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Timothée Chalamet em A Complete Unknown, como Bob Dylan. Foto: Direitos reservados

"Um Completo Desconhecido"

Bob Dylan no país de Trump

| 09/03/2025

 

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don’t stand in the doorway
Don’t block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
The battle outside ragin’
Will soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin’

(Bob Dylan, 1964)

Têm sido tantas as notícias dos sucessivos dislates do senhor Trump desde que – tristemente… – foi eleito Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) que não tenho tido qualquer apetência para escrever ou mesmo pronunciar-me sobre os “tempos sombrios” (Hannah Arendt) que aí vêm. Talvez este fragmento da conhecida canção de Bob Dylan For the times they are a changin’ expresse um pouco os meus sentimentos. São “tempos de diabos à solta”, como afirma a pintora Graça Morais.

Experimento alguma ausência de esperança e fé no melhor do ser humano, apesar de não poucas evidências (graças a Deus!) me mostrarem o bom e o belo que temos. O futuro adivinha-se tempestuoso e tenho o profundo desejo de que o povo americano erga bem a cabeça e se lembre de que um processo de impeachment (destituição) é possível em democracia. Os “good old USA” estão entregues a um louco fanático, ignorante e mafioso (e seus apaniguados) e todo o mundo irá sofrer em ricochete.

Dói constatar os seus projetos para a Faixa de Gaza: um verdadeiro holocausto na pretensão de aniquilar todo um Povo… ou o afastamento da Ucrânia da mesa de negociações para a paz, exigindo contrapartidas tais como a exploração de minerais raros em proveito de neo-colonialismos – a humilhação a que foi sujeito Zelinsky na Casa Branca não tem classificação possível! E os migrantes indocumentados a serem metidos – algemados! – na sombria prisão de Guantánamo! Como é possível isto passar-se nos dias de hoje?… Tantas iniciativas de desenvolvimento pelo mundo fora (e postos de trabalho inerentes) estão “suspensas”: USAid, Catholic Relief Services, voluntariado de jovens e outros programas humanitários; desmantelam-se operações no terreno para defesa dos direitos humanos e promoção da saúde (saída da OMS), etc. Nos orçamentos federais chega a haver cortes de 50% na educação, saúde ou alterações climáticas.

Onde a energia vital deste povo? Onde a sua alegria? Onde a esfusiante generosidade? Onde o pragmatismo e a tradição organizativa tão importantes para a resolução de problemas? Times they are a changin’. Perigosamente.

 

Imagem da série Hill Street Blues: “Não estava longe disso e experimentei alguns perigos.” Foto: Direitos reservados.

Imagem da série Hill Street Blues/A Balada de Hill Street: “Não estava longe disso e experimentei alguns perigos.” Foto: Direitos reservados.

 

Ora o “problema” é que eu gosto dos Estados Unidos. Vivi lá, trabalhei lá, lutei pela minha sobrevivência, fiz graus académicos; lá criei raízes e bons amigos… apesar de, mesmo convidada a ficar, nunca ter ambicionado viver num país que não este, o meu. Somam-se praticamente oito anos (8 anos!) de vida nos EUA. Tive um visto de emigrante para poder trabalhar na comunidade portuguesa em Newark – constatei o que era uma paróquia católica organizada como uma empresa capitalista… –, transitando depois para South Bronx (o pior gueto de Nova Iorque) para conseguir continuar a trabalhar – com famílias em risco de maltratar as crianças – e manter em simultâneo os meus estudos…

Um dia contarei algumas destas histórias: a minha saudosa Mãe, ao ler as cartas que escrevia à família, dizia que parecia que eu estava nos Hill Street Blues, a famosa série de TV dos anos 80. Não estava longe disso e experimentei alguns perigos, mas sobretudo pude verificar aquilo que o sistema capitalista ultra-neo-liberal faz a várias comunidades pobres como a hispânica (nomeadamente os porto-riquenhos e da República Dominicana), a oriunda do Haiti e mesmo a população negra vinda do sul…  

Quando vivi na Big Apple (Nova Iorque) confesso que nunca me senti estrangeira e gozava de estímulos culturais tão avançados no tempo! No entanto eu era branca, classe média, europeia. Depois vivi no Midwest, a sul de Chicago, numa pequena cidade universitária com todas as condições para poder mergulhar no estudo e na investigação, apesar do frio gélido que trazia o vento e a neve dos grandes lagos a norte. Ao contemplar os campos de terra plana e extensa de produtores de milho (geneticamente modificado) e soja… perante aquela imensidão percebi de onde pulsava o neo-conservadorismo americano. 

Antes fizera a tradicional viagem de ida e volta, costa a costa, de Nova Iorque a Santa Fé e Colorado, depois Califórnia guiando (com uma amiga) uma carrinha de mudanças. Sem dúvida os EUA foram uma land of opportunity, terra da oportunidade para mim, mas infelizmente não o tem sido para todos. Nunca esquecerei, quando numa aula elogiava a forma como tinha sido recebida nos EUA, uma colega negra, sentada à minha frente, encarou-me olhos nos olhos: Not for everyone, isso não é para todos. Senti o chão fugir-me debaixo dos pés. Que insensibilidade a minha! 

 

Uma família de trabalhadores agrícolas migrantes, com sete crianças com fome. A mãe tem 32 anos e vivem de forma indigente no campo de apanhadores de ervilhas, em Nipomo, Califórnia. Estas pessoas tinham acabado de vender a sua tenda para poderem comprar comida. Dorothea Lange, Public domain, via Wikimedia Commons

A fotografia mostra Florence [Owens] Thompson com dois dos seus filhos, fazendo parte da série “Migrant Mother”. Foto © Dorothea Lange, Public domain, via Wikimedia Commons

 

Continuando: vejam-se as sinistras imagens nos meios de comunicação, praticamente em direto, em que tantos “estrangeiros” algemados são repatriados para os seus países de origem ou para a prisão de alta segurança de Guantánamo. Que crueldade! Ora uma parte daquilo que sou hoje devo-o ao tempo passado nos EUA. Em geral digo que os Estados Unidos têm o pior e o melhor no seu modus vivendi e no seu etnocentrismo (e egocentrismo). Infelizmente, na generalidade, olham para a dinâmica internacional sempre em função do seu “umbigo”, isto é, dos “interesses dos americanos” no mundo. E assim se vão desencadeando guerras fatais e imparáveis…

How does it feel,
how does it feel?
To be without a home
Like a complete unknown, like a rolling stone.

(Bob Dylan)

Neste estado de espírito, desapontada, indignada mesmo, porque os meus fellow citizens tinham “deixado” Trump ganhar as recentes eleições, meti-me há dias no cinema para ver o filme sobre Bob Dylan, o meu ídolo de juventude e ainda hoje referência cultural privilegiada: não é em vão que Dylan recebeu o prémio Nobel da Literatura em 2016 por “novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música popular americana”, entre tantos outros prémios, nomeadamente a Medalha Presidencial da Liberdade, e enorme reconhecimento público. Sim, Bob Dylan, um homem livre, bem “americano”. 

Refiro-me ao filme
Um Completo Desconhecido
, que se debruça sobre o tempo de juventude do cantor e poeta e que recomendo vivamente: não apenas porque Dylan terá sido uma referência maior da juventude de muitos de nós, mas chamando a atenção para uma obra cinematográfica que, a meu ver, seria merecedora de um Óscar, com interpretações notáveis e a música inesquecível desse “duende” da música folk/rock. O ator que incarnou o papel principal, Timothée Chalamet, afirmou que interpretar Bob Dylan tinha sido uma honra porque Dylan é a true american hero, um verdadeiro herói americano. A jornalista Isabel Lucas chamou-lhe numa entrevista “o bardo do rock” — com passagem pelos spirituals, pelo folk, pela música pop até chegar a uma inesquecível reinvenção do rock. 

 

Livre, sozinho e solitário, de viola na mão e mochila às costas, Dylan partiu para Nova Iorque em busca de uma “centelha de luz”. Foto © Rowland Scherman, Public domain, via Wikimedia Commons

Livre, sozinho e solitário, de viola na mão e mochila às costas, Dylan partiu para Nova Iorque em busca de uma “centelha de luz”. Foto © Rowland Scherman, Public domain, via Wikimedia Commons

Esta caminhada começou com a saída da cidadezinha do Minnesota (Duluth, 1941) com as suas bem tradicionais práticas culturais judaicas (família de judeus lituanos). Robert Allen Zimmerman escolheu passar a chamar-se Bob Dylan e foi caminhando em direção aos spirituals, aos blues e à música folk. Ainda criança (10 anos) escreve os seus primeiros poemas. Na adolescência aprende piano e guitarra sozinho. Na Universidade de Minnesota (1959) cria o seu primeiro grupo de música folk. Numa entrevista concedida em 2004, Dylan diz a propósito da mudança de nome: “Você nasce, sabe, com nomes errados, pais errados. Digo, isso acontece. Você chama[-se] do que quiser chamar-se. Este é o país da liberdade”. 

Livre, sozinho e solitário, de viola na mão e mochila às costas, parte para Nova Iorque em busca de uma “centelha de luz” (une étincelle, a spark, uma iluminação, como explica no início de filme) e, porque queria conhecer o seu ídolo folk Woody Guthrie, então já acamado com uma doença degenerativa incurável. Rebelde, tem a coragem de partir: lembro o magnífico poema de Eugénio de Andrade “Mãe, já não sou o retrato na moldura… Mãe, vou com as aves” que se aplica não apenas à família de origem de Bob Dylan mas a todo o seu percurso musical e figuras de referência tais como, por exemplo, Pete Seeger, Joan Baez e outros músicos fiéis ao folk ou mesmo os seus agentes artísticos. 

Guthrie reconhece o enorme talento de Dylan e “entrega-o” a Pete Seeger que lhe deu a mão e o tratou como família. No entanto, Bob Dylan era um incurável e inquieto “pesquisador”, rebelde, aberto ao seu tempo, arrogante. Foi abandonando progressivamente os blues e a música folk, explorando outras formas musicais. Detestava e sentia-se oprimido ao ser posto em “boxes”, molduras, num isto ou aquilo limitativo. 

Sim, era bem no fundo um arrogante tímido que se deu muito mal com a fama que rapidamente o atingiu; um diletante nas suas relações afetivas (chegou a ter Joan Baez como companheira). Afirmava: “não quero ser banal”, queixando-se: “querem que eu seja aquilo que eles desejam”. Era ousado, inconformista – desejava “voar com as aves” soltando as amarras, saindo das “molduras”. Apesar de toda esta diletância, a sua vida é perpassada por um fio condutor, a justiça social: viveu os sixties da luta pela igualdade racial e direitos civis, contra a guerra do Vietname ou a crise dos míssseis de Cuba… Foi um expoente do movimento hippie na sua profunda criatividade aliada a uma ousadia ilimitada. 

 

Timothée Chalamet em A Complete Unknown, como Bob Dylan. Foto: Direitos reservados

Timothée Chalamet em A Complete Unknown, como Bob Dylan. Foto de divulgação: Direitos reservados

 

Iniciador desta contracultura foi considerado o melhor músico de todos os tempos depois dos Beatles. Quando vivi em Nova Iorque cheguei a ir a Woodstock para mergulhar naquele ambiente hippie tão significativo e inovador. Dylan afirma sobre a música rock: “A coisa sobre o rock’n’roll é que para mim de qualquer jeito ele não era suficiente… Havia bons bordões e um ritmo pulsante… mas as canções não eram sérias ou não refletiam a vida de um modo realista. Eu sabia que quando eu entrei na música folk, era um tipo de coisa mais séria”. As canções eram perpassadas de desespero, mais tristeza, mais triunfo, mais fé no sobrenatural, sentimentos bem mais profundos do que o rock tradicional. A harmónica tornou a sua música sempre reconhecível. Companheira. Dylan, símbolo do melhor que a América tem.

No filme Um Completo Desconhecido fui saboreando a banda sonora com aquela voz rouca, áspera e simultaneamente doce, cantando músicas como Blowing in the wind (1963), The Times they are a Changin’ (1964) contra a guerra no Vietname e pelos direitos civis, Like a Rolling Stone…. Tudo na voz de Timothée Chalamet. Quem me conhece não se admirará que eu tenha saído do cinema de corpo e braços balançando ao som daquela música e do movimento da harmónica que se me entranha no corpo. As letras das suas canções são sobejamente conhecidas, já deram origem a mais do que um livro, e têm grande qualidade poética, demonstrando ao mesmo tempo um inquieto compromisso político e sempre uma sensibilidade social. 

Dylan tem amplas influências literárias e culturais. Lia Emily Dickinson, Dylan Thomas ou Walt Wittman, Shakespeare e tantos outros escritores e poetas. Publicou um livro com pintura e desenhos. Escrevia num guardanapo de papel ou nas costas do invólucro de um disco – vemo-lo no filme a murmurar textos na rua ou… acordava trauteando frases musicais e poemas enquanto se espreguiçava. Joyce Carol Oates, escritora norte-americana,  escreveu: “Quando escutei pela primeira vez essa voz crua, muito jovem e parecendo não treinada, francamente nasal, como se a lixa pudesse falar, o efeito foi dramático e eletrificante.”

Continuando a escrever e a musicar, Dylan conta hoje com 84 anos.

Ele é “el duende” de Frederico Garcia Lorca. “Minha poesia escrita descansa” vi eu escrito há muitos anos no painel de uma feira perto do Rio de Janeiro. Inquieto Bob Dylan: poesia e música entrecruzadas, bordadas no corpo. Buscador espiritualmente passou pelo catolicismo, tendo regressado às suas origens judaicas. 

 

Anúncio do Prémio Nobel da Literatura de 2016 para Bob Dylan. Foto © Frankie Fouganthin, CC BY-SA 4.0 , via Wikimedia Commons

Anúncio do Prémio Nobel da Literatura de 2016 para Bob Dylan. Foto © Frankie Fouganthin, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

 

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, and how many times must the cannonballs fly
Before they’re forever banned?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

(…)

Yes, and how many times must a man look up
Before he can see the sky?
And how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, and how many deaths will it take ’til he knows
That too many people have died?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

(Bob Dylan)

Na sua carta quando recebeu o Nobel, enviada através de um vídeo, Dylan, notoriamente tímido com os meios de comunicação social, disse: “As nossas canções são vivas na terra dos vivos. Mas as músicas são diferentes da literatura. Elas são feitas para serem cantadas, não lidas.” As minhas canções é que são o centro vital de quase tudo que eu faço. Parece que elas encontraram um lugar na vida de muita gente de muitas culturas diferentes e sou grato por isso.” 

Penso e agradeço a América de Bob Dylan, enquanto ouso ter esperança de que o “trumpismo” passe porque é “tempo dos diabos à solta”. Que Trump olhe para cima e veja quem chora (how many times must a man look up), quantos mortos serão necessários para que abra os ouvidos e escute as palavras do poema Blowin’ in the wind… do melhor que a América tem!

 

Imagem de destaque: Timothée Chalamet em A Complete Unknown, como Bob Dylan. Foto de divulgação: Direitos reservados

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participante no Movimento do Graal. t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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