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Bispos do Peru contra colega e a favor de jornalista denunciador de abusos

| 22/04/2019

Capa do livro de Pedro Salinas e Paola Ugaz

A Conferência Episcopal Peruana insurgiu-se contra um dos seus bispos, depois de o jornalista Pedro Salinas ter sido condenado na sequência de uma acusação por difamação pessoal, interposta por José Antonio Eguren Anselmi, arcebispo de Piura, no norte do Peru. Em causa, estão as revelações feitas por Salinas e a também jornalista Paola Ugaz, que com ele investigou os escândalos de pedofilia dentro de um proeminente movimento católico,o Sodalício de Vida Cristã, de que o bispo é fundador e tem mais de 20 mil seguidores na América Latina. Salinas fez também parte do grupo e lembra que também ele foi alvo de abuso psicológico por parte do fundador da Sociedade, Luís Fernando Figari, que já foi sancionado pelo Vaticano.

Num livro publicado por Salinas e Paola Ugaz, o bispo Anselmi é acusado de encobrir casos de abusos no Peru. Num texto citado no Crux, a Conferência Episcopal afirmou, em comunicado datado de 9 de Abril, que Salinas nada mais fez que “esclarecer a verdade” e que o próprio Papa “elogiou e agradeceu o trabalho dos jornalistas que, mediante as suas investigações, contribuem para denunciar os abusos, para denunciar os agressores e para assistir às vítimas”.

Os bispos do Peru reiteraram ainda a sua “solidariedade e proximidade para com as vítimas, os seus familiares e defensores”. As revelações de Pedro Salinas e Paola Ugaz feitas no livro Metade Monges, Metade Soldados, assim como no consequente documentário apresentado pela Al-Jazeera denunciam casos não só de pedofilia e abusos psicológicos, mas também de tráfico de terras, por parte da mesma organização religiosa.

Para além da hierarquia católica, também o mundo político do Peru já reagiu. O deputado de esquerda Alberto de Belaunde, responsável no parlamento peruano pela comissão que investiga os abusos sexuais institucionais, já afirmou que a sentença condenatória de Salinas “envia uma mensagem muito negativa às vitimas”, e que a sociedade deve “promover a quebra do silêncio, e não punir aqueles que estão a tentar  quebrá-lo”.

No seguimento da polémica, o partido de Belaunde, Bancada Liberal, entregou no dia 10 de abril uma proposta de lei para que os crimes de difamação passem a ter apenas como consequência o pagamento de uma indemnização, para se entenda de uma vez por todas, como diz Alberto de Belaunde num tweet, que “o jornalismo não deve levar à prisão”. “Estas organizações não podem continuar a esconder-se no direito penal”, acrescenta na mesma rede social o deputado.

Pedro Salinas reconheceu o gesto da Conferência Episcopal Peruana: “Eles deixaram [o bispo] Eguren Anselmi mais sozinho”, disse,  acrescentando que esta posição do grupo de bispos relembra como Anselmi esteve “contra a linha do Papa nesta matéria”, ainda que se deva lembrar que o prelado que denunciou o jornalista se tenha encontrado com o Papa, “numa reunião privada” em Setembro de 2018, como recorda o mesmo jornal. Como documenta o Crux, também os tribunais já se manifestaram sobre o caso.

 

Pedro Salinas com o arcebispo Charles Scicluna, responsável da Comissão do Vaticano para os abusos sexuais

Paola Ugaz, a co-autora do livro, interpôs recurso, após a condenação do colega, para que o seu caso não fosse julgado em Piura, região onde o arcebispo terá “bastante influência”, mas sim em Lima, a capital. 

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