“Preocupados” com situação social

Bispos consideram “descabido” falar de ocultação de abusos

| 28 Abr 2022

Conferência de imprensa da 202ª assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, com o bispo José Ornelas (c), presidente da CEP e bispo de Leiria-Fátima, Virgílio Antunes (e), bispo de Coimbra, e p. Manuel Barbosa (d), secretário da CEP. Foto © António Marujo

Conferência de imprensa final da assembleia do episcopado, com o presidente da CEP, José Ornelas, ao centro. Foto © António Marujo

 

Falar de “indícios de encobrimento” de abusos sexuais por parte de bispos, neste momento, “parece descabido”, considera o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, reagindo deste modo à avaliação feita há duas semanas pela Comissão Independente que estuda os abusos sobre crianças dentro da Igreja.

A declaração surgiu ao início da tarde desta quinta-feira, 28, na conferência de imprensa final da assembleia plenária da CEP, que reuniu em Fátima desde segunda, 25. Embora admitisse que aguarda a “conclusão” do estudo da comissão e que não tem “dados concretos” sobre o tema, o também bispo de Leiria-Fátima acrescentou que “as coisas são para ser tomadas seriamente, mas com dados concretos”.

“Aguardo a conclusão de tudo isso”, disse D. José, referindo-se aos eventuais casos de encobrimento, “tal como sobre as 16 denúncias” que foram remetidas pela Comissão Independente ao Ministério Público. E que estão, para já, em “segredo de justiça”, que deve ser “realmente preservado”, aguardando com “serenidade” a conclusão dos processos, de modo a que “a justiça não se faça na praça pública”. Para já o presidente da CEP afirma, sobre esses casos: “Não tenho dados. A seu tempo sim, [iremos pedi-los], mas há coisas que só perceberemos no fim.”

Os membros da Comissão Independente para o Estudos dos Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Católica participaram na reunião da CEP esta semana. O 7MARGENS sabe que em alguns sectores da Igreja não caiu bem o facto de a comissão ter feito a conferência de imprensa de balanço do trabalho dos três meses em plena Semana Santa – dia 12 de Abril. Mas, inquirido sobre se a comissão – criada por iniciativa dos bispos – estaria a falar demais, o presidente da CEP respondeu: “Não, a comissão faz o seu trabalho e nós estamos satisfeitos e gratos por isso.” Mas relativizou os “indícios” de que falou o coordenador daquele organismo, o pedopsiquiatra Pedro Strecht, afirmando que “é preciso ver que sentido se dá ao encobrimento”.

O bispo Ornelas foi enfático na defesa que fez do bom relacionamento entre os bispos e os investigadores: “Temos contactos muito cordiais sobre o andamento do trabalho da comissão, mas não temos acesso à informação. Nós não somos a comissão, ela trabalha autonomamente e está a funcionar muito bem. Ter dado autonomia [de funcionamento à comissão] significa que não somos nós a gerir esses resultados.”

José Ornelas insistiu também que “é importante” que a comissão divulgue a informação que achar conveniente, “para que se crie cultura e uma forma de pensar, que passe para a opinião pública [a ideia de que os abusos] não podem acontecer e que, se acontecer”, a Igreja não vai “pactuar”.

Acerca das faltas de respostas de alguns bispos para reunir com a Comissão Independente, o presidente da CEP reafirmou que “ninguém se recusou” a responder, mas que o prazo estipulado para tal era depois da assembleia plenária que agora se realizou.

No seu discurso de abertura dos trabalhos da assembleia episcopal, D. José Ornelas tinha vincado a ideia de que os bispos reafirmam o “pedido de perdão” – que, no entanto, até agora foi feito apenas em declarações públicas e avulsas, e não em qualquer celebração específica para o efeito, como já fez o Papa. No comunicado final da assembleia, lê-se agora: “Às pessoas que passaram pela dramática situação do abuso no âmbito eclesial, os Bispos reafirmam um sentido pedido de perdão, em nome da Igreja Católica, e o empenho em ajudar a curar as feridas. Agradecem também a quem se aproximou para contar a sua dura história, superando compreensíveis resistências interiores.”

Na conferência de imprensa, o presidente da CEP insistiu no apelo a que eventuais vítimas falem. “Temos de ter uma clara noção do que existe e como é que o vamos tratar, [para] identificar o que há, de forma cabal e clara”.

Questionado sobre o porquê das afirmações aparecerem desligadas de qualquer momento mais solene, José Ornelas considerou ser “importante reafirmar” o pedido de perdão. “Estamos a fazer um percurso, a sua conclusão vai ter momentos próprios”, garantiu. E sobre o eventual pedido de perdão público pelo facto de ainda há pouco tempo vários bispos – por exemplo, os do Porto ou Lamego – desvalorizarem a importância de uma comissão de investigação para o caso português, o presidente da CEP admitiu que há um caminho feito também pelo episcopado: “Há uma evolução da Conferência Episcopal, da Igreja e da sociedade. A perspectiva onde nos movemos e que fez mudar [a mentalidade] é a dos direitos de vítimas e crianças. Hoje percebemos a situação de modo diferente.” E acrescentou, garantindo que a decisão de criar a comissão foi criada por “unanimidade” pelos bispos: “A consciência vem da evolução social e da evolução da Igreja.”

Sobre a eventual aceitação da quebra do segredo de confissão para investigar abusos, o bispo de Leiria-Fátima foi peremptório: “Não está, nunca esteve nem estará em questão. É importante debater as coisas, mas no respeito pelas pessoas e este segredo não vai ser posto em causa, seria uma injustiça muito grande, pois abalaria toda a confiança necessária na confissão.”

Na assembleia plenária, esteve também o historiador Francisco Azevedo Mendes, professor da Universidade do Minho que coordena a equipa de historiadores e arquivistas que vai proceder à consulta dos arquivos das dioceses e congregações religiosas. O comunicado final reitera que a CEP e a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal têm “todo o interesse em colaborar” com esse estudo, mas José Ornelas disse que a metodologia de acesso aos arquivos está a ser ainda afinada – até porque a própria organização dos arquivos está, em vários casos, “muito atrasada”. Mas é importante que “não restem dúvidas”, afirmou.

 

“Extremamente preocupados”
O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e bispo de Leiria-Fátima, na conferência de imprensa final da 202ª assembleia plenária da CEP, 28 Abril 2022. Foto © António Marujo

D. José Ornelas: “É necessária uma resposta adequada, por parte do Governo, para que o sector [social] não paralise.” Foto © António Marujo

Noutro ponto das declarações aos jornalistas, o presidente da CEP disse que os bispos estão “extremamente preocupados” com o impacto da actual crise económica e social nos centros sociais e outras instituições de solidariedade. No comunicado, referia-se que o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, José Traquina, referiu durante a assembleia as consequências dos recentes aumentos de preços nos “bens alimentares, energia, gás e combustíveis” por causa da guerra na Ucrânia. “O aumento do custo de vida e o expectável aumento dos juros são preocupações para as famílias e especialmente para quem está com despesas de mensalidades com habitação”, lê-se no comunicado.

“É necessária uma resposta adequada, por parte do Governo, para que este sector [social] não paralise”, disse D. José, tendo em conta as “dificuldades económicas” de muitas das instituições sociais. Há “centenas de milhares de pessoas” que dependem da ajuda dessas organizações e muitas delas estão “em risco”, numa situação agravada pela pandemia, mas que teve medidas positivas da parte do Governo, considerou.

Acerca da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, o presidente da CEP disse que não tem “acompanhado pessoalmente” o que se está a fazer em termos da preparação. Mas garantiu que “agora é que [a JMJ] começa a tocar as pessoas”, ao mesmo tempo que se prepara o acolhimento aos peregrinos, os voluntários, os contactos com entidades civis, escolas, etc.

 

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