Bispos admitem Natal confinado, mas dizem que é seguro ir à igreja

| 15 Nov 20

D. José Ornelas na missa pelas vítimas da pandemia, este sábado em Fátima: as pessoas que morreram não são apenas “números de uma estatística”. Foto © Arlindo Homem/Ecclesia.

 

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, disse este sábado, 14, em Fátima, que é “seguro” celebrar nas igrejas católicas, mas admitiu a possibilidade de o Natal ser celebrado com limitações. “Não pode ser a grande família” e isso é “um drama, mas para que os nossos avós cheguem ao próximo Natal, se calhar é necessário que neste Natal não estejamos juntos”, afirmou na conferência de imprensa final da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, que decorreu desde quarta-feira.

Nas declarações, citadas pela Ecclesia, o também bispo de Setúbal pediu à sociedade que aceite a necessidade de “contenção”, se o cenário assim o exigir, com a convicção de que haverá “outras ocasiões” e o importante é “ultrapassar a pandemia”.

Na eucaristia celebrada na manhã de sábado em Fátima, pelas vítimas da pandemia, estiveram também presentes o Presidente da República e o primeiro-ministro. No final, Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas que a forma como se pode passar o Natal, nomeadamente as celebrações religiosas, será ainda objecto de “reflexão”.

“Tudo isso vai ser objeto da audição dos partidos políticos e de reflexão. Vamos pacientemente olhar para isso”, afirmou.

O Presidente elogiou ainda o “comportamento exemplar” da Igreja Católica durante a pandemia: “Eu queria assinalar, agradecer muito à Igreja Católica, que tem sabido interpretar os valores da vida e da saúde, que são valores essenciais para o cristianismo. Nessa medida, tem sido exemplar, nas celebrações, todas elas, aqui em Fátima”, disse aos jornalistas, citado pela mesma fonte, referindo à decisão de ter abdicado da celebração do 13 de Maio e ter limitado a seis mil o número de pessoas presentes a 13 de Outubro.

Quer Marcelo Rebelo de Sousa quer o primeiro-ministro António Costa conversaram com o presidente da CEP e agradeceram o contributo da Igreja Católica na luta contra a covid-19.

Posteriormente, o presidente da CEP sublinharia, na conferência de imprensa final, com os jornalistas, a importância do simbolismo de Fátima, como local “onde tanta gente vem chorar, mas também vem recolher esperança”.

“Não brincamos com a saúde das pessoas”, referiu o bispo. “Fazemos tudo para que seja seguro celebrar na igreja.”

José Ornelas assumiu a intenção de fazer “tudo o que for necessário para defender a vida”, dizendo esperar dos decisores políticos, “sentido de equilíbrio”, para evitar que se morra “do vírus ou da sua cura”.

O Presidente da República e o primeiro-ministro na missa pelas vítimas da pandemia, que decorreu na Basílica da Santíssima Traindade, em Fátima. Foto © Arlindo Homem/Ecclesia.

Aprovado documento sobre protecção de menores na Igreja

Na homilia da missa, o bispo de Setúbal apelou a uma mobilização incondicional da sociedade para defender a vida “com responsabilidade, competência e generosidade”.

“A pandemia que está a condicionar todo o planeta coloca-nos diante da evidência do dom precioso que é a vida humana e de todas as capacidades de que somos capazes para a defender, mas igualmente da fragilidade do nosso ser individual”, afirmou, citado ainda pela Ecclesia.

Os que morreram como vítimas directas ou indirectas da pandemia não são apenas “números de uma estatística”, acrescentou o bispo Ornelas. “Com aqueles e aquelas que nos deixaram, recordamos também quantos os acompanharam de mais perto na derradeira etapa da vida, a maior parte deles nos hospitais e nos lares, mas muitos no isolamento das suas casas: os profissionais da saúde, os investigadores, os cuidadores e colaboradores de tantas profissões e os que assumem a responsabilidade de organizar todo este esforço.”

Tal como fizera no início dos trabalhos da assembleia da CEP, o bispo aludiu ao processo legislativo que visa a legalização da eutanásia, elogiando o “quanto a sociedade está disposta a investir” para defender e apoiar a vida, mas acrescentando que, muitas vezes, não há coerência com esses objectivos e pedindo “proximidade e verdadeira misericórdia para com a fragilidade”.

“Se aprendermos desta epidemia a cuidar uns dos outros e juntos deste mundo, teremos feito justiça e boa memória dos que partiram e dos esforços de quantos os acompanharam na última etapa da vida nesta terra”, acrescentou.

José Ornelas mostrou-se confiante na superação desta “realidade dolorosa”, desejando que ninguém fique “sozinho”, o que exige uma nova cultura de solidariedade. E deu como exemplo as vacinas de que se fala: elas não devem ser “só para quem tem o poder de pagar”. E acrescentou: “Espero que o fim do vírus não signifique business as usual, mas seja uma ocasião para encontrarmos caminhos novos para a humanidade.”

O presidente da CEP colocou ainda em contraste as correntes de solidariedade “muito tocantes”, diante da pandemia, mas também a “linguagem negacionista e populista”, que procura explorar a situação em benefício próprio.

Questionado sobre a quebra de receitas nas instituições católicas, o bispo de Setúbal disse que a sua principal preocupação não é tanto o seu normal funcionamento, mas a redução da capacidade de “assistir” as pessoas que mais precisam. “Há muita necessidade e se o desemprego aumentar, vão aumentar muito o número de pessoas que precisam de ajuda”, acrescentou.

Na assembleia da CEP, foram aprovados ainda dois documentos, que serão divulgados em breve: um, na generalidade, sobre a “situação de pandemia e desafios pastorais para a Igreja”; e um outro, com as “Directrizes sobre a Protecção de Menores e Adultos Vulneráveis”, que procura adaptar as orientações e recomendações da Santa Sé à situação portuguesa, na perspectiva da promoção de uma cultura de “respeito e protecção”.

 

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