Aborto e comunhão

Bispos dos EUA afastam-se do Papa por causa de Biden

| 21 Jun 21

Bispos dos EUA: um drible ostensivo e de oposição declarada às recomendações do Vaticano. Foto © USCCB.

 

A Conferência dos Bispos dos Estados Unidos (USCCB, da sigla em inglês) aprovou, por esmagadora maioria (168 votos contra 55, perto de três quartos dos votantes), avançar de imediato para a elaboração de um documento sobre a comunhão. Em causa está a possibilidade de sancionar políticos católicos que defendam a possibilidade da livre escolha numa matéria como o aborto, interditando-os de poder comungar.

O voto dos bispos driblou de modo ostensivo e abre uma frente declarada de oposição às recomendações que lhes tinham sido endereçadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, em carta datada de 8 de maio último.

Na reunião dos bispos, na semana passada, as tensões começaram logo no primeiro dia dos trabalhos, quando o arcebispo Mitchell Rozanski, de Saint Louis, em consonância com a minoria, submeteu uma moção para que todos os bispos interessados em intervir no ponto sobre a eucaristia o pudessem fazer sem limitações. Entendia que o assunto era suficientemente melindroso para ser decidido em cerca de uma hora, como estava previsto. A proposta foi entendida como forma de obstrução ao bom ritmo dos trabalhos e acabou recusada.

Na quinta-feira, 17, dia em que a matéria propriamente dita foi debatida, a temperatura do debate subiu significativamente. Sintomaticamente, sendo o tema “O significado da Eucaristia na vida da Igreja”, o que condiciona as posições episcopais é o aborto e, secundariamente, a eutanásia e as uniões homossexuais.

Os bispos não se afastam da doutrina oficial católica sobre estes assuntos mas divergem, sim, quanto ao modo de lidar com fiéis que ocupam cargos políticos e legisladores que pretendem comungar, mas que defendem publicamente posições divergentes da doutrina oficial. E o problema cresceu claramente com a eleição, em novembro de 2020, do Presidente Joe Biden, o segundo do país que frequenta a missa e comunga, mas defende o direito à escolha em matéria de aborto (ainda que, particularmente, se diga contrário às práticas abortivas).

Um numeroso grupo de bispos de pendor conservador, vários dos quais próximos do ex-Presidente Trump, tem desenvolvido ou apoiado um movimento no sentido de recusar a comunhão a Joe Biden e a outros políticos em situação análoga, como é o caso de Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes. Consideram que é um escândalo e uma contradição que um presidente devoto defenda a morte de fetos e bebés.

Provavelmente, a esmagadora maioria do episcopado não andará longe desta visão, mas entende que o problema é mais complexo do que cumprir ou não cumprir um ponto da doutrina, ainda que importante. Alguns perguntam: porquê a defesa intransigente da vida neste caso e a defesa da pena de morte ou de tantas situações em que está em causa a degradação da vida humana, frequentemente até à morte?

O cardeal Luis Ladaria, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, tocava neste ponto quando, na recente carta aos bispos dos EUA, lhes dizia, a propósito do possível documento sobre a eucaristia e a comunhão: “Seria enganador se uma tal declaração viesse a dar a impressão de que o aborto e a eutanásia constituem as únicas matérias graves da doutrina moral e social católica a requererem a mais alta prestação de contas da parte dos católicos”. Mas já um seu antecessor no cargo, de nome Joseph Ratzinger – e que viria a ser o Papa Bento XVI – publicou um documento da mesma Congregação, sobre a presença dos cristãos na vida política, onde alertava, como o 7MARGENS noticiou: “A fé cristã é uma unidade integral e, portanto, é incoerente isolar algum elemento particular em detrimento de toda a doutrina católica.”

 

Haverá um documento, não unidade

Cardeal Cupich: a insistência em ter já um documento é uma “armadilha”. Foto ©Goat Girl/Wikimedia Commons

 

Na sua carta, Ladaria recomendava ainda que os bispos começassem por amadurecer o assunto entre si, dialogassem localmente com os agentes políticos, discernissem, depois, o melhor caminho a seguir para a Igreja nos Estados Unidos, procurando finalmente encontrar “um verdadeiro consenso dos bispos sobre a matéria”, que se expressasse pelo menos em dois terços dos votos. Ainda assim, ficaria claro que cada bispo manteria os seus direitos na respetiva diocese e caberia à Santa Sé dar a sua aceitação (ao abrigo do art. 455º do Código de Direito Canónico).

O cardeal Blase Cupich, de Chicago, defendeu, no auge da discussão, que lhe parecia errado, por inoportuno, redigir um documento sobre a eucaristia, afirmando que a insistência de alguns bispos em fazê-lo já poderia tornar-se uma “armadilha”: sob o pretexto do significado da eucaristia, “o que se pretenderia era, de facto ter um ponto de apoio ou justificação para fazer algo contra os políticos que têm posições contrárias ao nosso ensino”, segundo Cupich.

Por sua vez, o cardeal Joseph Tobin, de Newark (New Jersey), também expressou sua perplexidade, argumentando: “A proposta que temos diante de nós apresenta-nos uma escolha difícil e histórica. Votar afirmativamente produzirá um documento, não unidade. Votar contra permitir-nos-á trabalhar juntos no diálogo para chegar a um amplo acordo sobre a série de questões inerentes à questão da dignidade eucarística.”

Aparentemente, a proposta de metodologia agora votada pela USCCB reduz a ênfase na disciplinação dos agentes políticos, inicialmente pretendida. O bispo Kevin Rhoades, presidente do comité doutrinal da conferência fez repetidas declarações de que a proposta de um documento não tem a intenção de atingir os políticos pró- aborto e que “está para além de Biden”. Contudo, como refere o Vatican News, portal de notícias do Vaticano, do esboço de texto continua a constar uma terceira parte sobre a “coerência da comunhão eucarística por parte dos políticos católicos”.

A votação, por 168 votos contra 55 e seis abstenções, não afastou as dificuldades e os consensos estão longe de terem sido conseguidos. A posição de “guerra cultural” (e também política) em que se obstina uma parte dos bispos, bem apoiada em movimentos laicais e em meios de comunicação claramente alinhados pelas políticas do partido de Trump (no qual votou pelo menos metade do eleitorado católico), faz antever que a assembleia da conferência dos bispos de novembro próximo, poderá ser o momento separador das águas, mostrando se a Igreja dos Estados Unidos tem ou não dificuldade em aceitar o caminho para a Igreja proposto pelo Papa Francisco.

 

Um apelo dos deputados católicos Democratas

Alexandria Ocasio-Cortez, uma das 60 subscritoras do apelo aos bispos. Foto © nrkbeta/Wikimedia Commons 

 

Um grupo de 60 deputados católicos da Câmara dos Representantes dos EUA, incluindo a jovem política Alexandria Ocasio-Cortez, publicou entretanto na sexta-feira, 18, uma “declaração de princípios”, na qual pedem aos bispos católicos que evitem converter o sacramento da eucaristia numa arma política. “Acreditamos que a separação entre Igreja e Estado permite que a nossa fé informe os nossos deveres públicos e sirva melhor os nossos constituintes”, observam os representantes democratas.

Os signatários alertam ainda para a contradição que veem em “instrumentalizar a eucaristia”, negando a comunhão a legisladores que apoiam o “acesso seguro e legal da mulher ao aborto” e não o fazendo em relação aos legisladores que dão apoio à pena de morte, separação de filhos e pais migrantes, negação de asilo a quem busca segurança nos Estados Unidos, limitação de assistência para os famintos e com insegurança alimentar, e negando direitos e dignidade aos imigrantes.

Os legisladores pedem aos bispos que “prestem atenção às palavras” do Papa Francisco, na sua exortação apostólica A Alegria do Evangelho: “a Eucaristia, embora seja a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um poderoso remédio e alimento para os fracos”.

“Enveredar pela negação total da sagrada eucaristia a alguns agentes políticos eleitos realmente entristeceria o Espírito Santo e negaria o progresso daquele indivíduo, uma pessoa cristã que nunca é perfeita, mas que vive na luta pela perfeição”, observa ainda a declaração dos deputados.

 

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