
Depois de Justin Welby (à direita), também o ex-arcebispo de Cantuária George Carey é suspeito de encobrimento de abusos no seio da Igreja Anglicana. Foto: Direitos reservados
Bastou o telefonema de um jornalista da BBC para combinar umas perguntas ao antigo responsável pela Igreja Anglicana, o ex-arcebispo de Cantuária George Carey, a propósito dos abusos de um membro do clero, para que este tivesse renunciado ao sacerdócio. Segundo os média britânicos, o motivo deverá ser o encobrimento de abusos, apesar de o ex-arcebispo ter invocado a sua avançada idade (89 anos).
Este é o segundo caso, depois da resignação do arcebispo Justin Welby, em 12 de novembro. O arcebispo de Iorque, Stephen Cottrell, bem colocado para suceder a Welby, está também a ser pressionado a resignar, por encobrimento e inação. O lado positivo é que, na Igreja Anglicana, há bispos que tiram consequências de terem alimentado uma cultura de silêncio e cumplicidade com os abusadores, deixando as vítimas entregues à sua sorte.
O caso de Carey foi posto a descoberto porque a BBC investigava um caso de encobrimento de abusos relativamente recente, em que estava implicado o padre David Tudor, carismático pregador, pertencente à diocese de Chelmsford , quando o seu bispo era Stephen Cottrell (pastoreou aí de 2010 a 2020). Nessas investigações, apareceu o nome de George Carey, já que o padre Tudor era um reincidente: tinha sido denunciado e julgado, no final dos anos 80, por vários casos de abusos de raparigas adolescentes. Um tribunal eclesiástico chegou mesmo a penalizar o clérigo, em 1989, com o afastamento do exercício do ministério. Cinco anos depois, no entanto, o responsável pela Igreja de Inglaterra de então, o arcebispo de Cantuária George Carey, autorizou Tudor a retomar funções na Igreja.
Agora é o arcebispo Cottrell que está ‘debaixo de fogo’, também pelo mesmo caso. Ele não apenas acolheu o padre David Tudor como permitiu que ele se tornasse um “cónego honorário” e “reitor de área”, ou seja, que tivesse singrado na hierarquia. Só em 2019 o clérigo viria a ser suspenso do exercício ministerial.
São várias as vozes que pedem que o agora arcebispo de Iorque renuncie às suas funções episcopais. A bispa de Newcastle, Helen Ann Hartley, que se bateu pela renúncia de Welby, está agora a defender que Stephen Cottrell também deve sair, dizendo que ele não tem “credibilidade ou autoridade moral” para liderar a igreja. Nos meios ligados à Igreja de Inglaterra, padres e leigos defendem o mesmo.
Esta contestação não pode deixar de ser entendida no quadro da escolha do sucessor de Justin Welby. É que o arcebispo de Iorque é considerado o número dois da Igreja Anglicana e em posição de liderar pelo menos a fase de transição, quando Welby abandonar funções em 6 de janeiro próximo, sendo igualmente um forte potencial candidato à sucessão em Canterbury. Por isso é que a bispa Hartley entende ser “impossível” confiar no arcebispo para “liderar as mudanças necessárias na proteção como líder sénior” da igreja, conforme se pode ler no Church Times, o jornal da Igreja de Inglaterra.
Cottrell já veio defender-se, dizendo que o padre Tudor só foi afastado em 2019 e não antes porque só nesse ano surgiram novas queixas de abuso contra ele, as quais deram fundamento legal para que o prelado pudesse agir. Mas não justificou por que razão o promoveu a cónego honorário da catedral. Por outro lado, vários bispos, em tons diversos, vieram a público contestar que o arcebispo de Iorque deve resignar, ainda que admitindo que há questões a que ele deveria responder.
A eleição do sucessor de Justin Welby tem já designado o nome do coordenador do Comité de Nomeações da Coroa, que inclui o arcebispo de Iorque, que é o segundo bispo mais antigo da instituição, outro bispo eleito pela Câmara dos Bispos e representantes da Comunhão Anglicana, da Diocese de Cantuária e do corpo de governo da igreja – o Sínodo Geral. Antes de o Comité se constituir, haverá um período de consulta sobre as necessidades da Igreja de Inglaterra e, mais em geral, da Comunhão Anglicana, que tem 85 milhões de membros espalhados pelo mundo, sobretudo na Commonwealth. O Comité escolhe um primeiro e um segundo nomes. O segundo nome é mantido em reserva, só sendo utilizado se o primeiro não aceitar ou não for aceite (em primeiro lugar pelo primeiro ministro do país e, depois, pelo Rei, que é a suprema autoridade da Igreja). Este processo não deverá demorar menos de seis meses.
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