Bispos católicos apoiam referendo e religiões mobilizam-se contra eutanásia

| 12 Fev 20

Bispos apoiam ideia de um referendo contra a despenaiização da eutanásia; responsáveis católicos e de várias religiões mobilizam-se em apelos a deputados. Grupo de Trabalho Inter-Religioso Religiões-Saúde renova na manhã desta quarta. 12, o apoio aos cuidados paliativos e ao acompanhamento até ao fim da vida. 

P. Manuel Barbosa, porta-voz do episcopado, explicando em Fátima as razões os bispos para o apoio ao referendo. Imagem captada de vídeo da agência Ecclesia.

 

O conselho permanente dos bispos portugueses pronunciou-se nesta terça-feira, 11 de Fevereiro, a favor da realização de um referendo sobre a despenalização da eutanásia. Já na manhã de quarta, 12, representantes de várias religiões que trabalham em instituições de saúde em Portugal juntam-se, em conferência de imprensa, para “reiterar a sua oposição à legalização da eutanásia e suicídio assistido em Portugal”.

No comunicado do conselho permanente, os bispos afirmam: “A opção mais digna contra a eutanásia está nos cuidados paliativos como compromisso de proximidade, respeito e cuidado da vida humana até ao seu fim natural.” E concluem, a partir daí: “Nestas circunstâncias, a Conferência Episcopal acompanha e apoia as iniciativas em curso contra a despenalização da eutanásia, nomeadamente a realização de um referendo.”

O texto recorda que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) publicou, em 2016, a nota pastoral Eutanásia: o que está em causa? Para um diálogo sereno e humanizador. E cita, depois, um parágrafo da mensagem do Papa para o Dia Mundial do Doente, que a Igreja Católica assinala a 11 de Fevereiro: “Queridos profissionais da saúde: qualquer intervenção de diagnóstico, de prevenção, de terapêutica, de investigação, de tratamento e de reabilitação há-de ter por objectivo a pessoa doente, onde o substantivo ‘pessoa’ venha sempre antes do adjectivo ‘doente’. Por isso, a vossa acção tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a actos como a eutanásia, o suicídio assistido ou a supressão da vida, mesmo se o estado da doença for irreversível.”

No final da reunião, em declarações aos jornalistas, o porta-voz da CEP considerou que, no actual quadro, o referendo é uma forma “útil” para “defender a vida no seu todo, desde o princípio até ao seu fim natural”.

 

A vida não é referendável, mas…

O padre Manuel Barbosa acrescentou que as propostas de despenalização não foram suficientemente debatidas na campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2019: “O debate deve continuar e a sociedade deve ser ouvida, numa questão essencial da vida, que nunca é referendável. Mas é uma forma de ouvir a sociedade, o que tem a dizer numa matéria tão importante da vida e da dignidade humana”, sustentou. Não negando que o Parlamento tem legitimidade para decidir sobre o assunto, o porta-voz da CEP insistiu: “É um assunto tão sério para a sociedade, que a sociedade tem de ser consultada.”

Não é a primeira vez que a hierarquia católica insiste na ideia de que não se pode referendar a vida, mas aceita a ideia do referendo como um mal menor. Tal já aconteceu nos referendos sobre a despenalização do aborto.

Agora, depois da apresentação de quatro projectos-lei – PS, Bloco de Esquerda, PAN e Os Verdes – que irão a votos no Parlamento no próximo dia 20, vários bispos se pronunciaram contra a despenalização, insistindo na importância dos cuidados paliativos e começando a admitir a possibilidade de um referendo, como recordava a agência Lusa, citada no DN.

O bispo auxiliar de Braga, Nuno Almeida, escreveu mesmo uma carta aberta aos deputados na qual afirma que “quer a eutanásia, quer a obstinação terapêutica desrespeitam o momento natural da morte (deixar morrer): a primeira antecipa esse momento, a segunda prolonga-o de forma artificialmente inútil e penosa”. E acrescenta: “Não há dúvida de que há doentes que se sentem mortos psicológica e socialmente (mergulharam numa vida sem sentido e experimentam a mais profunda solidão) e parece-lhes que já só lhes falta morrer biologicamente. Quererão realmente morrer ou quererão sentir-se amados?

 

O sofrimento e a vida que “assim” não vale a pena

Na sua última crónica no Expresso, o cardeal Tolentino Mendonça, responsável da biblioteca do Vaticano, descreveu as que considera as “10 razões civis contra a eutanásia”. Num dos parágrafos, diz: “O sofrimento humano é uma realidade do percurso pessoal, que pode atingir formas devastadoras, é verdade. Mas o próprio respeito devido ao sofrimento dos outros e ao nosso deve fazer-nos considerar duas coisas: 1) que temos de recorrer aos instrumentos médicos e paliativos ao nosso alcance para minorar a dor; 2) que temos de reconhecer que o sofrimento é vivido de modo diferente quando é acompanhado com amor e agrava-se quando é abandonado à solidão. É fundamental dizer, por palavras e gestos, que ‘nenhum homem é uma ilha’”.

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