“Inquietos” com situação do país

Bispos apoiam oito vítimas de abusos, mas não esclarecem critérios de eventuais indemnizações

| 16 Nov 2023

Os bispos Virgílio Antunes (esqª) e José Ornelas no final da conferência de imprensa: o acompanhamento das vítimas será feito caso a caso. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) está a pagar os tratamentos de oito vítimas de abusos, mas não esclarece que critérios serão usados quanto a eventuais pedidos de indemnização. O presidente da CEP e bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, diz que “a ninguém vai faltar o apoio necessário e, se houver lugar a ajuda financeira” – termo que o bispo prefere ao de indemnização, que classifica como conceito jurídico – “ela também será feita a cada pessoa”.

A afirmação do bispo, em resposta a uma pergunta do 7MARGENS, foi feita na conferência de imprensa realizada após a assembleia plenária da CEP, que decorreu em Fátima desde segunda-feira.

Ornelas assegurou que cada vítima receberá ou está já a receber a “atenção concreta” que o seu caso exige. “Procurámos neste período organizar as respostas a dar [a nível nacional] e já estão a ser assistidas muitas pessoas”, assegurou. Oito, no caso, esclareceu, além de uma pessoa que cometeu abusos.

“O objectivo é, primeiro a recuperação das feridas” e cada caso é acompanhado tendo em conta a situação e necessidades concretas de cada pessoa. O processo é centralizado pela CEP, que estabelecerá “critérios comuns para agilizar” procedimentos.

O 7MARGENS sabe que uma proposta da coordenação nacional das comissões diocesanas de protecção contra os abusos esteve em cima da mesa sobre as regras a adoptar para as eventuais indemnizações. Mas o bispo não esclareceu o que se passou na assembleia em relação ao debate desta proposta nem o tema é referido no comunicado final.

De qualquer modo, o presidente da CEP reafirmou que nem os tratamentos solicitados nem eventuais ajudas financeiras faltarão a quem os solicitar. “Tudo o que se faz é feito de forma solidária com as vítimas.”

Paralelamente, a CEP aprovou um “Guia de Boas Práticas” para lidar com os casos de abuso sexual de crianças e adultos vulneráveis, no contexto da Igreja Católica, que pretende “uniformizar procedimentos e garantir a adequada articulação” entre as diferentes estruturas da Igreja.

A CEP promete divulgar brevemente o Guia, que inclui as denúncias apresentadas junto do Grupo Vita “e a sua articulação com as Comissões Diocesanas e a Procuradoria-Geral da República, assim como a actuação no apoio psicológico, psiquiátrico e espiritual das vítimas e agressores”, diz o comunicado.

José Ornelas respondeu também à questão de saber o que vão os bispos dizer à associação Coração Silenciado, que escreveu a todos os membros do episcopado, a propósito das indemnizações e dos encontros dos bispos com vítimas, e manifestando indignação com o que considera “inacção” do episcopado. “A carta vai ter resposta. Não foram dois ou três bispos que tiveram contactos e encontros com vítimas”, mas a maioria deles, assegurou o presidente da CEP. No entanto, não esclareceu quantos nem justificou o facto de os encontros não serem divulgados, ao contrário do que tem feito o Papa Francisco (e já o seu antecessor, Bento XVI), nos vários encontros que manteve com vítimas de abusos do clero.

O bispo sublinhou ainda o trabalho que o grupo Vita está a fazer na área da formação, de modo a atingir todas as pessoas que, na Igreja, têm contactos com crianças e jovens: catequistas, escuteiros, animadores, coros e grupos litúrgicos, grupos de jovens… Na assembleia, estiveram presentes a coordenadora e uma outra integrante do grupo Vita, Rute Agulhas e Alexandra Anciães, bem como da Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas, Paula Margarido e José Souto de Moura.

 

“Muitas IPSS podem encerrar”

Conferência de imprensa do episcopado: “A grave situação em que vivem muitas famílias no nosso país” preocupa os bispos. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

No outro tema forte da assembleia, os bispos debateram a actual situação social (e política) do país, bem como o momento que vivem as IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social). Para isso, esclarece o comunicado, participaram na assembleia quatro responsáveis de instituições da área: os presidentes da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, padre Lino Maia; do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos; da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas; e da Comissão Nacional Justiça e Paz, Pedro Vaz Patto.

“A grave situação em que vivem muitas famílias no nosso país, com a dificuldade de acesso a bens essenciais e à habitação, às quais começa a faltar a esperança de recuperar das situações de fragilidade em que se encontram, é um retrato social que nos inquieta profundamente”, dizem os bispos no comunicado final.

No mesmo documento, a CEP critica o facto de muitas das mais de 1700 IPSS da Igreja estarem numa situação de aperto financeiro: dos 50% de comparticipação prometidos pelo Estado no Pacto Social assinado há dois anos estão, afinal, a ser pagos apenas 38%. “Muitas destas instituições correm o risco de encerrar”, avisou o presidente da CEP, já que vivem “dramáticas situações no que se refere à sua sustentabilidade e viabilidade futuras”, acrescentava o comunicado.

“É urgente atingir os 50% que são definidos no referido Pacto para viabilizar as instituições sociais em Portugal”, diz ainda o comunicado final, que deixa um aviso para o período eleitoral que se avizinha: “Esperamos dos partidos políticos uma programação que contemple a viabilidade do sector social.”

O bispo Ornelas avisou ainda sobre o aumento previsto do salário mínimo: se ele entrar em vigor e não houver respostas do Estado, muitas instituições verão agravadas as dificuldades que já atravessam.

Quanto à situação provocada pela queda do Governo, ela também preocupa o episcopado, que considera que se deve esclarecer tudo o que se passou o mais rápido possível. Mas “que não se perca a esperança”, pediu o presidente da CEP. Que na segunda-feira, no seu discurso de abertura, avisou contra o aumento dos “messianismos e populismos”, mas hoje não quis ir além da afirmação da preocupação com a situação como a que estamos a viver como potenciadora desses fenómenos – o episcopado não fará nenhuma chamada de atenção especial em relação às forças políticas que eventualmente entrem naquela classificação.

 

Sínodo? Em 2024 veremos

A primeira sessão da assembleia sinodal que decorreu em Roma em Outubro mereceu também uma referência na assembleia e no comunicado. “Aguardando-se ainda as orientações concretas da Secretaria-Geral do Sínodo dos Bispos, esperamos continuar, até à segunda etapa da Assembleia em outubro de 2024, o dinamismo do processo no seio das comunidades eclesiais, contando com a participação de todos, para que sejamos autenticamente uma Igreja sinodal em missão”, diz o comunicado.

Instado a comentar as propostas J e O do relatório de síntese da assembleia, que prevêem “estruturas e processos de averiguação regular da acção do bispo” e “uma consulta dos responsáveis da formação inicial e permanente dos presbíteros”, o vice-presidente da CEP, Virgílio Antunes, assegurou que o bispo “não está acima de todos”, mas que a CEP irá aguardar a segunda sessão da assembleia, em Outubro de 2024, para pôr em prática alguma iniciativa concreta. Por outro lado, afirmou que o documento que regula a formação dos padres, a Ratio Fundamentalis, “precisa de melhorias”, mas admitiu que “há que olhar para o processo de selecção, formação dos seminários e formação contínua dos padres”.

 

Diocese de Braga propõe criação de ministério para o acolhimento e escuta

Sínodo sobre a sinodalidade

Diocese de Braga propõe criação de ministério para o acolhimento e escuta novidade

Apontar para a criação de novos ministérios na Igreja Católica e repensar os já existentes, apostando na formação de leigos para esse fim e tornar os conselhos pastorais efetivos nas comunidades cristãs, com funções consultivas, mas também “executivas” são alguns dos caminhos propostos pela Arquidiocese de Braga, no âmbito da consulta sinodal tendo em vista a segunda sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade, que ocorrerá em outubro, no Vaticano. [Texto de Manuel Pinto]

Todos são responsáveis pela missão da Igreja

Relatório síntese do Patriarcado para o Sínodo

Todos são responsáveis pela missão da Igreja novidade

A necessidade de todos serem responsáveis pela missão da Igreja; o lugar central da família; a atenção às periferias humanas; a importância de ouvir as vozes dos que se sentem excluídos; o reforço dos Conselhos Pastorais Paroquiais; e a promoção da participação das mulheres nos ministérios, incluindo a reflexão sobre “a matéria pouco consensual” da sua ordenação – são alguns dos temas referidos no documento elaborado pela comissão sinodal do Patriarcado de Lisboa no âmbito da preparação da segunda assembleia do Sínodo sobre a sinodalidade.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Cada vez mais crianças morrem na Ucrânia por causa da guerra

“Aumento acentuado”

Cada vez mais crianças morrem na Ucrânia por causa da guerra novidade

O número de crianças mortas em território ucraniano devido à guerra com a Rússia está a subir exponencialmente. Em março, pelo menos 57 crianças morreram e, já durante os primeiros dez dias de abril, 23 perderam a vida. “A UNICEF está profundamente preocupada com o aumento acentuado do número de crianças mortas na Ucrânia, uma vez que muitas áreas continuam a ser atingidas por ataques intensos, 780 dias desde a escalada da guerra”, afirma Munir Mammadzade, representante na Ucrânia desta organização das Nações Unidas de apoio humanitário à infância.

Papa cria comissão independente para escutar as vítimas de abusos

Dominicanas do Espírito Santo, em França

Papa cria comissão independente para escutar as vítimas de abusos novidade

O Papa Francisco acaba de ordenar uma nova visita apostólica ao instituto francês das Dominicanas do Espírito Santo, a fim de aprofundar denúncias de abusos que ali se terão verificado nos primeiros anos da década passada. Esta decisão, anunciada por um comunicado emitido pelo próprio instituto nesta segunda-feira ao fim do dia, vem adensar ainda mais o contexto de várias polémicas vindas a lume nos últimos tempos, na sequência da expulsão de uma religiosa, decidida em 2021 pelo cardeal Marc Ouellet, então prefeito da Congregação para os Bispos

Interfaces relacionais insubstituíveis

Interfaces relacionais insubstituíveis novidade

Numa típica sala de aula do século XVIII, repleta de jovens alunos mergulhados em cálculos e murmúrios, um desafio fora lançado pelo professor J.G. Büttner: somar todos os números de 1 a 100. A esperança de Büttner era a de ter um momento de paz ao propor aquela aborrecida e morosa tarefa. Enquanto rabiscos e contas se multiplicavam em folhas de papel, um dos rapazes, sentado discretamente ao fundo, observava os números com um olhar penetrante. [Texto de Miguel Panão]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This