Forçando normas do Vaticano

Bispos católicos da Flandres propõem ritual para casais homossexuais

| 20 Set 2022

Willy Bombeek, Homossexualidade, Bênção casais do mesmo sexo

Willy Bombeek, nomeado pelos bispos da Flandres como responsável do “ponto de contacto ‘Homossexualidade & Fé’ dentro da Igreja Católica”. Foto © IPID

 

Foi a surpresa esta terça-feira, 20 de setembro: os bispos católicos belgas da parte flamenga do país publicaram uma proposta de texto para um ritual de oração com casais do mesmo sexo que pretendem a bênção do seu compromisso no seio da Igreja. Ao mesmo tempo, instituíram o que designam por “ponto de contacto”, que é uma pessoa nomeada para fazer a ligação e acolher.

O comunicado, intitulado “Estabelecimento do ponto de contacto ‘Homossexualidade & Fé’ dentro da Igreja Católica”, e um anexo com a fundamentação e o esquema do ritual foram disponibilizados na página da Conferência Episcopal Belga. Os bispos flamengos vincam que, com a criação do “ponto de contacto”, querem “dar resposta e substância concretas ao desejo de prestar atenção explícita na formulação de orientações relativamente à situação dos homossexuais, seus pais e familiares”.

O comunicado refere, por outro lado, que esta política de proximidade com as pessoas homossexuais ficará integrada no Serviço Inter-diocesano de Pastoral Familiar, tendo como coordenador Willy Bombeek, um cristão que se assume como homosexual. Além disso, cada diocese designará alguém para prestar o mesmo serviço de referente, no âmbito da pastoral familiar diocesana. Ele ou ela será o ponto de contacto para essa diocese.

Em declarações à Associated Press (AP), Tommy Scholtes, porta-voz da Conferência dos Bispos da Bélgica, negou que a proposta fosse uma “bênção” ou, muito menos, um casamento sacramental. Acrescentou que a iniciativa faz parte da decisão dos bispos belgas de instituir pessoas de contacto dentro de cada diocese encarregadas da pastoral dos gays.

Com esse “ponto de contacto” criado, Scholtes disse que haverá “uma oportunidade para os casais homossexuais orarem juntos, e outras pessoas também poderão orar por eles”. “Mas não há bênção, troca de consentimento, não há nada que se assemelhe a um casamento”, voltou a sublinhar à AP.

A cerimónia proposta prevê, na sua estrutura, uma palavra inicial, a oração de abertura, leitura das Escrituras, bem como os textos de duas orações – uma comprometendo ambas as partes a si mesmas e a outra, uma oração da comunidade pelo casal – e termina com a oração do Pai Nosso, uma oração de encerramento e uma bênção. Este último ponto parece contradizer as palavras do porta-voz dos bispos.

O episcopado flamengo recorda, no texto anexo ao comunicado, que a comunidade católica no país tem vindo a trabalhar, em conjunto com outros atores sociais e em todos os seus setores, para criar um clima de respeito, reconhecimento e integração das pessoas do mesmo sexo. Além disso, muitas delas estão envolvidas em associações da igreja.

Sobre as medidas agora tomadas, os bispos dizem-se apoiados pela exortação apostólica Amoris Laetitia, que o Papa Francisco escreveu depois do Sínodo dos Bispos, em 2015. Aí, sublinha o texto, o Papa “afirma explicitamente que todo o ser humano, independentemente da sua orientação sexual, deve ser respeitado na sua dignidade e tratado com respeito” (n. 250). “Queremos continuar nesse caminho, dando a essa pastoral um caráter mais estrutural”, observa o documento.

Os passos dados, especialmente a oração e bênção, são vistos como um pisar de risco vermelho face ao que o Vaticano definiu, não há muito tempo. De facto, em fevereiro de 2021, em resposta a uma dúvida sobre se a prática de abençoar uniões do mesmo sexo era permitida, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), declarou que não.

Na época, a CDF aceitou que “a comunidade cristã e os pastores são chamados a acolher com respeito e delicadeza as pessoas com inclinação homossexual, sabendo encontrar as modalidades mais adequadas”; não excluiu que “sejam dadas bênçãos a indivíduos com inclinação homossexual”, desde que “manifestem a vontade de viver na fidelidade aos desígnios revelados de Deus”, mas “declara ilícita toda a forma de bênção que tenda a reconhecer as suas uniões”. Ou seja, considerando as relações entre pessoas do mesmo sexo “desordenadas” e pecaminosas, a Igreja pode abençoar os pecadores, mas “não abençoa nem pode abençoar o pecado”.

Comentando esta situação para a Associated Press, o padre jesuíta e jornalista norteamericano James Martin, que se tem dedicado à pastoral das pessoas LGBTQ, com o apoio do Papa Francisco, reconheceu que o texto em língua flamenga sugere a proposta de uma bênção.

Dado que é um casal do mesmo sexo que está na oração, “então está-se a pedir a Deus para estar com parceiros do mesmo sexo não apenas na casa que eles partilham, mas no que a oração chama de ‘compromisso’”, disse Martin, autor do livro Construindo Uma Ponte, que acaba de ser publicado em Portugal (ed. Paulinas), e do qual o 7MARGENS publicou o prefácio da edição portuguesa.

“Por isso, a menos que esteja a faltar algo na tradução, sendo certo que a oração não é uma ratificação formal do casamento entre pessoas do mesmo sexo, quando é invocada a misericórdia de Deus, está-se a pedir a Deus para as abençoar.”

 

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