"Escuta ativa"

Bispos italianos e espanhóis vão ao encontro de vítimas de abusos na Igreja

| 6 Mar 2024

José Cobo e Luis Argüello (de costas) com elementos das associações de vítimas de abusos espanholas., 5 de março de 2024. oto Dr via Religion Digital

Os recém-eleitos presidente e vice-presidente da Conferência Episcopal Espanhola conversam com elementos das associações de vítimas de abusos espanholas, no final da assembleia plenária. Foto: Direitos reservados, via Religión Digital

 

Os últimos dias ficaram marcados pelos encontros de bispos italianos e espanhóis com vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja Católica. Em Itália, uma reunião aconteceu dias depois de o maior grupo de defesa de vítimas ter inaugurado um novo memorial em homenagem a todos os sobreviventes. Em Espanha, os recém-eleitos presidente e vice-presidente da conferência episcopal, Luis Argüello e José Cobo, fizeram do abraço aos sobreviventes de vítimas que se manifestavam em frente ao local onde estavam reunidos o seu primeiro gesto nos novos cargos.

O grupo italiano foi acolhido na semana passada pelo cardeal Matteo Zuppi, presidente da conferência episcopal daquele país, e pelos bispos Giuseppe Baturi, secretário-geral, e Lorenzo Ghizzoni, presidente do serviço nacional de proteção de menores. A reunião, que durou cerca de três horas, decorreu num ambiente de “escuta ativa”, afirmou Zuppi aos jornalistas. “A voz daqueles que sofreram abusos continua essencial para nos ajudar a compreender em profundidade a dor sentida pelas vítimas e suas famílias e as suas feridas, para entrar em comunhão autêntica com aqueles que sofreram”, sublinhou, numa declaração citada pelo jornal Crux.

Para o cardeal italiano, ouvir os sobreviventes também é essencial para compreender o que se espera da Igreja, por isso perguntou: “O que está a faltar? O que pode ser feito para melhorar?”. E concluiu: “É também a partir da resposta a estas questões que o caminho da prevenção e da proteção pode progredir todos os dias com passos significativos”.

Francesco Zanardi, fundador e dirigente da principal associação de vítimas de abuso sexual em Itália, a Rete l’Abuso, não emitiu qualquer comentário sobre este encontro. A organização, que tem criticado o país por considerar que este ainda está “muito atrasado” no combate ao abusos, inaugurou no passado dia 24 de fevereiro um memorial de homenagem a todos os sobreviventes, sob a forma de banco roxo na cidade italiana de Savona. Zanardi elogiou na cerimónia a cidade de Savona pela sua solidariedade com as vítimas e pelos seus esforços para proteger as pessoas em risco, mas lembrou que é preciso fazer mais.

Num comunicado divulgado após o evento, a associação referiu que o memorial, apesar de aumentar a sensibilização, “não salva as crianças e não cura aqueles que foram abusados”. “Deve servir de símbolo para os adultos, para a sociedade civil, para aqueles que podem ou devem proteger menores ou pessoas vulneráveis, para não fecharem os olhos, para não olharem para o outro lado, mas para intervir”, alertava o texto. Outros bancos roxos deverão ser instalados nas próximas semanas em mais cidades italianas, incluindo Enna, na Sicília, e Roma.

 

Colocar a “centralidade nas vítimas, não tanto nos números”

Já em Espanha, elementos de duas associações de vítimas estiveram em protesto junto à sede da conferência episcopal do país, em Madrid, enquanto decorria a assembleia plenária dos bispos, durante a qual foi eleita a nova presidência.

Argumentando que a Igreja Espanhola não tem feito esforços suficientes para lidar com estes crimes, nem para os reparar, as associações expressaram, numa declaração enviada ao jornal Religión Digital, que o grande objetivo dos protestos era mostrar aos bispos que os abusos não são “números frios”. “Por detrás das estatísticas frias, as nossas realidades têm nomes e apelidos, seres humanos, mulheres e homens, cujas vidas, em muitos casos, continuam a ser sobrecarregadas pelos efeitos intermináveis, ainda que evolutivos, do choque pós-traumático gerado em consequência da prática do crime”, explicam no seu texto. Por isso, pedem à Igreja que “atue rapidamente, assumindo com tratamento individualizado a realidade de cada uma das suas vítimas e sobreviventes”.

E os bispos fizeram questão de transmitir que essa ação é uma prioridade. Após a reunião, e antes de falarem aos jornalistas, o novo presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Luis Argüello, e o vice-presidente, José Cobo, saíram à rua e foram ao encontro das vítimas (e alguns dos seus familiares) que se encontravam em protesto, para abraçá-los e conversar com eles.

 “Quisemos receber o protesto, e continuar a lutar pela transparência, para mudar a nossa cultura, colocando a centralidade nas vítimas, não tanto nos números, mas na escuta”, disse depois José Cobo, atual arcebispo de Madrid, ao Religión Digital, acrescentando: “ouvimos o que eles disseram e continuaremos com eles para que haja um diálogo fluido, é o nosso trabalho e o que estamos a aprender”.. 

 

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