Igreja “não volta atrás”, promete a CEP

Bispos já apoiam 30 vítimas de abuso e anunciam o novo grupo de escuta

| 21 Abr 2023

José Ornelas, Manuel Barbosa, Virgílio Antunes, Conferência Episcopal Portuguesa

Bispo José Ornelas, presidente (esqª); padre Manuel Barbosa, secretário; e bispo Virgílio Antunes, vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa: a hora é para agir e não para voltar atrás, garantem os bispos. Foto © António Marujo/7Margens

 

Um novo grupo com autonomia para “acolher, escutar, acompanhar e prevenir as situações de abuso sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja em Portugal, dando atenção às vítimas e aos agressores” foi anunciado pelos bispos portugueses, no final da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que esta quinta-feira terminou em Fátima com o anúncio de que já há 30 pessoas que estão a ser apoiadas financeiramente pela Igreja depois de terem sido vítimas de abuso por membros do clero.

No fim da assembleia e num primeiro gesto colectivo, os bispos celebraram uma missa de pedido de perdão às vítimas de abuso e insistiram na ideia de que a hierarquia católica está disponível para a reparação possível das feridas das vítimas e para as indemnizações que eventualmente sejam pedidas e decididas em tribunal.

O novo organismo (com a longa designação de VITA – Grupo de Acompanhamento das situações de abuso sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal) será composto por quatro psicólogos, um assistente social e uma psiquiatra. Coordenado pela psicóloga Rute Agulhas, especialista em psicologia clínica e da saúde, psicoterapia e psicologia da justiça, que integrava até agora a comissão diocesana de Lisboa para os casos de abusos, terá como prioridades a elaboração de um manual de prevenção comum a toda a Igreja em Portugal (dioceses e institutos religiosos) e o desenvolvimento de acções de capacitação do “trabalho das comissões diocesanas no acolhimento e acompanhamento das vítimas, bem como na formação preventiva dos agentes pastorais”.

Além da coordenadora, o Vita integra três outros psicólogos: Alexandra Anciães, com experiência de avaliação e intervenção com vítimas adultas; Joana Alexandre, docente universitária e investigadora na área da prevenção primária dos abusos sexuais; e Ricardo Barroso, docente universitário e especialista em intervenção com agressores sexuais.

Um assistente social (Jorge Neo Costa, com intervenção com crianças e jovens em perigo) e uma psiquiatra (Márcia Mota, especialista em sexologia clínica e intervenção com vítimas e agressores sexuais) completam a equipa, que contará ainda com um grupo consultivo de três pessoas: o padre João Vergamota, especialista em Direito Canónico; Helena Carvalho, docente universitária especialista em análise estatística; e um advogado ou jurista especialista em crimes de natureza sexual, que não está ainda escolhido.

Rute Agulhas, que participou num momento da assembleia plenária, esteve acompanhada por José Souto Moura, responsável da equipa nacional das comissões diocesanas. O grupo Vita será apresentado publicamente na próxima quarta-feira, 26.

 

“A ninguém vai faltar” o apoio necessário

Rute Agulhas, abusos sexuais

Rute Agulhas, psicóloga e coordenadora do novo Grupo Vita de acompanhamento das vítimas de abuso na Igreja. Foto © Agência Ecclesia

 

Embora articulado com o episcopado e a coordenação nacional das comissões diocesanas, o grupo tem assegurada a autonomia de funcionamento, garante o bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, que foi reeleito esta semana para o cargo de presidente da CEP. O episcopado não quis repetir a designação de “independente” para distinguir as tarefas deste novo grupo daquelas que teve a Comissão que, até Fevereiro, estudou o fenómeno dos abusos na Igreja em Portugal.

“Queremos que as vítimas se sintam confortáveis para vir ter com a Igreja, que está disponível para receber pessoas concretas” e para as apoiar nas compensações – também financeiras – que sejam necessárias.

É o caso de 30 pessoas que, em todo o país, recebem já esse tipo de apoio para tratamentos a que têm recorrido, acrescentou o presidente da CEP. “A ninguém vai faltar” o apoio necessário, insistiu, distinguindo esta atitude de “reparação” do conceito jurídico de indemnização: se houver pessoas que avancem para tribunal e peçam uma indemnização, a Igreja assumirá essas decisões. “Independentemente de as pessoas porem ou não processos de indemnização, vamos ao encontro delas para dizer: nós estamos disponíveis para reparar o mal, vamos começar desde já, independentemente de qualquer processo.”

 

Papa pode encontrar-se com vítimas

José Ornelas, Manuel Barbosa, Virgílio Antunes, Conferência Episcopal Portuguesa

Padre Manuel Barbosa, secretário (esqª); e bispos José Ornelas, presidente, e Virgílio Antunes, vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, na conferência de imprensa final da assembleia plenária da CEP, 20 Abril 2023, Fátima, que teve como foco o tema dos abusos sexuais. Foto © Agência Ecclesia/PR

 

Admitindo a possibilidade de o Papa Francisco se encontrar com vítimas de abusos quando vier a Portugal em Agosto – “depende claramente” da vontade dele, disse –, o presidente da CEP acrescentou que se deve ter em conta o “tempo muito contado” da Jornada Mundial da Juventude e a saúde do Papa. E, sobre os eventuais bispos encobridores, afirmou que não tem notícias de “situações claras de encobrimento”, mas que, se as houver, elas devem ser vistas caso a caso e que esta deve ser a oportunidade para “criar uma nova cultura”.

O bispo Ornelas aproveitou a ocasião para elogiar o trabalho da equipa de investigação histórica e a própria Comissão Independente (CI), contra as críticas de alguns sectores da Igreja. “Vou ficar-lhes eternamente grato”, disse, sobre a equipa que consultou os arquivos; “foram profissionais, apaixonados, com isenção” e a consulta que foi feita nos arquivos “está dentro das competências de qualquer autoridade”.

“Há pessoas que vêm ter comigo para agradecer aos bispos termos tido a coragem” de criar a comissão, conta, recordando que a própria CI disse sempre que o seu trabalho pode ser sujeito à crítica. “Houve equívocos na comunicação” quando se falou de uma centena de padres no activo, disse, mas Ornelas prefere não entrar no jogo dos números. O recuo a 1950 permitiu ver que o fenómeno dos abusos “foi diminuindo no tempo” e que o seu figurino foi mudando”, ao mesmo tempo que as “medidas cautelares não implicam uma objectivação de culpas”.

Os bispos aprovaram ainda o novo documento que regula a formação nos seminários, que será tornado público depois de ratificado pela Santa Sé. Uma das mudanças previstas é que os seminários menores “praticamente desaparecem na forma como existiam”.

 

Uma missa para pedir perdão

abusos sexuais, Marko Ivan Rupnik, Conferência Episcopal Portuguesa,

Eucaristia da jornada de oração pelas vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica, em Fátima: a Igreja não volta atrás, garantem os bispos. Foto Agência Ecclesia/PR

 

No momento alto do dia, e na conclusão da assembleia plenária, os bispos reuniram-se para a celebração de uma eucaristia “pelas vítimas de abusos sexuais, de poder e consciência na Igreja”. Com perto de meio milhar de pessoas na Basílica da Santíssima Trindade, o bispo de Leiria-Fátima, também presidente da CEP, afirmou, no início, que os bispos o faziam com o sentido de “penitência humilde, de solidariedade e proximidade cristã” com as pessoas “vítimas de comportamentos completamente iníquos, cruéis e manipuladores, por vezes disfarçados de atenção, afecto e até de motivação religiosa”.

Apesar de, mais tarde, na conferência de imprensa final, José Ornelas ter assumido que são raros ainda os bispos que já se encontraram com vítimas – ele próprio, bem como os bispos de Braga e Lisboa, além de um quarto que é do conhecimento do 7MARGENS –, mas que, no seu caso, aprendeu já com as histórias das vítimas. Cinco horas antes, na homilia da missa, o presidente da CEP disse que os bispos assumiam “a dor, a perturbação e a revolta dessas pessoas, tanto das que tiveram a coragem dolorosa de reagir e denunciar, como daquelas que se calam, ainda na incapacidade de falar dessa realidade que lhes barrou o caminho de uma vida mais feliz”. E acrescentou que, “em muitas ocasiões”, os bispos não foram “capazes de tomar consciência e de velar” como deviam “para evitar estes abusos e para lidar com a gravidade das ofensas”. Por isso aquele era o momento de apresentar “a cada um e a cada uma daqueles e daquelas que sofreram estes abusos em ambiente eclesial, um profundo, sincero e humilde pedido de perdão, em nome da Igreja na qual eles confiaram e onde sofreram tão injusta e perturbadora violência”.

Momentos depois, já na homilia da missa, o bispo referiu-se à “enormidade destruidora da violência e do abuso das crianças e dos mais débeis” e da “absoluta necessidade” de estar “ao lado de quem sofre esta devastadora realidade”.

 

Junto da obra de arte de um agressor

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O Cordeiro no painel do altar da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, obra de Marko Rupnik, e o crucifixo da artista irlandesa Catherine Green. Foto © António Marujo/7Margens

 

A eucaristia foi celebrada num altar cujo painel foi concebido pelo padre Marko Ivan Rupnik, o padre jesuíta esloveno que está a ser acusado de ter cometido abusos sexuais, de consciência e de poder sobre várias mulheres, incluindo religiosas que com ele trabalhavam. Isso não incomodou os bispos? – quis saber o 7MARGENS na conferência de imprensa da tarde. Ornelas confessou que o enchia “de muita pena” o que já veio a público, que manifesta o “contraste” com a beleza das obras de arte de Rupnik. A escolha do local para a celebração da missa obedeceu apenas à questão prática de permitir o acesso a todas as pessoas que quisessem participar, mas isso não o deixava “nada confortável”.

Na homilia, Ornelas disse ainda, dirigindo-se às vítimas e reiterando o pedido de perdão: “Essa dor é também a nossa, a vossa dor, e continuará a doer enquanto a vossa não for curada. Mas é uma dor que nos acorda, nos motiva e nos abre humildemente a ir ao vosso encontro, a escutar o que é incómodo, a reconhecer a dor e a procurar partilhá-la.”

A nossa Igreja não pode voltar atrás neste caminho. Não deve e não vai voltar; é mesmo preciso estar ao lado dos mais pequenos, dos mais esquecidos, em hospital de campanha, como fala o Papa Francisco”, sublinhou o presidente da CEP, antes de concluir: “Há caminho para além da dor, da justa revolta e da injustiça. Convosco, com o vosso testemunho, com a vossa inconformidade e tenacidade de vida, esperamos também ser uma Igreja renovada e inconformada com qualquer tipo de mal.”

 

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