[Crónica da Europa]
Bom Ano Novo
No meio das inevitáveis arrumações de fim de ano, apareceu o meu caderno de “cópia a lápis” da primeira classe, n.°4, no Externato Marista de Lisboa.

Capa do Caderno. Foto © Mendo Castro Henriques
Logo na primeira página, em letra infantil e esforçada mas de boa qualidade, lê-se, num tom que a sociologia marxista designaria por “clerical-fascista”: “Respeitai as autoridades!” O texto vinha num tom solene e definitivo: o pai mandava em casa, o professor mandava na escola, e aos filhos e alunos competia amar, respeitar e obedecer. A partir da terceira cópia acrescentava-se: “É Deus quem nos manda respeitar os superiores.”
Os leitores mais gentis estranharão que os textos fossem apenas sobre a metade masculina da humanidade. Mas as coisas eram assim. Só à oitava tentativa, a professora a quem muito devo ( com a reserva que abaixo poderão ler) ficou satisfeita com a minha caligrafia.
Ganhei então o direito de passar ao texto seguinte, “O relógio quebrado”. O Joãozinho, curioso, pega no relógio de vidro azul do pai, para perceber como funciona o maquinismo. O relógio cai. Parte-se. Moral da história: há curiosidades que se pagam caro.
Vinham depois o “ceguinho” a ser ajudado a atravessar a rua (quatro cópias), a ” “joaninha” vermelhinha ameaçada pelo verdelhão que a queria papar (três cópias); a ” toutinegra descuidada” ( três cópias) , os ” pintainhos” , ” a chuva” e por aí afora.
E assim, de uma assentada, o autor anónimo dos tempos do salazarismo tinha-nos inculcado, através das dificuldades da caligrafia, a sua versão, através das dificuldades da caligrafia, inculcava a sua versão autoritária e assaz triste dos enigmas da autoridade, do trabalho, do conhecimento, da culpa, do lazer, do sexo e da natureza.
Não guardo qualquer rancor desta educação, embora tenha protagonizado, na quarta classe, uma pequena revolta de cidadãos cristãos contra a professora das cópias. Fui chamado, com a minha mãe, ao gabinete do diretor, o irmão Leão, homem severo. Eu tinha nove anos. Duvido que a minha rebelião fosse justa; talvez se devesse a só ter recebido medalhas de excelência a partir da 3a classe.
Mas a revolta era quase inevitável para quem aprendeu cedo que espreitar o maquinismo do mundo pode fazê-lo cair ao chão.

Página do Caderno. Foto © Mendo Castro Henriques
Há muitas décadas que não aceitamos autoridades, apenas porque sim. Queremos pais e mães que escutem, professores aprendentes, presidentes que representem, um papa sinodal. A autoridade só convence quando tem autenticidade.
Que isso torne melhor o Ano Novo. Coragem, amigos!
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.
O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoiar
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assinar
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com