“No domingo, ao primeiro raio de luz, três jovens mulheres saíram do campo de refugiados onde se encontram em Darfur, para ir colher palha para os burros da família. Lembram-se de ter pensado que os homens das milícias árabes, que à noite atacam as tribos negras, ainda estariam a dormir. Mas seis homens agarraram-nas. Ao mesmo tempo gritavam insultos em árabe, como ‘zurga’ ou ‘abid’, que significa ‘preta’ ou ‘escrava’. Depois bateram-lhes, violaram-nas e deixaram-nas caídas no chão. ‘Eles pegaram no meu burro e na minha palha e disseram ‘Preta, és demasiado escura. És como um cão. Nós queremos fazer-te um bebé claro.’ (…) Depois disseram ‘Tu sais desta zona e deixas a criança quando nascer’.” (Público, 2 de julho de 2004)
Com base no registo que guardei, sei que naquele dia de 2004 li esta notícia enquanto tomava um café em Braga, com o jornal em papel em cima da mesa, em frente ao auditório do Teatro Universitário do Minho (TUM) e pela primeira vez ouvi falar no Darfur (Sudão).
Estávamos a preparar o exercício final do curso do TUM e Braga, uma cidade de muitos conservadorismos, era também um lugar com arrendamento a preços acessíveis e adequados aos pequenos orçamentos de estudantes e artistas. O TUM foi, por essa altura, um espaço de experimentação teatral e de colaboração entre profissionais e estudantes vindos de diversas áreas de formação da Universidade do Minho, um espaço de formação mais fértil do que as aulas na universidade – pelo menos, para mim.
Na universidade tinha encontrado a praxe e a defesa acérrima das hierarquias entre estudantes, feita de dinâmicas opressivas sob a forma de “brincadeiras”, muitas delas com conotação sexual. Frequentava um curso composto esmagadoramente por raparigas – Psicologia –, sendo que a praxe era liderada pelos pouquíssimos rapazes existentes. As raparigas reproduziam o sistema de poder, fidelíssimas. Ao terceiro dia de praxe, bati o pé e abandonei a encenação. Deixei de participar nos jantares de curso, não tinha “madrinha” de praxe, e abdiquei da panóplia de rituais que acompanham a praxe e facilitam que quem por lá ande a justifique, perpetuando práticas que claramente não deveriam existir. No restante, a experiência universitária parecia consistir numa infindável época de exames – pouco questionamento e muito marranço e disputa pelas notas.

“O Teatro Universitário do Minho foi um espaço de formação mais fértil do que as aulas na universidade, pelo menos para mim.” Foto © Universidade do Minho
No teatro fui encontrar aquilo que escasseava na experiência académica. Ali podia experimentar, revirar, questionar, improvisar. Andava à procura de “verdade” e o teatro agregava toda a verdade que eu conseguia reconhecer – a música, a poesia, a honestidade concreta de um gesto e de um corpo, a possibilidade da vulnerabilidade. O mundo profissional do teatro está cheio de quezílias e rivalidades, mas enquanto exploradores iniciantes tínhamos a possibilidade de descobrir outras dimensões do processo de criação conjunta – as cumplicidades construídas noite afora, o risco assumido em coletivo, o sentido de compromisso faça chuva ou faça sol.
A criação teatral implica presença e tem a força de mostrar que o tempo é agora, a vida está a acontecer agora mesmo, e isso tem repercussões sobre quem se envolve nela. Eu queria alguma coisa que me pusesse em causa, que me entrosasse no mundo, me enredasse em tudo o que estava a acontecer à minha volta, politicamente, artisticamente, acalmasse a sede.
Em 2004, criámos um espetáculo chamado “Bonecos de corda e outras manipulações”, e a mim calhou-me parte de um texto brilhante de David Harrower, Facas nas galinhas.
CENA UM
No campo.
Uma casa à saída de uma aldeia. Entardecer.
RAPARIGA Não sou um campo. Como sou um campo? O que é um campo? Plano. Molhado. Preto da chuva. Não sou campo nenhum.
GUILHERME Nunca disse isso.
RAPARIGA Dizes sou um campo, sentada aqui.
GUILHERME Disse és como um campo. Como um campo.
RAPARIGA É o mesmo.
GUILHERME Nada a ver, mulher.
RAPARIGA Se sou um campo, sou um campo.
GUILHERME (ri) Não precisas de ser uma coisa lá porque te pareces com ela.
RAPARIGA Como?
GUILHERME Não precisas.
RAPARIGA Sou outras coisas? Fogo?
GUILHERME Tenho lama, pés não. Não os sinto.
RAPARIGA … Sapato? Cama? Porta?
GUILHERME É para isso que serve… Como.
RAPARIGA Nunca tinha ouvido.
(Facas nas Galinhas, David Harrower)

“A criação teatral implica presença e tem a força de mostrar que o tempo é agora, a vida está a acontecer agora mesmo, e isso tem repercussões sobre quem se envolve nela.” Foto: Direitos reservados
Passaram vinte anos. Se lemos notícias fazemo-lo, muito provavelmente, pelo telemóvel. O corpo já tem dificuldade em se entender sem essa extensão de si. O mercado de trabalho exige-nos que nos mantenhamos comunicáveis, a vivência dos afetos não passa sem uma mensagenzinha de WhatsApp.
“Em abril, a Conselheira Especial das Nações Unidas para a Prevenção do Genocídio, Alice Wairimu Nderitu, alertou que ‘sinais predominantes de genocídio’ e ‘graves violações e abusos dos direitos humanos continuam a ser relatados contra populações civis inocentes’ no Sudão. ‘A maioria das atrocidades cometidas hoje são realizadas pelos mesmos atores do início dos anos 2000’.”
Mas é de notar que acrescenta: “Vemos que os perpetradores estão a documentar eles próprios os seus abusos. Antigamente, não existiam telemóveis e (os abusos) eram documentados principalmente pelas organizações de direitos humanos que estavam no Sudão. Mas desta vez, eles documentam os assassinatos de pessoas, os incêndios de aldeias e o seu incitamento.” (CNN, 14 de junho de 2024).
A história faz eco de si própria, com novos ornamentos.
As mulheres continuam a ser tratadas como um campo minado, terreno fértil para os cenários de guerra.
É um fenómeno a que nos habituámos, a guerra em lives de Instagram e o crescente desinteresse dos utilizadores do mesmo. Os telemóveis acompanham-nos do acordar ao deitar e as redes sociais servem o nosso nicho de interesses e preocupações, que vão afunilando, afunilando… A guerra, nos seus diferentes cenários, mantém apenas um efeito de choque limitado e a durabilidade do efeito é definida segundo os requisitos de cada meio de comunicação e do local de proveniência dos conteúdos de guerra.
É de exaustão que se trata, de exaustão emocional e intelectual. Estamos perpetuamente comunicáveis, mas o outro não chega até nós – a realidade é filtrada pelos títulos clickbait e pelos corredores algorítmicos das escolhas que as redes sociais e motores de busca fazem por nós; a exposição constante à tragédia e a manipulação de emoções que nos é feita pelas notícias, pelos filmes, pelas séries, pela publicidade, vão aplanando a capacidade de percebermos o que é realmente importante e como podemos ser humanos decentes.

“Os telemóveis acompanham-nos do acordar ao deitar e as redes sociais servem o nosso nicho de interesses e preocupações, que vão afunilando, afunilando…” Foto © Maxim Ilyahov/Unsplash
Não conseguimos chegar ao outro – as instituições e empresas prontificam-se em condenar-nos a um apoio de vozes computorizadas, “prima 1”, “prima 2”, as relações vão-se alicerçando na comunicação distante e digital, vividas com a mediação dos perfis e ao ritmo do descartável.
As sempre novas necessidades digitais e os novos monopólios do consumo consomem o tempo, a paciência, e o frágil sentido de solidariedade que nos quer habitar. “Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”, em versões bem modernas.
Antídotos conheço poucos e de espectro limitado, como pode ser um bom livro, capaz de enfrentar grandes males. Mas em papel, a versão digital só surte efeito moderado, o efeito abstrato das palavras funciona como meio comprimido. Serve-nos um livro afiado e perigoso, cujas páginas podem cortar a ponta dos dedos.
E mais teatro, se vivo e inesperado, que conceda às palavras novos espaços de existência, capazes de expandir os seres compactados em que nos vamos tornando, tal qual os velhinhos disquete e cd-rom.
E ainda me consigo lembrar de mais um ou outro.
Se vivermos em função do loop que as redes sociais e outros devoradores de dados nos apresentam, do tipo de necessidades que vão alimentando e das opiniões e preconceitos que vão fabricando, vivemos uma fraca vida. Essa será, sem dúvida, uma vida de prazo expirado, por mais que o dispositivo seja de última geração e as atualizações estejam em dia.
“Não precisas de ser uma coisa lá porque te pareces com ela.” Como? “Não precisas.”
Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.










