[xv domingo do tempo comum ― a ― 2023]

Bombas de fragmentação & livros da consolação

| 16 Jul 2023

 

[teu gesto é semente / tua palavra chuva ― / falar em parábolas.haicai e fotografia © Joaquim Félix]

[teu gesto é semente / tua palavra chuva ― / falar em parábolas. haicai e fotografia © Joaquim Félix]

  1. «Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar» (Mateus 13,1).

Este dado da vida de Jesus é reconfortante, sossega, amacia;
só de o evocar, acodem ao ouvido as sonoridades marinhas,
o grasnar das gaivotas, o rebentamento das ondas,
a frescura da brisa no rosto… soltando os cabelos.

Até parece que Jesus estaria de férias,
como tantas pessoas que, neste tempo, se deslocam às praias.
Jesus sabia descansar, mesmo quando era pressionado.
Por vezes, solicitavam-no em demasia, mas ele sabia distanciar-se:
em desertos e montes, durante a noite, subindo para barcos.
Embora se possam reconhecer ‘contextos de construção’ nos evangelhos,
não nos estranhará que Ele se sentasse à beira-mar.
Aceitemos, sim, e com alegria, o seu tempo livre,
o seu humor, o seu gozo da vida, tudo o que para ele era fonte de prazer.

 

  1. Não seria pouco se nos demorássemos neste versículo.

Avancemos, porém, na areia das palavras, até ao coração da mensagem,
como quem o ouve desde a margem, sentados e atentos.
A partir deste capítulo do evangelho segundo s. Mateus
Jesus conta sete ‘parábolas do Reino’; hoje, ouvimos a primeira.
Como constatamos, ele enriquece-a com densos detalhes,
muitos deles correspondendo a técnicas diferentes das nossas,
no que concerne, por exemplo, às sementeiras:
naquela tradição agrária, a semente é primeiro lançada ao solo,
e só depois é que se escarifica e grada.
Entre nós, sucede o inverso: lavra-se ou fresa-se a terra;
de seguida, lançam-se as sementes e, eventualmente, cilindra-se.

 

 

  1. Eis porque é importante conhecer a cultura bíblica,

para compreender a palavra de Deus que a Sagrada Escritura ‘contém’.
Jesus, hoje, faz algo que, em parte, nos dispensa de comentar!
Porque, após narrar a parábola, explica-a até às ‘migalhas’ da significação.
Como está bem conseguida a ‘homilia’ de Jesus!
Embora… haja quem possa dizer: «Hum! ainda falta algo».
Ou, então, que fez uma ‘ruminação excessiva’ de palavras;
pelo que bastaria a «Forma breve» do evangelho deste domingo.
Ouvimos todos, não ouvimos, a parábola e a sua explicação?

Pergunto, porque é neste modo familiar, e privilegiadamente,
que nos «é dado a conhecer os mistérios do reino dos Céus» (Mt 13,11).
E isto para que, conforme a citação que Jesus faz de Isaías,
evitemos ouvir de nós: «ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis…» (Is 6,9…10).
«Saiu o semeador a semear» (Mt, 13,3).
A aliteração coloca-nos em ‘ritmo de saída’.
Ah, e faz-nos avançar por modulações outras, que,
como poucos, o Pe. António Vieira explorou no Sermão da Sexagésima,
pregado na Capela Real, em Lisboa, talvez no dia 31 de janeiro de 1655:
«Não diz Cristo: saiu a semear o semeador,
senão, saiu a semear o que semeia:
Ecce exiit, qui seminat, seminare.
Entre o semeador e o que semeia há muita diferença».
Como seria bom voltar a ouvi-lo, mais do que a lê-lo.
E já que, por António Vieira, não dá,
seria ótimo reouvi-lo da voz do ‘imenso ator’ António Fonseca,
como assim o fez, de cor, no Auditório Vita, entre outros lugares.
Ou, então, revisitar parte dele, no filme «Palavra e utopia»,
dirigido que foi pelo grande ‘cineasta da palavra’, Manoel de Oliveira.
Não para ver «um Vieira à Manoel de Oliveira»,
mas «ver um filme de Manoel de Oliveira» (M. de Oliveira, Ditos e escritos,120),
a quem o padre João Marques, da diocese de Braga, tanto assessorou:

 

A parábola de Jesus balança entre a realidade e a utopia.
Não se trata de profetizar um «quinto império»,
mas um Reino cuja Palavra ‘seminal’ frutifica em quem a acolhe.
Acolhimento este que Jesus sentiu ser muito residual,
tendo em conta a sua rejeição nas cidades ribeirinhas do lago (cf. Mt 11,20-24),
a ponto de lhe quererem dar a morte por não respeitar o sábado (cf. Mt 12,1-14).
Em síntese, não aceitavam a sua palavra nem os seus sinais (cf. Mt 12,38-45).
Eis que, para animar os seus discípulos, algo esmorecidos,
Jesus investe numa linguagem de fortíssimo poder evocativo,
isto é, nas parábolas, embora não isentas de controvérsia.
Esclarecida a parábola do ‘semeador que semeia’ e da semente,
seria bom narrar outra, passível de ser atualmente melhor entendida.
Tendo em consideração uma das notícias desta semana,
pensei numa parábola perigosa, explosiva mesmo.
Digo-a com cautela, tendo presente Milan Kundera, falecido esta semana,
que escrevera no seu livro A Insustentável Leveza do Ser:
«As metáforas são uma coisa perigosa.
Não se brinca com as metáforas.
O amor pode nascer de uma simples metáfora.»
Então, qual é essa metáfora perigosa, potenciadora do amor?
Pensei nas bombas de fragmentação,
sobre as quais tanto se falou, ao longo da semana,
por causa do seu contestado envio para a Ucrânia.
Passamos a saber como são feitas, o raio da sua ação e os perigos futuros.
Assemelham-se, na sua orgânica interna, a grandes romãs;
porém, em vez de grãos de mel, possuem bombas.
Agora que sabemos tanto acerca deste tipo de ‘bomba de bombas’,
pensemos de forma metafórica, sem brincar nem cair em cinismos:
o Reino de Deus é como uma bomba-de-fragmentação-do-bem.
Quando é lançada, a Palavra de Jesus espalha-se pela terra,
e desdobra-se em efeitos benéficos, que permanecem para o futuro.
Como lançá-la, a Palavra, até em favor dos inimigos?
Nos nossos gestos amáveis e através de palavras boas,
que possam somente edificar os outros (cf. Efésios 4,2-9).

A comparação é perigosa? É. E muito.
Igual risco se corre quando a Palavra é comparada a uma espada (cf. Hebreus 4,12).
Todavia, se vista no sentido do bem, a força da imagem é poderosa.
As parábolas de Jesus, tal como as palavras de Isaías (cf. Isaías 55,10-11),
com o seu poder de animar, são ditas em contextos de duras provações.
Adversidades que, também em nossos dias, continuam a persistir.
A situação que se vive na Ucrânia, agora na contraofensiva,
é deplorável, tantos são horrores que vamos conhecendo…
Temos de reforçar o cuidado com os agressores, sim,
pois ninguém estaria à espera que este tipo de dramas se repetisse.
Citámos já um livro de Kundera, talvez o mais lido pelos jovens,
mas recordemos o documentário «Da brincadeira à insignificância»,
sobre a sua vida e obra, no qual, a determinado momento, ouvimos:
«Aconteceu muito rapidamente.
Os tanques chegaram, Kundera foi expulso da escola.
Foi gradualmente banido de tudo o que se podia imaginar.
Os russos disseram: Já não és checo»

 

 

Verdade, não faltam sofrimentos ao tempo presente.
Daí a urgência em fomentar palavras de consolação,
à semelhança do que fizeram Isaías, Jesus e s. Paulo,
que escreveu aos romanos nestes termos:
«Eu penso que os sofrimentos do tempo presente
não têm comparação com a glória
que se há de manifestar em nós» (Rom 8,18).
Condoamo-nos com os sofrimentos alheios,
assumindo-nos uns aos outros no duro peso da compaixão.
Falecido há dias, José Mattoso advertiu-nos com tantas lições da história.
Ele que, na 7ª Jornada da Pastoral da Cultura, bem o recordaremos,
ao ler, já no final, uma passagem de Etty Hillesum, não conteve a comoção:

 

 

Etty Hillesum que, no seu Diário (p.323),
escreve palavras que nos ajudam, também, a levantar o ânimo:
«Claro, é o extermínio total, mas suportemo-lo sobretudo com graciosidade.
Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim
que poderia desenvolver-se até se tornar poeta.
Num campo assim (Westerbork) tem de haver contudo um poeta
que experiencie a vida lá, lá também,
e que como poeta a possa cantar».
Sabendo que o par de versículos da profecia de Isaías (Is 55,10-11)
faz parte do chamado Livro da Consolação,
termino com versos da «Prece de Etty Hillesum ao Deus do Silêncio»,
que o poeta Mário Rui de Oliveira dita, no seu Livro da Consolação,
a partir da expressão de Etty, em epígrafe: «Deixámos o campo cantando».
Sim, possa ser o refrão desta canção, como na referida prece:
«Abro a janela à tua luz / preciso de ti» (p. 20).
Podemos contemplar, em nossos dias, «a terra queimada»,
mas, até ao último verso, ao último instante, «repetidamente cantando».
Quem sabe, associando-nos a Jesus, a cantar o salmo 64,
ou, então, o antigo cântico de Moisés:
«Goteje a minha doutrina como a chuva,
destile a minha palavra como o orvalho,
como chuvisco sobre a relva e como gotas de água sobre a erva» (Deuteronómio 32,2).
Oxalá os quatro presbíteros da nossa diocese,
ordenados esta tarde no Santuário do Sameiro,
possam criar novas parábolas e entoar com voz fresca este canto ininterrupto.
Sim, como poetas de ‘livros de consolação’,
em cujos versos a vida dita e experimenta a compaixão,
no meio dos sofrimentos e das alegrias do tempo presente.

 

 

Joaquim Félix é padre católico

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

“Em cada oportunidade, estás tu”

Ajuda em Ação lança campanha para promover projetos de educação e emprego

“Em cada oportunidade, estás tu” é o mote da nova campanha de Natal da fundação Ajuda em Ação, que apela a que todos os portugueses ofereçam “de presente” uma oportunidade a quem, devido ao seu contexto de vulnerabilidade social, nunca a alcançou. Os donativos recebidos revertem para apoiar os programas de educação, empregabilidade jovem e empreendedorismo feminino da organização.

Secularismo e Direitos Humanos

Secularismo e Direitos Humanos novidade

O Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) decidiu, no passado dia 28 de novembro (ver 7MARGENS), que a administração pública de um país pode proibir os seus funcionários de usarem visivelmente qualquer sinal que revele crenças filosóficas ou religiosas, a fim de criar um “ambiente administrativo neutro”. Devo dizer que esta formulação me deixa perplexa e bastante preocupada. É óbvio que todos sabemos que a Europa se construiu sobre ruínas de guerras da religião. (Teresa Toldy)

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This