
O presidente da conferência episcopal de França, Éric de Moulins-Beaufort, durante a declaração de encerramento da assembleia plenária de outono, no passado sábado, 9 de novembro. Foto © Elziario Bandeira
Depois de terem estado reunidos em assembleia plenária durante a semana que passou, em Lourdes, os bispos franceses acabam de tornar público um documento com novas diretrizes para o sacramento da reconciliação (comumente conhecido como confissão), tendo como objetivo prevenir os abusos sexuais nesse contexto.
Estas diretrizes surgem na sequência de recomendações da Comissão Independente que estudou os abusos sexuais nas últimas décadas, naquele país, conhecida pela sigla CIASE, adianta a revista Vida Nueva.
“O sacramento da reconciliação permite aos fiéis deixar-se renovar na sua vida batismal”, começam por sublinhar os prelados no documento, indicando que o confessor deve ter o cuidado de “não se centrar excessivamente na confissão, mas sim em recordar a bondade e misericórdia de Deus em todas as circunstâncias”.
Insistindo que o segredo de confissão “é essencial porque permite ao penitente dirigir-se ao seu Senhor, sedo o padre apenas um instrumento, um sinal da presença ativa de Deus” e que “ninguém pode eximir o confessor desta obrigação”, os bispos assinalam no entanto que “se um padre escutar, no contexto da confissão, uma pessoa que é vítima de um delito ou abuso sexual, seja menor, pessoa vulnerável, ou mesmo um adulo, deverá utilizar – mantendo absoluto sigilo – a sua sensibilidade pastoral para saber se o penitente já conseguiu contar estes factos a outra pessoa em quem confia. Se não for esse o caso, o confessor encorajá-lo-á vivamente a fazê-lo”.
“Antecipando-se a tais confissões, munir-se-á de recursos úteis (número de ajuda para menores, para adultos, etc.) para dar ao penitente a ajuda de que necessita. Na sua escuta e no seu discurso, o confessor estará muito atento à propensão das vítimas para se sentirem indevidamente culpadas”, continua a o documento.
Fazendo referência às circunstâncias em que a confissão deve ser realizada, os bispos concretizam ainda: “o sacramento, mesmo em situações especiais (peregrinação, vigília de oração, acampamento escutista, reunião, etc.), deve ser celebrado de forma visível para todos e num ambiente adaptado à abordagem sacramental”. E especificam que este “não será celebrado no lugar privado ou íntimo do sacerdote (casa, quarto ou outro)”. também não deverá ser realizado à noite, nem “num contexto emocional demasiado forte – principalmente para os jovens”. Além disso, o confessor deve zelar “para que a confissão não se estenda excessivamente e não se torne um lugar de acompanhamento”.
Os bispos franceses insistem ainda na necessidade de formação contínua dos confessores, afirmando que “os padres, nos primeiros anos do seu ministério de Reconciliação, assim como os padres provenientes de outras épocas culturais, devem seguir uma formação adaptada ao exercício da confissão e ser acompanhados mais particularmente”. E adiantam que “a capacidade de confessar será restringida, suspensa ou mesmo totalmente retirada em caso de falhas graves ou repetidas por parte do confessor”.
Paralelamente, acrescentam os prelados franceses, “é importante que os fiéis estejam bem informados e preparados para viver com exatidão o sacramento da Reconciliação, através de uma formação regular nas paróquias ou noutros lugares pastorais”. E aconselham a falar sobre isso na pregação e a “dotar os lugares onde se celebra o sacramento de breves documentos que recordem o significado do sacramento e as regras essenciais”.
Por fim, recordam ainda que “o segredo da confissão vincula o confessor e não o penitente. Os fiéis nunca estão obrigados ao segredo da confissão”.
Cada bispo comprometeu-se, durante a assembleia da semana passada, “a publicar para a sua diocese, durante o ano de 2025, parâmetros de referência para os confessores com base neste documento”.
Reparação de vítimas adultas ainda em discussão
Adiada para a assembleia plenária de março ficou a apresentação do sistema de reparação destinado a vítimas de abusos sexuais na idade adulta, refere o jornal La Croix.
Durante a reunião de outono, os bispos “discutiram longamente” “dois caminhos possíveis”, cada um com “as suas vantagens e desvantagens”, informou o presidente da conferência episcopal de França, Éric de Moulins-Beaufort, sem adiantar pormenores. Segundo fontes próximas de vários bispos, as opções seriam a criação de um órgão único centralizado ou confiar a missão a estruturas locais nas províncias eclesiásticas.
“Queremos abrir um caminho sólido e duradouro para o reconhecimento e a reparação” e para que os padres envolvidos “assumam as suas responsabilidades”, assegurou Moulins-Beaufort. É por isso que “o primeiro caminho deve ser o da justiça republicana, se possível”, com recurso também à justiça da Igreja. Para os casos em que o autor está morto ou os factos estão prescritos, “não podemos criar uma ordem jurídica diferente da do nosso país”, observou.
Resta então o caminho da justiça restaurativa mas “sabemos que não está isento de críticas” e “devemos ter a certeza da competência” dos responsáveis por esta missão, e da sua capacidade de “tomar decisões sólidas, indiscutíveis”, enfatizou.









