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Bolsonaro, Coronavírus e Coronéis

| 11/06/2020

Bolsonaro, Coronavírus e Coronéis

by | 11 Jun 20

​Os “evangélicos” – designação comum dos cristãos de origem protestante – no Brasil, eram há 40 anos uma minoria perseguida e sem influência político-cultural. Fossem eles de igrejas tradicionais, como os Luteranos, pentecostais históricos ou não, calmos e racionalmente lúcidos, ou emocionalmente histéricos… A diversidade teológica e litúrgica era enorme. Pequenos eram os números. A população católica constituía a maior denominação cristã do Brasil, protegida pela elite política, cultural e financeira. Os outros eram pobres, ignorantes e de importância periférica.

Mas este quadro mudou gradativamente nas últimas quatro décadas. Como minoria, o grupo perseguido e amordaçado, ganhou expressão na primeira eleição de Lula. Tornou-se evidente que a força política dos evangélicos era como um rio de lava fervente movendo-se no subsolo brasileiro e pronto a emergir nas várias áreas da sociedade. Em 2002, Lula representava a moralização do governo preocupado com a pobreza e justiça social, temas sempre acarinhados pela população evangélica e que se manifestaram no Evangelho Social dos anos 60-70, e hoje se vêem no movimento Missão Integral. Em 2002 e 2006 Lula recebeu apoio dos lados mais inesperados dos evangélicos. Desde Caio Fábio, que na altura era respeitado como um dos mais brilhantes teólogos do país, até Silas Malafaia (daí a postura meio caricata de certos pastores quando confrontados com as actuais patifarias de Lula).

Bom, o fluxo da história correu e as coisas mudaram. E mudou também a força evangélica. A sua influência aumentou. Se antes o apoio a Lula chegava a partir de pastores e líderes, em 2018 esse apoio veio do povo. Foi o povo que decidiu envolver-se na política. Foram as massas e as “tias do zap”, como foram tratados pejorativamente os eleitores de Bolsonaro, que decidiram tomar o destino nas suas mãos. O povo que foi traído pelas falsas promessas de políticos e religiosos. Ainda hoje os analistas não entendem que essas ovelhas acordaram e querem mandar no curral. E também não entenderam que o que fez a diferença para a mudança radical do voto da “bancada evangélica” foi a indignação moral. A moral pseudo-progressista da esquerda escarnece do “moralismo” do povo. Esse “moralismo” criticado pelos intelectuais foi o que inspirou os evangélicos a rejeitarem o politiquismo das causas fracturantes imposto pelo poder hegemónico petista, que era impingido goela abaixo, no Brasil. Este sentimento preservado no cerne do evangelicalismo e na moral católica, sempre fez parte do modo de estar brasileiro. Desprezá-lo como baixo, retrógrado e preconceituoso, como sugeriram os petistas foi erro de palmatória e levou à vitória de Bolsonaro.

E desta forma, no presente momento, apresentam-se vários desafios aos evangélicos Brasileiros:


1. Moral coerente

Apesar do governo de Bolsonaro estar comprometido com a vontade do povo contra a histérica elite intelectual, o povo deve continuar a escutar o eco dos valores morais que levaram Bolsonaro ao Planalto. Um exemplo actual é a recusa do Presidente em negociar benesses políticas com a Câmara: “Esses políticos têm de entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro” – afirmou recentemente Bolsonaro. A sua postura é boçal e muitas vezes roça o ridículo.

Todavia, para os evangélicos que foram desprezados vezes sem conta e alvo eles mesmos de chacota pública, os desacertos de Bolsonaro são meras notas de rodapé. O povo evangélico, principalmente o pentecostal, vive de experiências e não de discursos coerentes. Para eles pouco importa as acrobacias de Bolsonaro desde que ele diga que “Deus está acima de todos”. Afinal Lula era “cachaceiro” e Dilma “estocava o vento”!


2. Moral delinquente

O momento actual é inédito na História do Brasil. De minoria oprimida os evangélicos passaram a maioria comprometida. E como tal todos os esqueletos estão em exposição na vitrine pública. A tentação evangélica é exigir do governo Bolsonaro (ele mesmo alimenta esse equívoco) uma abordagem teocrática da coisa pública. Chamadas nacionais ao jejum e oração em tempos de pandemia como se o Brasil fosse o Israel Bíblico, é um tiro no pé e dá a ideia duma força moralizadora que actua de cima para baixo, tal como fizeram os governos petistas.

O Estado deve continuar a estar ao serviço da coisa pública. Ele nunca se pode colocar no lugar das famílias e das Igrejas no seu lugar de produzir “cidadãos do mundo”. Senão passamos duma moral diligente a uma moral delinquente. Religião e Estado devem ter esferas de actuação distintas. Política humana e vontade divina nunca se devem misturar. O casamento sórdido entre emoção teológica e poder público nada têm a ver com o Evangelho de Cristo.


3. Moral estridente

Se na década de 90 e no início deste século os governos petistas tinham o aval de teólogos, hoje em dia Bolsonaro tem o apoio de representantes do extremismo neo-pentecostal. Dum ponto de vista mais moderado serão quasi-animistas, guiados mais por sonhos, visões e profecias místicas do que pela Bíblia. Dum ponto de vista teológico serão mágicos e feiticeiros. Nesta categoria estão Silas Malafaia e Edir Macedo (fundador da IURD), apoiantes indefectíveis de Bolsonaro. É a total estridência evangélica.

Em Actos 19, é relatada uma situação de milagres que aconteciam por intermédio do Apóstolo Paulo. De tal maneira que “até lenços e aventais que Paulo usava eram levados e colocados sobre os enfermos. Estes eram curados de suas doenças, e os espíritos malignos saíam deles” (Actos 19.12). Parece magia! Nem tanto. A razão tem a ver com a real presença do verdadeiro poder de Deus. Logo uns charlatães tentaram aproveitar-se da situação, mas saiu-lhes o tiro pela culatra. “Um dia, o espírito maligno lhes respondeu: “Jesus eu conheço, Paulo eu sei quem é; mas vocês quem são? Então o endemoninhado saltou sobre eles e os dominou, espancando-os com tamanha violência que eles fugiram da casa nus e feridos” (Actos 19.15-16).

Usar os recursos espirituais colocados ao serviço da Igreja de Cristo como forma de negociar com Deus é pura magia. Feitiçaria. Infelizmente, o povo evangélico ainda transita neste erro. Porventura por influência das suas raízes sincréticas de origem Africana. Porventura por influência duma cultura de “coronéis” que ainda inquina certa sociedade Brasileira. Certo é que os evangélicos que rodeiam Bolsonaro são da pior estirpe. Gente dada a ritos mágicos, com tiques de coronel. E tudo se agudizou nesta crise viral. Sobriedade, precisa-se.

 

Filipe Samuel Nunes, formado em Teologia pela European Missionary Fellowship, em Welwyn na Inglaterra, em regime de tutoria. Protestante praticante, vive no Brasil, onde ensina Inglês como segunda língua.

 

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