Bispo Juan José Aguirre: Querem partir a República Centro-Africana em dois por causa das riquezas do país

| 15 Abr 19

“Há uma agenda secreta para dividir a nação em duas, promovida por países muçulmanos e com a cumplicidade de diferentes estados sombrios como o Chade, a Nígéria ou a Líbia”, diz o bispo Juan José Aguirre, de Bangassou (República Centro-Africana).

Juan José Aguirre, bispo de Bangassou, com um grupo de crianças centro-africanas: “há dezenas de crianças que vieram sozinhas para Bangassou e não sabem onde estão os pais ou se eles estão vivos ou mortos, se estão escondidos no mato ou se se refugiaram em alguma aldeia ao longo do caminho.” Foto © ACN Portugal

 

A República Centro-Africana (RCA) não é apenas o país ou um dos países mais pobre do mundo, mas também uma das nações mais perigosas. Há cinco anos que o país vive uma violenta guerra civil. É um confronto permanente entre guerrilheiros islâmicos Séléka, unidades de defesa anti-Balaka da população não-muçulmana, e o exército.

Neste contexto, durante a sua participação numa conferência, na Alemanha, para benfeitores da fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), o bispo Juan José Aguirre Muñoz, espanhol de 64 anos, concedeu uma entrevista a propósito da situação que se vive no país, que o 7MARGENS publica em exclusivo. Aguirre é bispo da diocese de Bangassou (sudeste), desde 2000, e vive ali como missionário há mais de 38 anos.

 

PERGUNTA – A República Centro-Africana dificilmente está nas manchetes, apesar da tragédia humanitária que se lá se vive e que atinge a população civil indefesa. Há ataques brutais, inclusive na sua diocese, Bangassou, onde uma missão foi atacada em 31 de dezembro de 2018. O que aconteceu e quem foi o responsável?

Juan José Aguirre – A cidade de Bakouma foi atacada em 31 de dezembro de 2018 por rebeldes armados de uma facção do ex-Seleka, liderados por Nourredin Adam.

A cidade foi destruída e a missão católica foi saqueada. Uma semana depois, ainda havia cadáveres insepultos nas ruas da cidade. Cerca de nove mil pessoas de um campo de deslocados na cidade de Nzacko fugiram para a montanha em condições dantescas, mulheres e crianças fugindo da violência desses mercenários. Além da população fugindo de Bakuma!

Muitos chegaram a Bangassou, a 130 km de distância, sem forças. As suas vidas foram destruídas. O nosso camião foi ajudar essas pessoas exaustas. No nosso orfanato Mama Tongolo ainda há dezenas de crianças que vieram sozinhas para Bangassou e não sabem onde estão os pais ou se eles estão vivos ou mortos, se estão escondidos no mato ou se se refugiaram em alguma aldeia ao longo do caminho.

Há um ano atrás, a cidade de Nzacko, 80 km mais ao norte, foi também atacada por esses mercenários, a maioria estrangeiros (chadianos, sudaneses, nigerianos,…), que expulsaram todos os não-muçulmanos na cidade. A população não-muçulmana perdeu tudo, muitas pessoas perderam as suas  vidas. A missão católica foi completamente destruída, arrasada: a casa paroquial, o centro médico preparado para as grandes cirurgias, a escola católica, a velha e a nova igreja… Sentimo-nos especialmente perseguidos por estes radicais muçulmanos.

Temos noção de que  no mundo existem milhões de muçulmanos comuns que amam a Deus e respeitam o próximo, mas estesradicais dos Seleka que invadiram a África Central há cinco anos são maus e ignoram o islão.

Trinta muçulmanos (incluindo dois imames) e 20 não-muçulmanos foram mortos durante um dos ataques em Bangassou; entre eles, várias mulheres e crianças. “Temos uma sepultura comum. Só dentro dela há paz.” Foto © ACN Portugal

 

Ainda há ataques contra os campos de refugiados que estão sob o cuidado da Igreja Católica. Em novembro de 2018, eles atacaram o campo que estava no terreno da catedral da cidade de Alindao. Cerca de 2.300 pessoas fugiram. Como está a situação dessas pessoas e como enfrentam o medo que está sempre presente?

JJA – O que aconteceu a 15 de novembro em Alindao, no campo de refugiados não-muçulmanos, foi um crime contra 26 mil desabrigados e desarmados. 80 pessoas morreram, incluindo dois padres: Blaise Mada e Célestin Ngoumbango.

Há atualmente 550 mil centro-africanos em campos destes e muitos deles sofreram agressões e crimes contra a humanidade. Da mesma forma, outros lugares foram criados para pessoas deslocadas, ao lado de várias residências episcopais ou missões [católicas].

 

A sua diocese também acolhe muitos deslocados. Mas aqui aconteceu o contrário, foram os muçulmanos que foram ameaçados…

JJA – Em 15 de maio de 2018, 2.000 muçulmanos de Bangassou foram ameaçados por grupos anti-balaka (ATBK), grupos de autodefesa não-muçulmanos violentos e criminosos. Eles foram então acompanhados por soldados da Minusca (Missão da ONU) para a mesquita de Bangassou.

Poucas horas depois, a Minusca deixou o local e 300 atiradores atacaram impiedosamente a mesquita cheia de mulheres e crianças. Fui com três padres para ficar na frente da mesquita para que os ATBK pusessem fim ao massacre. Em três dias, eles mataram cerca de trinta muçulmanos, apesar da nossa presença direta em frente às armas.

Então, com a ajuda dos soldados portugueses da Minusca, a comunidade muçulmana de Bangassou pediu para se refugiar nos terrenos da catedral. Este local está em funcionamento há um ano e meio. Os ataques do ATBK estão a tornar-se menos frequentes. Por sua parte, os líderes Ali Darass, Abdoulai Hissein ou Alkhatin tentam afastar os não-muçulmanos de suas áreas conquistadas e pretendem dividir o país em dois.

 

Num olhar superficial, pode-se pensar que a RCA está atolada num conflito religioso. No entanto, o cardeal Dieudonné Nzapalainga, arcebispo da capital (Bangui), disse várias vezes: “É absurdo assumir que a religião é a única responsável pelo caos.” Para si quais são as causas reais da guerra civil?

JJA – A luta religiosa é apenas uma máscara para esconder a verdade. Há milhares de mercenários: alguns deles são centro-africanos das etnias rounga e ngoula, mas a maioria são estrangeiros que invadiram a RCA a partir do norte do país, os quais foram ajudados e armados  pelos estados do Golfo e Chade, com a cumplicidade de outros países da União Africana como o Sudão, o Níger, etc. O que eles querem é dividir a nação para beneficiarem da sua riqueza como predadores implacáveis: há ouro, diamantes, mercúrio, platina, gado, etc.

Sob a capa da luta entre muçulmanos e não-muçulmanos (que é verdadeira) ou de um confronto cultural, está escondido um instinto predador sobre a riqueza da República Centro-Africana.

Muçulmanos refugiados no seminário católico de Bangassou: o argumento religioso é uma máscara para ocultar os interesses de outros países nas riquezas da RCA. Foto © ACN

 

As fações rebeldes parecem ter um arsenal de armas inesgotável. Sabe de alguma coisa sobre os seus fornecedores? Existe alguma maneira de a comunidade internacional contribuir para a redução do conflito?

JJA –Os rebeldes estão muito bem armados: munições, veículos, mantimentos… Acho que tudo vem dos países do Golfo com a cumplicidade do governo de Chade. As Forças Armadas da República Centro-Africana (FACA) estão sujeitas a um “embargo” de armas imposto pelas Nações Unidas. É bom ver os instrutores mercenários russos chegarem, mas se a FACA, durante o treino, não estiver armada, que tipo de exército é esse?

O fato de os confrontos se desenvolverem depende dos cinco países com assento permanente nas Nações Unidas, pois estes impuseram um embargo de armas à República Centro-Africana. Quem quer ver a RCA mergulhar num buraco negro? Nos últimos cinco anos, as principais decisões relativas ao país foram tomadas fora da RCA.

Há uma agenda secreta para dividir a nação em duas, promovida por países muçulmanos e com a cumplicidade de diferentes estados sombrios como o Chade, a Nígéria ou a Líbia.

No final, são os mais pobres que pagam o  resultado desta política, apesar de nunca a terem subscrito:mulheres, crianças e jovens perdidos que não sabem o que fazer, meninas que foram violadas nos campos, os idosos que protegemos nos centros sociais (as Casas da Esperança) em Bangassou, acusados ​​de bruxaria, as crianças orfãs de guerra…

Nós, os missionários do Evangelho, estamos com eles para incentivá-los, para infundir-lhes a esperança no futuro, para dizer-lhes que Deus é o senhor da história. Embora as organizações não-governamentais tenham saído com medo de perder a vida, a Igreja Católica permanece sempre no terreno com os mais pobres. Em numerosas ocasiões, em momentos extremos, as pessoas correm para a missão católica para encontrar refúgio.

 

A espiral da violência continua a aumentar. Os não-muçulmanos também pegam em armas. O que faz, como bispo, para evitar essa escalada?

JJA – Durante os últimos cinco anos, organizámos encontros para a coesão social entre muçulmanos e não-muçulmanos, a fim de iniciar um diálogo. Criámos palataformas de mulheres pela paz que realizaram reuniões intercomunitárias para a coesão social. Tudo correu bem. As comunidades muçulmanas moderadas participam do diálogo até ocorrerem novos ataques. Nessa altura, as reuniões deixam de ter razão de ser porque os não-muçulmanos acusam os seus vizinhos de serem cúmplices em seus corações.

Por outro lado, denunciamos casos de crimes contra a humanidade perpetrados tanto pelo Seleka, quanto pelo ATBK, e mesmo por parte de soldados da Minusca, quando alguns contingentes não defendem a população civil e os deixam perecer em massacres, como ocorreu em 15 de novembro em Alindao, com o contingente mauritano.

Em muitas áreas de alto risco, abrimos escolas católicas, tanto em áreas sob controle da Seleka quanto nas que são controladas pelo ATBK. Milhares de crianças muçulmanas e não-muçulmanas acorrem ali durante as manhãs. Jogam, estudam juntos, e ainda usam o mesmo uniforme… Estas escolas criam uma atmosfera relaxada que possa servir como um espelho para adultos nesta área.

É um investimento para o futuro. Eu tiro o chapéu aos professores que querem ir para uma área de alto risco para acompanhar os padres, apesar de arriscarem as suas vidas.

Juan José Aguirre: o apoio de organizações como a AIS tem sido indispensável. Foto © ACN Portugal

 

O que podem fazer organizações como a AIS para contribuir para o desenvolvimento desse país?

JJA – A AIS já nos está a ajudar de uma forma significativa. Os nossos padres, seminaristas e catequistas, que permanecem como pilares fortes em áreas muito complicadas, foram formados com a ajuda da AIS, que também apoia cursos de formação para as famílias cristãs.

 Há lugares na diocese onde muitos cristãos morreram mártires, e o facto de a escola católica ainda funcionar é um milagre. Neste fenómeno está presente a AIS, porque nos ajuda a regressar às famílias que estão exiladas, a reconstruir as suas casas, a colaborar com as crianças órfãs e deslocadas e a apoiar os professores… [Tal como no incentivo] aos pastores, padres e religiosos a recuperar o fôlego, participar em sessões de distensão e encontrar ajuda para os afetados pelo stress pós-traumático.

A Igreja missionária está viva em todo o mundo pela graça de Deus e graças ao trabalho da AIS. Por último, gostaria de dizer que através das publicações e dos meios de comunicação social, a vossa instituição dá visibilidade às tribulações que a igreja missionária está actualmente a viver em todo o mundo.                                                        

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