
Roberto Vannacci em 2013, quando era o comando “Col Moschin” no Exército italiano.
Um regresso aos períodos mais negros da História. É assim que o bispo Francesco Savino, de Cassano all’Jonio, vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana, classifica as declarações do candidato do partido de extrema-direita às eleições europeias, Roberto Vannaci, sobre a separação das crianças com deficiência nas salas de aula. Para além de Savino, outros bispos do país e ativistas também se juntaram ao coro de críticas a Vannaci, que concorre às eleições europeias pela Liga, partido do vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini.
“Está aqui em causa uma visão cultural da vida”, afirmou Francesco Savino, citado pelo Crux, reiterando que “a inclusão é um sinal de civilização”.
Em entrevista ao jornal italiano La Stampa, no passado sábado, 27, Vannaci admitiu ser um apoiante da escola pública, mas defendeu ao mesmo tempo que esta seja “mais rigorosa”. “Atualmente, o nível de todos os alunos está a descer, mesmo dos melhores. Em vez disso, a escola deve ser como o desporto, onde se juntam pessoas com desempenhos semelhantes”, acrescentou.
“As turmas com ‘características separadas’ ajudariam as crianças com grandes potencialidades a expressarem-se ao máximo, e as que têm mais dificuldades seriam ajudadas de uma forma especial”, explicou o político. Quando questionado sobre a possibilidade de as suas declarações serem passíveis de conter elementos discriminatórios, Vannaci retorquiu que não é especialista em deficiência. “No entanto, não poria certamente uma pessoa com deficiência a correr com alguém que bate o recorde dos 100 metros. Podemos obrigá-los a fazer uma lição juntos, num espírito de pertença, mas depois precisam de ajuda específica”, disse.
Em Itália, Vannaci surgiu como um candidato controverso às eleições europeias que se vão realizar em junho deste ano, “com grande parte do debate em torno da sua posição ultra-conservadora sobre questões como a imigração e a homossexualidade, bem como alegações de racismo”. Concorre pelo partido populista de direita Liga, liderado por Matteo Salvini, o vice-primeiro-ministro do atual Governo italiano.
“General do exército italiano, Vannacci foi recentemente suspenso por 11 meses no final de um processo disciplinar relacionado com a auto-publicação do seu novo livro best-seller, O Mundo de Trás para a Frente. No livro, Vannacci acusa os homossexuais de “não serem normais” e defende a teoria da “Grande Substituição”, segundo a qual os imigrantes muçulmanos estão a substituir os italianos de origem, sugerindo que só os brancos são verdadeiros italianos”, refere o Crux. Também critica feministas e ambientalistas na sua obra.
A investigação sobre o alegado ódio racial expresso no livro surge dois dias após Vannaci ter sido colocado sob investigação por suspeita de desvio de fundos e fraude durante o seu período como adido militar na embaixada italiana na Rússia, entre 2021 e 2022. Apesar de todas estas controvérsias, Salvini mantém a confiança política em Vannaci.
Andrea Abodi, ministro italiano do Desporto, manifestou a esperança de que Vannacci “se tenha expressado mal” em relação às crianças com deficiência, dizendo que, embora respeite a posição de todos, estão “muito afastados” nesta matéria. Da mesma forma, Luciano Ciocchetti, ministro da Câmara dos Deputados e conselheiro social da região do Lácio, disse que os comentários de Vannacci “desafiam os princípios fundamentais da inclusão e da dignidade humana”.
“É com profunda convicção que reiteramos a importância de uma abordagem que coloca a pessoa no centro, sem distinções ou discriminações”, acrescentou Ciocchetti, afirmando que as políticas dos governos nacional e regional “são baseadas em valores de integração, inclusão social e solidariedade, promovendo ações concretas para incentivar a inclusão e o bem-estar de todos os cidadãos, incluindo aqueles que são mais vulneráveis”.
Gianfranco Salbini, presidente da Associação Italiana de Pessoas com Síndrome de Down, reiterou também o compromisso da organização “de defender os direitos das pessoas com deficiência e de promover uma educação inclusiva que respeite a diversidade”. “As recentes declarações de Vannacci sobre a possibilidade de reintroduzir as classes especiais representam um sério risco para a educação inclusiva, um valor essencial para uma sociedade civil e avançada”, afirmou, dizendo que os comentários não só vão contra “os princípios da igualdade e dos direitos humanos, mas também representam uma violação da Convenção das Nações Unidas, que é a lei do Estado italiano”.
Em resposta às manifestações públicas de desagrado em relação às suas afirmações, Vannaci escreveu na sua página de Facebook que os seus comentários foram “distorcidos”.










