Bispos brasileiros acusam Bolsonaro de “incompetência”, “totalitarismo” e “obscurantismo”

| 28 Jul 20

claudio hummes Foto Diocese de Santo André

O cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, é um dos 152 signatários da carta contra Bolsonaro. Foto © Diocese de Santo André.

Um grupo de 152 bispos brasileiros assinou uma carta contendo inúmeras críticas ao governo de Jair Bolsonaro. A publicação do texto estava prevista para o passado dia 22 de julho, mas foi suspensa pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para que o seu conteúdo fosse revisto. Na versão original, à qual o jornal brasileiro Folha de São Paulo (ligação reservada a assinantes) teve acesso, os responsáveis católicos acusam o atual Governo de “incompetência” e “incapacidade” para enfrentar a crise, e de agir contra a democracia, aproximando-se do “totalitarismo” e apelando a “ideias obscurantistas”.

“O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma ‘tempestade perfeita’ que, dolorosamente, precisa de ser atravessada”, começam por reconhecer os bispos na sua “Carta ao Povo de Deus”.  A causa dessa tempestade, na opinião dos signatários, “é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governação”.

“É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário”, continuam os bispos. E a posição que assumem é bastante crítica. “Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises”, afirmam.

Entre as principais críticas apresentadas, incluem-se o facto de o governo “se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia”, nomeadamente o recurso a “notícias falsas”.

Os bispos referem também “o desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia”, visível nas “demonstrações de raiva pela educação pública, no “apelo a ideias obscurantistas”, na “repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa, ou na “indiferença pelo facto de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infetados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde”.

A carta alude ainda ao facto de o ministro da Economia “desdenhar dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos económicos” e ao receio de que o número de desempregados possa “ultrapassar 20 milhões de brasileiros”.

Os mais de 150 bispos que assinam o texto acusam ainda o Governo de demonstrar “omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade”, recordando que Bolsonaro “sob o argumento de não haver previsão orçamental, (…) vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais”.

“Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes”, denunciam os bispos brasileiros, que terminam o texto com a proposta de “um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito”.

Entre os signatários da carta, incluem-se o arcebispo emérito de São Paulo, Claudio Hummes, o bispo emérito de Blumenau, Angélico Sandalo Bernardino, o arcebispo de Belém, Alberto Taveira Corrêa, o bispo auxiliar de Belo Horizonte, Joaquim Giovani Mol, e o arcebispo de Manaus e ex-secretário-geral da CNBB, Leonardi Ulrich. De acordo com a Folha de São Paulo, o grupo de signatários receia agora que os seus colegas mais conservadores impeçam a divulgação do documento através dos canais oficiais.

 

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