Bispos católicos alertam para agravamento de crise sem “paralelo” e destacam importância do papel do Estado

| 18 Jun 20

Conferência Episcopal. José Ornelas.

Conferência de imprensa final da assembleia do episcopado. Foto © Agência Ecclesia.

 

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) alertou nesta quarta-feira, 17 de Junho, para “uma crise económica e social de uma dimensão que não tem paralelo na história mais recente”, podendo prever-se “que o desemprego e o agravamento da pobreza atinjam níveis muito elevados”. Um quadro que fez emergir a importância do papel do Estado e dos serviços públicos, em particular na área da saúde: “As despesas com esses serviços não são supérfluas ou facilmente dispensáveis”, dizem os bispos.

O diagnóstico levou o novo presidente da CEP e bispo de Setúbal, José Ornelas, a afirmar, citado pela Ecclesia, que a crise “terá tendência a agravar-se nos próximos meses”, em particular para as famílias mais carenciadas e pessoas que se viram sem recursos “de repente”.

No documento com o título “Recomeçar e Reconstruir”, divulgado no final da assembleia da CEP, que decorreu desde segunda-feira, em Fátima, os bispos avisam para o aumento dos pedidos de ajuda de bens alimentares, “que se têm multiplicado como nunca se viu no passado recente”, e apelam a um esforço conjunto entre empresários e trabalhadores, para enfrentar o drama do desemprego.

“A pandemia fez-nos perceber como essas situações põem em causa toda a sociedade. É um escândalo e um perigo, uma sociedade como a nossa não se pode dar ao luxo de ter bolsas de pobreza, que acabam por ter uma consequência para a sociedade inteira”, referiu o presidente da CEP na conferência de imprensa no final dos trabalhos.

“O que esta pandemia veio dizer é que precisamos de um Estado que assegure o fundamental da vida e da população. Assegure, não significa que tem de fazer tudo, mas é muito importante que esteja bem presente”, afirmou.

Não se pode voltar “a experimentar a situação de penúria” vivida durante as últimas crises, que tiveram uma “repercussão social dramática” na península de Setúbal, onde José Ornelas é bispo desde há cinco anos. Por isso, a resposta económica e política não deve deixar “ninguém para trás”, com particular preocupação para a situação dos mais velhos, acrescentou.

O bispo referiu, aliás, a situação “dramática” vivida em vários lares de idosos, manifestando o desejo de que se aprenda com os erros para “evitar dramas destes”, no futuro.

 

Anti-racismo? “Exageros compreensíveis”

No documento, a CEP elogia o esforço das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), alertando que o Estado “nem sempre tem actualizado as comparticipações devidas” e “estão no limite da sustentabilidade”. E acrescenta: “Não pode deixar de lamentar-se que muitas das mortes provocadas por esta pandemia tenham ocorrido em lares de idosos, mortes que, porventura, poderiam ter sido evitadas se esses lares tivessem beneficiado de outros apoios.”

O bispo de Setúbal, eleito terça-feira para o cargo de presidente da CEP, chamou a atenção ainda para a importância de defender a vida, que “é o suporte para todas as outras dimensões”, em todas as suas etapas. Não só no início e no final, as “fases mais frágeis do existir”, como também “no decurso da vida”, o que “tem a ver com as condições de miséria e precariedade a todos os níveis sociais”.

Nas declarações aos jornalistas, José Ornelas referiu também os casos de esgotamento que afectam os profissionais de saúde, pedindo melhores condições para que estes possam “exercer bem o seu papel”.

Acerca do papel da Igreja Católica, o bispo considera que ela tem sabido “inventar formas de estar presente” na sociedade, procurando “caminhos ajustados à realidade”, mas que o regresso à normalidade exige tempo e “criatividade”, integrando a presença física e os meios digitais em novas soluções. E, sobre os problemas sociais e políticos decorrentes da pandemia, diz que tem a intenção de encontrar “meios de convergência” com as forças políticas.

Questionado sobre as recentes manifestações contra o racismo e a violência policial, com destruição e vandalização de estátuas, o presidente da CEP considerou que houve “exageros compreensíveis”, mas que não é desse modo que se resolve o problema. Antes é necessário “construir uma história nova”, em vez de procurar reescrever o passado, acrescentou. “A luta contra a discriminação, qualquer que ela seja, racial, económica, cultural, isso tem de ser constante. O Evangelho, apresentado como forma de união de todos, das diversas culturas e línguas deste planeta, é um projecto novo.”

 

Sufrágio pelas vítimas em Novembro

No documento de oito páginas, aprovado e divulgado no final da reunião, os bispos da CEP escrevem que a pandemia “pôs a descoberto o perigo de manter pessoas em situação de miséria, como os sem-abrigo, os imigrantes recentes e requerentes de asilo, bem como os habitantes de bairros de lata ainda infelizmente presentes no nosso país”.

A quarentena, “com todas as limitações que acarretou”, salvou “muitas vidas”, elogia a CEP, que enaltece ainda o esforço acrescido de solidariedade, que se vê na sociedade, na “redescoberta do valor inestimável” da vida humana. E acrescenta o texto: “A morte não teria remédio, a crise poderá tê-lo nos seus aspectos mais dramáticos com esse esforço acrescido e inédito de solidariedade. Sem a solidariedade efectiva nunca conseguiríamos vencer esta crise.”

O documento sugere ainda que as medidas de reabertura das actividades sociais e económicas devem ser guiadas por “critérios éticos”, distinguindo “exigências de curto prazo e excepcionais e o que são opções de mais vasto alcance”. Ao mesmo tempo, chama a atenção para as desigualdades que o ensino à distância veio agravar, pois há famílias sem os necessários meios informáticos, nem capacidade de substituir os professores.

A CEP refere-se ainda ao tema da eutanásia. A partir de uma ideia do cardeal Tolentino Mendonça no discurso de 10 de Junho, sobre o pacto inter-geracional, escrevem que, durante este tempo de confinamento, ficou claro que “toda a vida humana tem um valor inestimável, a vida de um idoso ou de um doente, mesmo que com menor expectativa de anos pela frente”.

Para os bispos católicos, “a legalização da eutanásia e a mensagem cultural que essa legalização acarreta contraria notoriamente estas lições e redescobertas, relativas ao valor inestimável de cada vida humana e à nobreza da missão dos profissionais de saúde”.

Referindo-se a questões mais globais, o texto apela a uma “economia mais amiga do ambiente” e à “globalização da solidariedade” e diz que a reconstrução a fazer “deve evitar destruir o que a globalização tem de positivo e, ao mesmo tempo, corrigir o que ela tem tido de negativo”. O acesso a uma eventual futura vacina deve ser universal, enquanto a União Europeia deve “agir como verdadeira comunidade, e não como simples conglomerado de interesses contrapostos em busca de compromissos”, lê-se ainda.

A Conferência Episcopal manifesta também o seu apoio às iniciativas das Cáritas Portuguesa, diocesanas e paroquiais, bem como às Conferências Vicentinas e outros movimentos pela disponibilidade para “ampliar a partilha de bens”. E anuncia uma eucaristia em sufrágio das vítimas da pandemia em Portugal, a celebrar no final da próxima assembleia da CEP, em Novembro, em Fátima.

(Excertos da primeira conferência de imprensa do novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, o bispo de Setúbal, José Ornelas; vídeo: agência Ecclesia.)

 

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