhos. A diocese de Évreux trouxe-me a minha alegria. As provações não podem impedir-nos a alegria. Os que sofrem muito podem perceber os problemas dos outros. Amamos Maria porque sofreu muito e nos compreende.

Acrescentamos anos à vida, mas acrescentamos vida aos anos.”

 

A rematar: “Afinal, o que é um cristão?”, segundo Jacques Gaillot? (a propósito de Parténia, disse em 1 de Dezembro de 2009:)

“Um cristão é

1 – Um homem ou uma mulher de palavra livre, de coração e olhos abertos para este mundo e tudo o que nele acontece.

2 – Que não tem medo de denunciar e combater as injustiças que nele descobre, e sempre que a dignidade humana é desrespeitada. Neste mundo e também na Igreja.

3 – Que escolhe a não-violência neste combate.

4 – Que se deixa guiar em tudo pelo Cristo, e se deixa inspirar pelo Seu espírito.”

 

Saudade de Jacques Gaillot e das suas parábolas a ilustrar o que pensa, vive e faz.

 

Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja-Portugal

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