Bispos hesitam na suspensão das missas e esperam pelo Governo (com padres a criticar indecisão)

| 21 Jan 21

Os evangélicos recomendam a celebração do culto online, na Mesquita Central de Lisboa já se suspendeu a principal oração semanal, enquanto os bispos hesitam e dizem que na próxima semana verão o que o Governo decide. Mas o Executivo terá antecipado, entretanto, o anúncio de um novo confinamento geral – incluindo as escolas – já para esta sexta-feira. Uma oportunidade perdida, criticam vários padres.  

D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal: é preciso “restringir ao máximo aquilo que possa ser ocasião de contágio”. 

 

Na quarta-feira de manhã falou-se na possibilidade de um comunicado conjunto, mas a ideia acabou numa declaração do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, depois de contactos entre os bispos – e da falta de consenso entre eles: os responsáveis católicos não suspendem as eucaristias presenciais, para já, aguardam decisões do Governo e estão “a adaptar, em cada situação, as formas de actuação nas nossas igrejas, nos nossos movimentos e eventos pastorais, para restringir ao máximo aquilo que possa ser ocasião de contágio” na pandemia de covid-19.

Na declaração do também bispo de Setúbal, feita ao final da tarde desta quarta-feira, 20, à agência Ecclesia, Ornelas não diz se os bispos se preparam para suspender ou não a celebração da eucaristia – sendo a liberdade de culto um direito constitucional, terão de ser os responsáveis de cada confissão religiosa a tomar a decisão, mesmo que isso suceda em articulação com o Governo.

A declaração de José Ornelas pode ser interpretada como reflexo da vontade de alguns dos bispos (incluindo o próprio presidente da CEP) em avançar já para a suspensão. Vários deles, de acordo com fontes consultadas pelo 7MARGENS, estariam mais voltados para a decisão de suspender as celebrações presenciais.

Tal opinião, no entanto, não é acompanhada por outros membros do episcopado. Por isso, a declaração do presidente da CEP pode ser vista também como um primeiro aviso, sujeito ao expectável agravamento da situação da pandemia e das medidas de confinamento. E “na próxima semana”, quando o Governo “introduzir novas medidas”, que devem “exigir um esforço muito maior” de todos, o episcopado poderia anunciar nova decisão, conforme a declaração, que pode ser vista no vídeo a seguir:

 

Só que a dramatização que se foi verificando ao longo do dia de quarta-feira culminou com a Grande Entrevista da RTP3, na noite desta quarta-feira, 20, à ministra da Saúde. Marta Temido admitiu que a decisão política poderia ser antecipada já para esta quinta-feira, 21, na reunião do Conselho de Ministros. E vários jornais desta quinta-feira garantem que o fecho de todas as escolas será, nessa reunião, decidido pelo Governo.

No ano passado, em Março, os bispos anteciparam-se ao Governo e (tal como outras confissões religiosas) suspenderam as celebrações religiosas antes mesmo da declaração do estado de emergência.

“Como Igreja, tomamos as nossas providências e adaptamos o nosso modo de estar, de funcionar”, diz o presidente da CEP. E as comunidades católicas querem “colaborar activamente” com o resto da sociedade para “inverter a curva ascendente” de contágios de covid-19 e do número de mortes – de terça para quarta-feira registaram-se novos máximos: 219 mortos e 14.647 novos casos.

O bispo José Ornelas dá conta ainda que durante a manhã de dia 20 esteve “em contacto com todos” os colegas, reafirmando que “o básico das orientações” da semana passada se mantém: suspensão de baptismos, crismas e matrimónios, tendo em conta a “gravíssima situação” que já se vivia – e cuja gravidade duplicou em poucos dias.

“Não estamos a sair nem vamos sair desta situação sem sacrifício, sem esforço, sem contenção”, diz o presidente da CEP, sublinhando a importância de renunciar ao “que é preciso renunciar”. E acrescenta: “Antes de mais, temos de tomar conta. É importante que todos o façamos, como pessoas, como famílias, como instituições: tomar verdadeiramente conta da gravidade da situação que vivemos.”

No Porto, o bispo, Manuel Linda, determinou ainda na quarta-feira que para já se mantenham apenas as missas presenciais, suspendendo todas as restantes actividades presenciais.

 

“É tempo de propostas concretas”
Santuário de Fátima. 12 de Maio 2020, covid-19

O Santuário de Fátima vazio, a 12 de Maio: há padres muito críticos da decisão dos bispos em continuar a aceitar missas presenciais. Foto © Joaquim Franco, cedida pelo autor.

 

A decisão dos bispos, na semana passada, em manterem eucaristias presenciais foi criticada severamente, nos últimos dias, em posições públicas de vários padres. Já depois da declaração do presidente da CEP, o 7MARGENS falou com três deles, que não só reafirmam, como agravam as críticas.

“Soube a pouco”, diz o padre Nuno Folgado, pároco de São Miguel da Sé e São José Operário, duas das paróquias da cidade de Castelo Branco. No final da semana passada, os seis clérigos responsáveis das três paróquias da cidade suspenderam as eucaristias durante a semana.

A decisão foi tomada sabendo que a eucaristia é um “lugar seguro”. Mas o problema é as pessoas “saírem de casa” e, no caso dos dias de semana, irem a missas evocativas de pessoas falecidas e ficarem a conversar, no final. Por isso, quiseram dar um sinal, mas desde o início que defendiam que a suspensão deveria ser para todos os dias: “Era um sinal profético abdicar de alguma coisa a que temos direito, para significar a nossa comunhão com a comunidade humana.” Até porque os números de mortos já está no dobro de vítimas dos incêndios de 2017, onde morreram mais de 100 pessoas.

“Agora é tempo de propostas concretas. Não basta dizer que ‘renunciamos ao que é preciso renunciar’; eu, como crente e colaborador dos bispos, espero que concretizem, que me digam ao que devo renunciar”, diz o padre Folgado, comentando agora o adiamento da decisão dos bispos.

“Analisar as catástrofes diárias e responder com o documento de Maio passado, como se a situação fosse a mesma, assusta. A situação não é igual a ontem, quanto mais a Maio”, diz ao 7MARGENS.

“Prometer mais para a semana, à média de 200 mortos por dia, é prometer dizer mais qualquer coisa daqui a mil ou 1500 mortos, 50 mil ou 60 mil infectados”, acrescenta. Para concluir: “É impossível discordar do que quer que seja” da declaração do presidente da CEP, “e isso não é um bom sinal: discursos redondos que identificam os problemas já não deviam ter lugar agora. Não discordo em nada, mas soube-me a pouco.”

 

“Uma oportunidade perdida”
Conferência Episcopal. José Ornelas.

A nova presidência da Conferência Episcopal, no encontro com jornalistas, em Junho: a indecisão dos bispos foi uma “oportunidade perdida”, na opinião de vários padres. Foto © Ecclesia.

 

Uma “oportunidade perdida” é a expressão usada pelo padre Nuno Santos, reitor do Seminário de Coimbra, numa mensagem que enviou ao seu bispo. “Espantei-me com o não comunicado, tive uma desilusão total e escrevi ao meu bispo a dizer que foi mais uma ‘oportunidade perdida’”.

Terça-feira, na sua página no Facebook, Nuno Santos escrevera: “Sente-se no ar uma enorme falta de coragem criativa e gestos concretos do ‘cuidar’. Quando as Instituições (Igreja, Estado, Escola…) não cuidam das pessoas, perdem identidade e sentido. O sentido de responsabilidade e a noção da realidade não permitem decisões cómodas, confortáveis e nem agradáveis.”

Depois da declaração episcopal, o padre Nuno diz que não só mantém a observação feita antes, como a primeira imagem que lhe veio agora à mente foi a do samaritano: “Ou cuidamos ou passamos ao lado. Custa fazer parte de uma Igreja que insiste em passar ao lado da pessoa ferida.”

Nuno Santos enumera quatro razões para a sua posição: “Não houve coragem, porque em Março fechámos com menos de 15 mortos diários e agora temos 219 e não fechamos e isto é agir com calculismo.” Também não houve respeito pelos profissionais de saúde: “O Papa tem insistido muito em escutar, os bispos deviam ter ouvido médicos e enfermeiros católicos que vão à missa.”

O padre Nuno acrescenta que a (in)decisão reflecte que a Igreja está condicionada a uma lei, quando “as decisões morais deveriam estão acima da lei”. Finalmente, “não houve um gesto profético, de ser sinal no meio de uma certa escuridão; perdeu-se uma oportunidade de estar ao lado das pessoas”, como em Março de 2020.

Mesmo sabendo que há padres que advogam a continuação das celebrações presenciais – no ano passado, vários vieram a público endossando críticas ao Governo, quando a decisão de suspender as celebrações foi sempre dos bispos – o padre Nuno diz: “Se fosse uma das nossas mães ou pais, veríamos as coisas de outra maneira”. E acrescenta que “o corpo de Cristo continua à beira do caminho” e que “a credibilidade da presença cristã se ganha ou se perde nestas coisas”.

 

Bispos a “chutar para canto”, mesquita já suspendeu, evangélicos recomendam online
Mesquita de Lisboa

A Mesquita Central de Lisboa tem estado praticamente vazia nas orações, mas a oração semanal mais importante já foi suspensa. Foto © Khalid Jamal, cedida pelo autor.

 

Sérgio Torres, pároco de São Vítor, uma das maiores paróquias de Braga, também criticara no Facebook a decisão da semana passada: os bispos deviam resolver o mesmo que em Março, defendia, porque “os números são incomparavelmente superiores”. E acrescentava que lhe tem chegado “a opinião de muitos outros cristãos que também pensam o mesmo”.

Agora, diante da declaração do presidente da CEP, diz que esta é uma “resposta de chutar para canto”. Em Março, foi a Igreja que decidiu, porque ela tem “toda a liberdade” para o fazer. Agora, está a “atirar para o Governo”.

“Ultrapassou-se uma linha vermelha a partir do momento em que os hospitais não nos podem socorrer”, diz. E além das mensagens que recebe, garante que a maior parte do clero de Braga está a favor da suspensão: numa reunião de padres responsáveis da diocese, nesta quarta-feira, a maioria defendia isso; e numa consulta do arcebispo aos padres, também era unânime essa posição. Com uma ressalva: manter a possibilidade de funerais com a participação de familiares.

Enquanto os bispos católicos esperam pelo Governo, na Mesquita Central islâmica de Lisboa já foi suspensa a oração principal das sextas-feiras. Nas restantes, participam apenas três ou quatro pessoas, quase sempre funcionários da instituição, como diz o xeque David Munir, imã da Mesquita. E decisões semelhantes já foram tomadas noutras mesquitas, acrescenta.

Na Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), que reúne centenas de comunidades evangélicas naquela que é a segunda confissão mais importante em Portugal, não há uma orientação geral, embora se recomende o culto através do vídeo. Em Sintra, onde é o responsável de uma comunidade, António Calaim, presidente da AEP e médico, dirige o culto dessa maneira.

“A verdade é que a celebração não está proibida, porque é um direito constitucional, mas devemos usar o senso comum e ficar em casa”, diz.

 

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