Abusos e eleições na agenda

Bispos não tiveram em conta disponibilidade de católicos para nova comissão

| 16 Abr 2023

Assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, Fátima, Abril 2022. Foto © Agência Ecclesia/PR

 

Houve católicos reconhecidos publicamente na sociedade portuguesa que se disponibilizaram para dinamizar e liderar uma nova comissão de escuta e acompanhamento de vítimas de abusos, mas essas disponibilidades, comunicadas à presidência da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), não foram sequer tidas em conta pelo episcopado – soube o 7MARGENS.

A escolha dos bispos para liderar a nova comissão de acompanhamento, foi anunciada na semana que terminou por José Souto Moura, e acabou por recair na psicóloga Rute Agulhas, que integra a comissão diocesana de protecção de menores do Patriarcado de Lisboa. Nesta segunda-feira, 17 de Abril, a CEP inicia em Fátima (a partir das quatro da tarde) a sua assembleia plenária em que formalizará a nomeação de Rute Agulhas, enquanto debaterá outras medidas para o combate aos abusos sexuais na Igreja Católica e elegerá os responsáveis da Conferência Episcopal para um novo triénio – incluindo o presidente. Apesar de poder cumprir um segundo mandato, há dúvidas sobre a vontade do bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, em continuar disponível para tal, mas vários dos seus colegas admitem que ele possa ser reeleito, desde que não recuse essa possibilidade (ver outro texto no 7MARGENS).

O cenário de fundo inclui ainda o facto duas dioceses (Bragança e Setúbal) estarem sem bispo há mais de um ano e cinco outras ficarem sem titular a breve prazo, por terem atingido os 75 anos de limite de idade – sem contar que porventura algum bispo possa sair, na sequência de casos de abusos e eventuais encobrimentos. Uma assembleia cheia em perspectiva, num momento em que se prepara a renovação de praticamente um terço dos bispos diocesanos.

 

O novo “grupo operativo”
Psicóloga Rute Agulhas. Foto Direitos reservados, via Facebook.

Psicóloga Rute Agulhas. Foto Direitos reservados, via Facebook.

 

 

A decisão sobre o novo “grupo operativo que será responsável pelo acolhimento e acompanhamento das vítimas de abusos no seio da Igreja Católica em Portugal, em articulação com a Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas” foi anunciada em comunicado da CEP da passada quinta-feira, 13, conforme o 7MARGENS noticiou.

Pelo menos enquanto não for anunciada a constituição completa deste “grupo operativo”, a decisão significa que a CEP preferiu a solução “interna” defendida no Patriarcado de Lisboa: na assembleia extraordinária de 3 de Março, de acordo com bispos que participaram na reunião, o patriarca Manuel Clemente argumentou que a Igreja não precisava de pessoas de fora; e o antigo Procurador-Geral da República, Souto Moura, responsável da equipa nacional de coordenação das comissões diocesanas e da comissão do patriarcado de Lisboa, é adepto da mesma solução: um grupo que se articule com a coordenação nacional das comissões diocesanas.

Em Março, embora a assembleia estivesse partida quase ao meio, diferentes bispos ouvidos pelo 7MARGENS garantem que uma curta maioria pendia para a opinião de que o novo organismo deveria ser constituído à semelhança da anterior Comissão Independente – com pessoas de reconhecido mérito e não ligadas institucionalmente à Igreja.

O bispo emérito das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, disse mesmo à RTP, no dia 5 de Março, que essa nova comissão poderia ser composta por alguns dos católicos que, na carta de 1 de Março, sugeriram à CEP uma estratégia e um calendário de acção para os próximos meses – carta que os bispos ignoraram, no seu comunicado final, nos agradecimentos que fizeram a várias instâncias. De qualquer modo, os nomes que se disponibilizaram à CEP não eram signatários dessa carta.

A nova comissão é um dos assuntos previstos para a assembleia plenária da CEP. Depois da apresentação do relatório sobre os abusos sexuais na Igreja Católica, e da assembleia extraordinária 3 de Março onde a falta de consenso e de decisões, bem como a conferência de imprensa que se lhe seguiu, provocaram uma chuva de críticas, a CEP remeteu para esta assembleia de Abril a tomada de decisões sobre as respostas a dar.

 

Não há documentos de preparação

 

A Conferência Episcopal precisava de ter os assuntos “mais trabalhados, mais mastigados, mais debatidos”, defende o bispo de Vila Real, António Augusto Azevedo. Foto © Ricardo Perna

A Conferência Episcopal precisava de ter os assuntos “mais trabalhados, mais mastigados, mais debatidos”, defende o bispo de Vila Real, António Augusto Azevedo. Foto © Ricardo Perna

 

Oito bispos ouvidos pelo 7MARGENS – um terço dos 21 bispos diocesanos, vários dos quais preferem manter o anonimato – admitem que não tinham recebido, até sexta-feira passada, quaisquer documentos de preparação da assembleia – e, nomeadamente, sobre a questão dos abusos sexuais. Além da formalização da nomeação de Rute Agulhas, está prevista a celebração de uma eucaristia “no contexto da jornada nacional de oração pelas vítimas de abusos sexuais, de poder e de consciência na Igreja”. A celebração ocorre às 11h da próxima quinta-feira, na Basílica da Santíssima Trindade.

Em relação a ambos os pontos, pelo menos quatro dos bispos ouvidos pelo 7MARGENS são claros: sobre o primeiro, preferiam uma comissão mais da sociedade civil e menos saída do aparelho eclesiástico. Dois deles sugerem que o ideal era ter continuado imediatamente o trabalho da Comissão Independente, logo que esta cessou funções com a entrega do relatório, em 13 de Fevereiro. O arcebispo de Braga, membro do conselho permanente da CEP, garante no entanto que haverá “crentes e não-crentes” no novo grupo.

Acerca da missa de quinta-feira, a maior parte considera que sabe a pouco, sem antes haver decisões fortes nem encontros com vítimas – e um admite sentir-se pouco mobilizado para estar presente, pois considera que tal celebração não deveria acontecer neste momento nem desta forma.

Um outro ponto assegurado é a discussão e votação da última versão da Ratio, o documento sobre o modelo de formação dos seminaristas. “Em geral acolhemos várias recomendações óbvias da Comissão Independente”, disse ao 7MARGENS o bispo de Vila Real e presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios, António Augusto Azevedo, responsável pela preparação do documento que será debatido. Sem querer concretizar as recomendações, António Azevedo refere o “maior cuidado com o perfil dos seminaristas, nomeadamente nas questões psicológicas e afectivas”, bem como na maior abertura dos seminários à participação exterior.

No resto, o bispo de Vila Real diz que “não é novidade que a metodologia” de trabalho da CEP “deixa ainda a desejar”: a conferência precisava de ter os assuntos “mais trabalhados, mais mastigados, mais debatidos”. Tem-se tentado esse caminho, tem havido “esforço por acertar mais, espero que se avance”, confessa António Augusto Azevedo.

O arcebispo de Braga também admite que foi natural a má reacção à assembleia da CEP de 3 de Março. Mas coincide com a ideia de que se está num processo: “O caminho é este e é sem retorno”, assegura. Em relação à missa de quinta-feira e ao facto de, até agora, apenas meia dúzia de bispos se terem encontrado com vítimas – três dos quais o próprio José Cordeiro e os seus dois bispos auxiliares, Nuno Almeida e Delfim Gomes – o arcebispo de Braga relativiza eventuais críticas: “Os gestos são necessários, a centralidade está nas pessoas vítimas” de abusos. A jornada nacional é importante: “A oração também cura, é um meio de ir ao encontro”, defende. “A maioria das pessoas quer continuar na Igreja, isto é, manifesta a esperança de que a nossa conversão aconteça” e os bispos estão “empenhados em que haja gestos de escuta e proximidade”. E dá o exemplo da sua diocese, onde a comissão de protecção está a preparar um directório para ambientes seguros.

 

Acompanhar as vítimas, “o ponto central”

 

“Deveríamos ser exemplares nas decisões a tomar, para dar um contributo positivo à sociedade portuguesa”, defende um dos bispos. Foto © LinkedIn Sales Solutions / Unsplash

“Deveríamos ser exemplares nas decisões a tomar, para dar um contributo positivo à sociedade portuguesa”, defende um dos bispos. Foto © LinkedIn Sales Solutions / Unsplash

 

A questão do acompanhamento das vítimas é, nesta fase, “o ponto central”, diz um dos membros do episcopado. Resta saber o que decidirá a assembleia: se a CEP estabelece protocolos com o Serviço Nacional de Saúde, ao qual seriam pagas as despesas de tratamento das pessoas que a ele acorram; ou se cada vítima lida com estruturas da Igreja, por exemplo.

Neste tópico, os bispos que falaram com o 7MARGENS preferem quase todos esperar pelo debate da assembleia, mas um deles adianta que a forma de apoio deveria poder ser decidida por cada pessoa. Outro diz que cada diocese deve apoiar economicamente quem disso necessitar, mesmo para deslocações, por exemplo. Também há quem acrescente que nenhum apoio deve ser regateado pela Igreja nestes casos. “Deveríamos ser exemplares nas decisões a tomar, até para podermos, nesta fase, dar um contributo positivo à sociedade portuguesa”, afirma outro dos membros do episcopado. “Se não formos capazes, perdemos uma oportunidade histórica”, diz um quinto bispo.

“Que não haja qualquer dúvida de que este caminho não tem retorno”, sublinha o bispo de Vila Real, referindo a necessidade de “medidas que se impõem a nível da formação e o reforço de instâncias de escuta e apoio às vítimas”. E acrescenta: “O problema não acabou, temos de ser capazes de restabelecer confiança.”

Promover iniciativas concretas em cada diocese é um dos caminhos sugeridos por alguns dos bispos. O arcebispo de Braga é um dos que aponta nessa direcção. O Centro de Escuta e Acompanhamento Espiritual, que tem um padre a tempo inteiro, acolheu já 646 pessoas de toda a diocese; a Cáritas tem uma casa onde são acompanhadas 147 pessoas vítimas de violência – e o fenómeno “está a aumentar”, diz o arcebispo José Cordeiro.

“O que aconteceria a essas pessoas se não fôssemos ao encontro dela?”, pergunta José Cordeiro, que tem falado com vítimas de abuso e também já visitou o centro da Cáritas. “Não se trata de mudarmos procedimentos, mas a cultura. E precisamos de gestos concretos, de ser criativos, de estar ao serviço de quem se sente a sofrer.”

O arcebispo de Braga pretende partilhar na assembleia desta semana o que já está a ser feito na sua diocese, que inclui também a “boa articulação com as autoridades, as comissões de Protecção de Crianças e Jovens e outras instituições”.

Depois de ter lido “todo o relatório”, o arcebispo de Braga diz que “todo ele impressiona, é claro, é triste, sente-se vergonha”. Mas “foi muito mais forte o encontro com as vítimas: é ver as pessoas olhos nos olhos, é sentir o sofrimento e o peso que carregam durante a vida”.

“Hoje o nosso olhar está muito mais sensível”, diz o arcebispo Cordeiro, que agradece também a todos os que têm manifestado a sua “solicitude” pelo bem da Igreja. “Há uma evolução ética, moral, que está a acontecer em todas as pessoas.”

 

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