Os bispos dos Estados Unidos aprovaram por esmagadora maioria, no último dia dos trabalhos da sua assembleia plenária, uma posição vigorosa em que afirmam opor-se à “deportação em massa indiscriminada de pessoas” e defendem a dignidade humana de todas as pessoas, “incluindo dos imigrantes”.
A “mensagem especial”, que foi favoravelmente votada por 95 por cento dos participantes na Conferência dos Bispos (USCCB, na sigla em inglês), em Baltimore, pedem o “fim da retórica desumanizadora e da violência, seja contra imigrantes seja contra as forças da lei”, ao mesmo tempo que defendem “uma reforma significativa das leis e procedimentos de imigração” do país.
Os bispos recordam os “enormes contributos para o bem-estar” da nação, dados por sucessivas gerações de imigrantes, mas decidiram “erguer as suas vozes em defesa da dignidade humana concedida por Deus”, perante situações que os têm deixado “perturbados”. Entre essas situações referem “um clima de medo e ansiedade em torno de questões de discriminação e aplicação da lei de imigração”; “o estado atual do debate e a difamação dos imigrantes”; “as condições nos centros de detenção e a falta de acesso a assistência pastoral”.
Lamentam ainda que “alguns imigrantes nos Estados Unidos tenham perdido arbitrariamente o seu estatuto legal” e manifestam preocupação com “as ameaças contra a santidade dos locais de culto e a natureza especial dos hospitais e escolas”, aludindo às intromissões dos agentes que andam à caça de imigrantes e suas famílias.
Noutro passo da mensagem, a USCCB afirma reconhecer que as nações “têm a responsabilidade de regulamentar suas fronteiras e estabelecer um sistema de imigração justo e ordenado para o bem comum”, o qual também contribuirá para combater o risco de os imigrantes “serem vítimas de tráfico humano e outras formas de exploração”. Porém, acrescenta, “dignidade humana e segurança nacional não são incompatíveis. Ambas são possíveis, se pessoas de boa vontade trabalharem em conjunto”.

“Foi o cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, que apresentou essa emenda, justificando que o texto deveria ser claro ao dizer aos imigrantes “estamos convosco”, nomeadamente quanto à “deportação indiscriminada”. Ainda segundo a CNA, ninguém se opôs à inclusão desse ponto. Foto © MTF_GR /Wikimedia Commons
Segundo a Catholic News Agency (CNA), o texto inicial da mensagem que foi apresentada à consideração dos bispos não incluía a parte em que se declarava expressamente a oposição dos bispos à deportação em massa de imigrantes. Foi o cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, que apresentou essa emenda, justificando que o texto deveria ser claro ao dizer aos imigrantes “estamos convosco”, nomeadamente quanto à “deportação indiscriminada”. Ainda segundo a CNA, ninguém se opôs à inclusão desse ponto.
Refira-se ainda que a administração Trump realizou 527 mil deportações de imigrantes, apenas este ano, e 1,6 milhões abandonaram o país ao abrigo de uma possibilidade de auto-deportação. Os dados foram revelados em 27 de outubro último pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA.
Há já 12 anos que os bispos dos EUA não recorriam a esta forma de comunicação através de “mensagem especial”, que só pode ser adotada em assembleia plenária, com a anuência do presidente, do comité administrativo ou dos membros em geral. Acresce que deve expressar um elevado grau de consenso, pelo que a aprovação requer o mínimo de dois terços. Esta contou com 216 votos a favor, 5 contra e 3 abstenções e os bispos saudaram o resultado com um prolongado aplauso.
A anterior tomada de posição foi em 2013 e incidiu na legislação conhecida por Obamacare, relativa à prestação de cuidados e seguros de saúde, na qual exigia aos empregadores, incluindo organizações religiosas como as da Igreja Católica, que fornecessem seguro de saúde que cobrisse contracetivos, esterilização e medicamentos para induzir aborto precoce como parte dos cuidados preventivos.
NR – A notícia publicada esta quarta-feira pelo 7MARGENS sobre a assembleia dos bispos dos EUA, a partir de fontes jornalísticas que acompanharam os trabalhos in loco, desenhava um cenário mais negativo do que aquele que emerge, nomeadamente na mensagem especial, dando conta de um cuidado especial com os imigrantes, mas com diversidade de posições quanto à atitude perante as políticas de Trump. A peça foi escrita e publicada antes de se conhecer o teor da tomada de posição e demonstra um esforço de busca de unidade, da parte do episcopado do país, que é de assinalar e que representa um facto novo e auspicioso para o futuro.










