Bispos de Moçambique: É da responsabilidade do Governo estancar a violência

| 16 Abr 21

Uma declaração com um diagnóstico cáustico da situação em Moçambique. Os bispos católicos do país publicaram nesta sexta-feira, 16 de Abril, um documento onde, sem criticar directamente o Governo, dizem que os decisores políticos têm de resolver o problema da falta de perspectivas para os jovens, principal causa da violência. Mas também a fome e a ausência de condições de vida digna são problemas a enfrentar.

bispos mocambique CEM © Conferência Episcopal de Moçambique (reproduzida da página da CEM no Facebook)

Os bispos de Moçambique, na assembleia desta semana, condenaram “todos os actos de barbárie” em Cabo Delgado. Foto © Conferência Episcopal de Moçambique (da página da CEM no Facebook). 

 

“É da responsabilidade do Governo [de Moçambique] coordenar os esforços de todos” de modo a “estancar a violência, protegendo a população e tentando criar alternativas e perspectivas de vida e de trabalho, de modo a que jovens não sejam aliciados pelas redes de insurgentes”. Ao 7MARGENS, Claudio dalla Zuanna, 62 anos, arcebispo da Beira, comenta deste modo a declaração da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), divulgada nesta sexta-feira, 16 de Abril, sobre a situação em Cabo Delgado e no país.

No documento, os bispos católicos de Moçambique, que estiveram reunidos em assembleia plenária durante esta semana, condenam “todos os actos de barbárie cometidos” em Cabo Delgado, no Norte do país, onde “pessoas indefesas são mortas, feridas e abusadas”.

Ao mesmo tempo, dizem que uma das causas para a situação de fome e violência no país é a “ausência de esperança num futuro favorável por parte” dos mais jovens, a maioria dos quais não tem oportunidades de “construir uma vida digna”, sentindo “que a sociedade e quem toma as decisões ignoram o seu sofrimento e não escutam a sua voz”.

O documento exorta ainda “as forças políticas nacionais, as organizações presentes no país, a comunidade internacional, para unirem esforços” de modo a socorrer “as populações deslocadas, as que vivem em grave insuficiência alimentar, expostas às doenças endémicas e sem acesso aos serviços básicos”.

Claudio dalla Zuanna, bispo de origem italo-argentina, tal como o Papa Francisco, trabalha em Moçambique desde 1985, como missionário dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (dehonianos, do nome do seu fundador). Arcebispo da Beira desde 2012, diz que a exortação da CEM às forças políticas do país não pretende ser uma acusação. “Mas talvez este apelo à comunidade internacional possa ajudar o Governo a despertar” para a necessidade de enfrentar o problema. “A situação é muito grave e é necessário ver de que tipo de apoio o Governo precisa para a resolver.”

Embora no documento não haja nenhuma crítica directa ao Governo – que tem sido censurado por ignorar ou não dar suficiente importância à situação –, o diagnóstico dos bispos é muito cáustico, lamentando ou deplorando “a trágica situação que vive a população de Cabo Delgado” ou a “prevalecente insegurança nas populações do centro do país”, e manifestando-se “inconformados com a insegurança alimentar e a fome” que afectam outras zonas do país, bem como com a violência que de várias formas se alastra no país”, ainda mais no contexto de pandemia da covid-19.

Apesar disso, os bispos esperam “sempre que quem tem responsabilidades busque as devidas soluções” e recordam que têm colaborado na procura de soluções para o bem-estar do povo “na educação, na saúde e no desenvolvimento humano”, para reconstruir o “tecido social ferido por traumas antigos e recentes”.

 

“Já não é possível negar mais”
D. Luiz Fernando Lisboa. Pemba. Papa Francisco

O ex-bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa, e o Papa Francisco teriam informações que a CEM desconhece, diz o arcebispo Claudio dalla Zuanna. Foto: Direitos reservados.

 

“O centro da declaração é Cabo Delgado, porque os últimos acontecimentos” na região chamaram a atenção para eles; mas os vários problemas estão enraizados “na falta de perspectiva para a juventude e para uma vida digna”, diz o arcebispo Claudio. Essa, acrescenta, é “uma das dimensões que podem servir de base ao enraizamento dos extremismos, das insurgências ou da criminalidade”.

A declaração acaba com uma nota de alento, citando a encíclica Frattelli Tutti, do Papa Francisco: a “esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!”

Sobre o facto de a declaração não mencionar o papel do ex-bispo de Pemba, o brasileiro Luiz Fernando Lisboa, que deixou o cargo em Fevereiro, Claudio dalla Zuanna não vê qualquer estranheza: “Trabalhámos sempre em conjunto, houve uma declaração sobre Cabo Delgado em 2020, e a acção dele foi sempre apoiada e teve o respaldo” da CEM. “Não nos pareceu oportuno referir pessoas concretas, mas apresentar uma visão geral, sobretudo na preocupação com os mais jovens e com a disponibilidade para resolver os problemas”, diz.

A acusação de D. Luiz, domingo passado, em entrevista ao La Repubblica, de que teria recebido ameaças de morte da parte do Governo de Maputo, foi comentada em conversas pessoais, admite D. Claudio. “Havia um clima e muitas acusações contra D. Luiz, nas redes sociais e em alguns jornais”, diz o arcebispo da Beira. “Ele e o Papa tinham informações que nós não tivemos e não temos”, acrescenta.

Ouvido também pelo 7MARGENS por telefone, a partir do Brasil, o agora arcebispo de Cachoeiro de Itapemirim, 400 quilómetros a nordeste do Rio de Janeiro, não quis comentar directamente a declaração da CEM, de que fez parte até há pouco mais de dois meses. Mas Luiz Lisboa recorda que o episcopado moçambicano já tinha feito vários comunicados sobre o assunto e que o documento agora divulgado denuncia a situação em Moçambique como um problema sério que “já não é possível negar mais”.

 

O 7MARGENS reproduz a seguir, na íntegra, a

Declaração dos bispos católicos de Moçambique

Reunidos na nossa primeira Sessão Plenária deste ano, 2021, nós os Bispos Católicos de Moçambique, com o coração cheio de tristeza, como todo o cidadão moçambicano que se identifica com o bem do pais, deploramos a trágica situação que vive a população de Cabo Delgado; lamentamos a prevalecente insegurança nas populações do centro do país e estamos inconformados com a insegurança alimentar e a fome que afetam a outras populações, assim como a violência que de varias formas se alastra no país, e tudo isso num contexto de pandemia da covid-19.

Deploramos e condenamos todos os actos de barbárie cometidos. Em Cabo Delgado pessoas indefesas são mortas, feridas e abusadas. Elas veem seus bens pilhados, a intimidade dos seus lares violada, suas casas destruídas e cadáveres de seus familiares profanados. São obrigadas a abandonarem a terra que os viu nascer e onde estão sepultados os seus antepassados. Estes nossos concidadãos, a maioria mulheres e crianças, são empurrados para o precipício da insegurança e do medo. Deploramos a prevalência deste estado de coisas, sem indicações claras de que a breve trecho haverá superação das causas que alimentam este conflito. Este estado de coisas faz crescer e consolidar a percepção de que por de trás deste conflito há interesses de vária natureza e origem, nomeadamente de certos grupos de se apoderarem da nação e dos seus recursos. Recursos que, em lugar de serem postos ao serviço das comunidades locais e tornarem-se fonte de sustento e de desenvolvimento, com a construção de infraestruturas, serviços básicos, oportunidade de trabalho, são subtraídos, na total falta de transparência, alimentando a revolta e o rancor, particularmente no coração dos jovens, e tornando-se fonte de descontentamento, de divisão e de luto.

Reconhecemos que um dos motivos fortes que move os nossos jovens a se deixarem aliciar e a juntarem-se às várias formas de insurgência, desde a criminalidade ao terrorismo, ou também aquela outra insurgência, não menos nociva, do extremismo político ou religioso, assenta na experiência de ausência de esperança num futuro favorável por parte dos nossos jovens. Para a maioria deles não há oportunidades de se construir uma vida digna. Sentem que a sociedade e quem toma as decisões ignoram o seu sofrimento e não escutam a sua voz. É fácil aliciar pessoas, cheias de vida e de sonhos, mas sem perspetivas e que se sentem injustiçadas e vítimas de uma cultura de corrupção, a aderirem a propostas de uma nova ordem social imposta com a violência ou a seguir ilusões de fácil enriquecimento que conduzem à ruína. Como podem ter os jovens perspetivas se o próprio país parece não ter rumo, um projeto comum, no qual são convidados a serem colaboradores ativos e que alimente a sua esperança? É nossa posição de que nada justifica a violência. Nem a situação difícil, de falta de uma perspetiva coletiva, partilhada como uma nação, nem ressentimentos, nem intolerância ou interesses de parte, de natureza religiosa, política ou económica, devem desviar-nos, como um povo para o caminho de qualquer tipo de insurgência.

Cabo Delgado, Moçambique, mulheres, Oikos

Cabo Delgado é uma zona de insegurança alimentar aguda e a maioria das famílias muito pobres esgotou as suas reservas de alimentos. Foto © Oikos.

 

Mais uma vez, manifestamos a nossa total solidariedade com os mais fracos e com os jovens que anseiam uma vida digna.  As religiões têm uma grande contribuição a dar na resiliência das comunidades e perseguir um ideal de sociedade unida e solidária, limitar a sua acção não favorece a procura de soluções.

Como missão da Igreja Católica tem sido sempre nosso compromisso colaborar para o bem da nação, apontando os perigos e esperando sempre que quem tem responsabilidades busque as devidas soluções. Sempre demos nossa colaboração concreta no campo do bem-estar do nosso povo na educação, na saúde e no desenvolvimento humano. Em tudo desejando colaborar na reconstrução do tecido social ferido por traumas antigos e recentes.

Continuaremos a redobrar os esforços para ajudar os desamparados e acolher os deslocados, proporcionando-lhes escuta e consolação, além de meios de sustentação partilhados pelos crentes. Gostaríamos de poder oferecer, às nossas crianças e jovens, percursos educativos que os abra aos valores da tolerância, do respeito e da amizade e possam ver o sonho de um futuro melhor realizado.  Reiteramos a nossa disponibilidade de colaborar com as forças vivas do nosso país para uma ordem social onde o egoísmo deixe o espaço à solidariedade, e juntos com as autoridades, se elabore um projeto de país que contemple todo o cidadão, privilegiando os mais marginalizados e desfavorecidos.

Exortamos as forças políticas nacionais, as organizações presentes no país, a comunidade internacional para unirem esforços e, pondo de lado os interesses de parte, se socorram as populações deslocadas, as que vivem em grave insuficiência alimentar, expostas às doenças endémicas e sem acesso aos serviços básicos. Igualmente é urgente criar mais oportunidades de trabalho e de desenvolvimento para todos, particularmente para os jovens e, para tal, se apliquem in loco os ganhos dos recursos naturais disponíveis. Por fim, apelamos para que todos contribuam para a pacificação, protegendo a população, fechando as vias de financiamento à guerra, isolando e travando indivíduos ou grupos que tiram proveito da tragédia de Cabo Delgado.

Apesar dos momentos difíceis que estamos a viver, ninguém perca a esperança. Como refere a Encíclica do Papa Francisco “Todos Irmãos” (Fratelli Tutti), a “esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!”.

 

Maputo, 16 de Abril de 2021

Bispos da CEM
D.
Lúcio Andrice Muandula, presidente

 

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