Bonhoeffer, teólogo e resistente ao nazismo

| 17 Nov 20

“A Igreja só é Igreja se existe para os outros… só quem levanta a voz em defesa dos judeus se pode permitir cantar em gregoriano.” (Dietrich Bonhoeffer)

 

O autor desta obra, escritor e historiador italiano, descreve pormenorizadamente o processo espiritual de um homem religioso do luteranismo alemão, Dietrich Bonhoeffer (1906-1945). Viveu na trágica situação da Europa antes da II Guerra Mundial, a ascensão do nazismo e do racismo anti-semita que colocou como objectivo final o extermínio total dos judeus: cerca de seis milhões de judeus foram massacrados; ciganos sinti e rom – entre 250 a 500 mil, além de muitos milhares de outros homens e mulheres.

Pertencente a uma família da velha aristocracia alemã, Dietrich Bonhoeffer tinha 12 anos, quando Walter, o irmão mais velho, foi morto na frente da I Guerra Mundial; os pais vestem-se de luto durante muito tempo. Aos 14 anos, decide tornar-se teólogo. Faz a licenciatura em Tubinga, defende a tese de doutoramento em Berlim e torna-se aí docente, na faculdade de Teologia.

Toma parte da reflexão num período importante do luteranismo alemão. Apresenta uma postura crítica, frente à prática religiosa e aprofunda o ecumenismo: “Deus só pode ser entendido à luz da Igreja em Jesus Cristo; esta é a presença corpórea de Jesus, morto, ressuscitado e glorificado. Com ele, restabelece-se a comunhão com Deus e é restaurada a comunhão entre os homens.”

“A mística cristã não pode ser uma mística de olhos fechados. É uma mística de olhos bem abertos… uma mística militante.”

Bonhoeffer continua os estudos em Nova Iorque, no Union Theological Seminary, em 1931: escuta com emoção os cânticos gospel negros e admira a participação das pessoas nas celebrações. Torna-se amigo do pastor luterano Jean Lasserre que o converte ao pacifismo que será a sua bandeira no ensino, assim como o ecumenismo. Torna-se conferencista, pela Europa, unindo os jovens pela paz mundial.

 

“Aqueles que se divinizam a si mesmos, escarnecem de Deus.”

Em 1933, Hitler ascende ao poder. A maioria do protestantismo alemão adere aos seus discursos, pois ele promete mudar rapidamente a situação económica do país, derrotado na I Guerra; instiga o medo do comunismo, associando-o aos judeus: “Um só Reich! Um só Deus! Um só Povo! Uma só Igreja!” Depois, é organizado um avassalador pogrom em Berlim, na chamada Noite de Cristal, no meio da apatia e indiferença geral.

São excluídos do corpo pastoral e da função pública as pessoas com descendência judia e pretende-se excluir o Antigo Testamento.

“Carregai as cargas uns dos outros e assim cumprireis plenamente a Lei de Cristo” (Gl 6, 2).

Uma minoria do luteranismo alemão organiza-se em volta da Igreja Confessante. Aqui, Bonhoeffer, em 1935, organiza seminários em lugares remotos, junto à natureza, para a formação de jovens pastores. Mas a Gestapo encerra, destrói os espaços e considera ilegais as ordenações. Os jovens serão levados para a frente de guerra; a maioria deles é morta em combate. Em 1936, Bonhoeffer é expulso do ensino de Teologia.

Dietrich segue para os Estados Unidos. Terá lá lugar como professor, mas três semanas depois, regressa à Alemanha. Conclui que abandonou o povo alemão, fascinado “pela demoníaca capacidade sedutora de Hitler que usa Deus para os seus fins… parece-lhe necessário intervir inclusive em termos drásticos e dramáticos – superando o pacifismo – mesmo que isso lhe dilacere a consciência”. Interroga-se, hesita, mas conclui que deve agir.

“Quando um louco lança o seu automóvel sobre o passeio, eu, como pastor, não me posso contentar em apenas enterrar os mortos e consolar as famílias. Se me encontro nesse lugar, devo saltar e agarrar o condutor, sentado ao volante.”

Em 1934, é colocado à frente do Abwher – os serviços secretos militares alemães – o almirante W. Canaris que “detesta particularmente o nazismo… e o totalitarismo”. Como foi possível este homem ter estado neste posto crucial? Por vezes, geram-se nos sistemas políticos “contradições internas e fissuras imprevistas”. Assim, dentro do próprio Abwer, há um grupo importante de conjurados que planearão um atentado contra Hitler. Bonhoeffer entra para estes Serviços secretos e junta-se a outros famosos agentes, “organizando um círculo de resistência militar activa na Europa”.

 

“Deus revelou-se plenamente na cruz…assim deve também fazer o cristão.”

A mãe de Dietrich Bonhoeffer com os seus filhos. Foto: Direitos reservados.

 

A 10 de janeiro de 1942, chefes nazis de topo decidem a Solução Final: extermínio total dos judeus europeus. Em 1943, Bonhoeffer e outro agente secreto pretendem ir ao Vaticano, a fim de conduzir negociações secretas com Pio XII. Mas é preso pela Gestapo. Na prisão dedica-se à escrita; recebe visitas da noiva, Maria von Wedmeyer, preocupa-se com os outros prisioneiros. É aqui que Bonhoeffer se convence “que o cristão deve estar no mundo, mas não ser do mundo… deve ser para os outros…”

Em Julho de 1944, a conspiração de militares organizada no Abwher, executa o atentado contra o Führer, numa reunião. A bomba mata quatro homens, fere outros, mas Hitler escapa. Goebbels fica com plenos poderes para “restabelecer a ordem”. Segue-se a matança num processo refinado de crueldade.

Depois do golpe falhado, Bonhoeffer é transferido para várias prisões, até ser sentenciado à morte, com o corpo nu, por enforcamento, por ser considerado um réu de altatraição, juntamente com outros dignitários do Abwehr. “Depois o corpo é suspenso de um gancho de ferro fixo na parede; mais tarde, os corpos dos enforcados são queimados, misturando-se com as cinzas de milhares de outras vítimas.”

«A Igreja ficou muda quando deveria gritar, porque o sangue dos inocentes clamava ao céu» (Bonhoeffer, Ética, ed. port. Assírio & Alvim).

Segue-se uma cortina de esquecimento destes factos. Nos anos 50, o oficial responsável pelo enforcamento foi absolvido por um tribunal. Só em 1996 um tribunal de Berlim, por requerimento de um grupo de estudantes, anulou esse julgamento. Só em 1999, após a reunificação alemã, centenas de ruas e praças recordam os conjurados anti-hitlerianos. A partir de 1970, verificou-se o interesse por este pastor luterano, no mundo e na Alemanha. Na verdade, “o seu itinerário espiritual atesta cada vez mais a actualidade do seu pensamento enquanto cristão e cidadão”.

 

Dietrich Bonhoeffer Teólogo e Mártir do Nazismo, de Giorgio Cavalleri.
Paulinas Editora, 2019; 160 páginas; 13,50 euros

 

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