Zuppi é o novo presidente da CEI

Bispos italianos pressionados para criarem comissão sobre abusos

| 24 Mai 2022

Matteo Maria Zuppi é o novo presidente da Conferência Episcopal Italiana, por escolha do Papa Francisco. Foto © Francesco Pierantoni from Bologna, Italy, CC BY 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>, via Wikimedia Commons

Matteo Maria Zuppi é o novo presidente da Conferência Episcopal Italiana, por escolha do Papa Francisco. Foto © Francesco Pierantoni from Bologna, Italy, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

 

Matteo Maria Zuppi, de 66 anos, cardeal ligado à Comunidade de Santo Egídio, tornou-se esta terça-feira, 24, o novo presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), por escolha do Papa Francisco. Na agenda tem uma forte pressão para criar uma comissão independente sobre abusos sexuais na Igreja.

Para a sua tomada de decisão, o Papa dispôs de uma ‘terna’ ou grupo de três candidatos eleitos no decorrer da primeira sessão da 76ª Assembleia da CEI, tendo seguido o sentido de voto dos bispos italianos.

O novo presidente é arcebispo de Bolonha desde outubro de 2015, tendo sido feito cardeal pelo Papa Francisco em 2019. Antes disso, entre outros cargos, foi assistente eclesiástico geral da Comunidade de Santo Egídio.

Um cardeal que fala português e mediou a paz em Moçambique

Conhecido, ainda hoje, por Don Matteo, tem uma trajetória pastoral que coincide com o perfil defendido pelo Papa Francisco – atenção aos pobres, aos migrantes e aos desempregados – e grande proximidade com o clero da sua diocese.

Foi na qualidade de membro da Comunidade de Santo Egídio, recorda o site Vatican News, que “viveu outro momento fundamental: em nome da Comunidade de Santo Egídio, Zuppi atuou como mediador em Moçambique no processo que levou à paz após mais de 17 anos de sangrenta guerra civil” entre a Renamo e as tropas governamentais.

De resto, Francisco não se terá poupado nos sinais de que o arcebispo de Bolonha era um dos dois nomes da “terna” que preferia, a par do cardeal Paolo Lajudice, arcebispo de Siena. A ser verdade o que relatam vários meios de comunicação italianos, na véspera de a CEI iniciar os trabalhos — no encontro à porta fechada com os 220 bispos, que decorreu na Aula Paulo VI — Francisco, referindo-se ao terceiro membro da terna, o bispo de Capri, Erio Castellucci, ter-se-á saído com algo como: “Sei que se trata de um grande bispo e que é o candidato de Bassetti [o até ontem presidente da CEI] mas eu prefiro um cardeal.”

Os sinais de “interferência” do Papa terão gerado mal-estar em alguns setores do episcopado e um bispo terá mesmo interpelado o pontífice, na fase de perguntas e respostas na Aula Paulo VI, perguntando se faria sentido a eleição de uma terna se, na prática, a escolha já estava feita à partida. 

Recorde-se que, até 2013, era o Papa que designava o presidente da CEI. Pouco tempo depois de eleito, Francisco quis inovar, estabelecendo que os bispos passariam a eleger três nomes e ele escolheria um dos três.

Seja como for, o Papa não perdeu tempo: mal soube do resultado das votações dos bispos, designou Matteo Zuppi novo presidente da CEI e, em princípio, já será sob a sua influência que os pontos da agenda serão abordados, entre os quais está o que vai a Igreja Católica italiana fazer com o grave problema dos abusos sexuais em meios eclesiásticos.

Até agora, apesar das declarações, a CEI mantém-se como “o último moicano”, na resistência a um estudo independente. O presidente cessante da CEI, o cardeal Gualtiero Bassetti, no discurso inaugural da assembleia, nesta terça-feira, continuou a abordar o assunto em termos vagos: “Confirmamos o nosso compromisso com a proteção dos menores e a prevenção de abusos. Queremos ambientes seguros e adequados para os menores e mais vulneráveis. Por isso, como já reiterado em outras ocasiões, pretendemos promover um melhor conhecimento do fenómeno dos abusos, a fim de avaliar e tornar mais eficazes as medidas de proteção e prevenção” – observou o cardeal.

Coordenadora anti-abusos quer comissão independente a investigar

Quem quer decisões e não apenas propósitos é a Coordenadora #ItalyChurchToo, envolvendo um conjunto de entidades direta ou indiretamente ligadas ao problema dos abusos sexuais, numa carta enviada há alguns dias ao cardeal Bassetti e que quer ver respondida pelos bispos, durante a assembleia que decorre até sexta-feira, 27 de maio.

A carta, da iniciativa da Rede Abuso e grupos como Somos Igreja, Observatório Interconfessional sobre Violência Contra a Mulher, Comité Vítimas e Famílias; Vozes da Fé, a revista Adista e outros coletivos, registou centenas de adesões de teólogos, biblistas, sacerdotes, religiosos e religiosas, bem como dezenas de vítimas de abusos sexuais, mas também psicológicos e espirituais, como alguns que abandonaram movimentos, dcomo os Focolares e o Opus Dei. 

A principal reivindicação de #ItalyChurchToo é que a CEI tome a iniciativa de criar uma comissão independente de investigação sobre pedofilia e abusos cometidos pelo clero, que tenha acesso livre e pleno aos arquivos eclesiásticos, a exemplo do que fizeram ou vêm fazendo outras conferências episcopais, em diferentes partes do mundo.

Exige, ainda, que se abordem problemas correlacionados, como a indemnização das vítimas, obrigação de denunciar casos e abolição da prescrição dos culpados e se estenda ao clero e religiosos a obrigatoriedade do “certificado anti-pedofilia”.

Esta coordenação de coletivos tem marcada para sexta-feira uma conferência de Imprensa para comentar os resultados da assembleia dos bispos, que termina nesse dia. 

 

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