Brasil: setores conservadores atacam “Campanha da fraternidade” das Igrejas

| 1 Mar 21

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Padre Júlio Lanzarote, que trabalha com moradores de rua em São Paulo (Brasil): as formas de intervenção social e política dos cristãos é um dos temas de divisão. Foto © Tony Neves

 

Ainda a Campanha da Fraternidade não tinha arrancado, no primeiro dia da Quaresma (17 de fevereiro), e já as redes sociais e diversas iniciativas oriundas de setores conservadores e “bolsonaristas” tinham procurado demolir esta importante iniciativa anual da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A Campanha mobiliza esforços de diversos setores da Igreja Católica e, este ano, como acontece de cinco em cinco anos desde 2000, assume um caráter ecuménico, contando com a coorganização do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), do Brasil. Assenta num conjunto de materiais de apoio, de que se destaca um cartaz, uma canção e um texto-base, elaborado com bastante antecedência, que explica o tema específico, faz uma análise da situação socioeconómica e define grandes objetivos. Para 2021, foi escolhido o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema, inspirado na Carta aos Efésios (2, 14), “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”.

O texto-base é concreto e contundente, na abordagem de alguns problemas da atualidade da sociedade brasileira, nomeadamente a denúncia de “teorias conspiracionistas” e a recorrência de “discursos negacionistas sobre a covid-19; “a negação da ciência e do papel de organismos multilaterais”, como a ONU e a Organização Mundial da Saúde; o acentuar das “desigualdades e a estratificação racial, económica e social”, evidenciadas pela pandemia; “a cultura da indiferença e da falta de empatia”, manifestas no lidar com a questão das trabalhadoras domésticas (isolamento social, com renda garantida); aumento da violência em casa nos dois meses de mais forte isolamento social (195 mulheres assassinadas); segundo o Atlas da Violência 2020, crescimento da violência sobre negros, mulheres, jovens, indígenas e sobre a população LGBTQI+; aumento do desemprego e da pobreza, aprofundando as desigualdades, a fragilização das relações e das condições de trabalho; aumento (29,5%) do desmatamento na Amazónia em apenas um ano, entre outros problemas.

“Uma das falsas notícias que fortalece a violência é a retórica de que direitos humanos servem apenas para defender ‘bandidos’. Esse discurso fragiliza cada vez mais os instrumentos institucionais que contribuem para a justiça” – refere o texto.

A denúncia do racismo, do fundamentalismo religioso, do discurso do ódio e, em especial, da violência contra as pessoas dos coletivos LGBTQI, apoiadas em dados oficiais, terão levado ao forte ataque à própria campanha, por parte de setores religiosos e políticos.

Através de intervenções nas redes sociais, de abaixo-assinados, de vídeos com apelos ao boicote da coleta solidária que é habitual realizar-se no Domingo de Ramos, de pressões internas às próprias confissões religiosas envolvidas na Campanha, procurou-se fazer valer a ideia de que se tratava de promover “deturpações da moral católica” e ideologias contrárias à doutrina da Igreja.

O bispo das Forças Armadas do Brasil, D. Fernando Guimarães, enviou um ofício à cúpula da CNBB dizendo que o Ordinariato Militar do Brasil, durante a Quaresma deste ano, não utilizará “quaisquer dos materiais produzidos oficialmente para a Campanha da Fraternidade”. “Nossos capelães militares – acrescenta o prelado – estão sendo orientados, caso desejem abordar o tema, a utilizar unicamente a [carta encíclica] Fratelli Tutti, do Papa Francisco”.

A denúncia feita acerca da violência de género, que é considerada inédita e suscitou a ira de setores mais conservadores começa por uma afirmação de princípio: “Não é possível estar com Deus e, ao mesmo tempo, discriminar e desrespeitar as outras pessoas por causa das suas diferenças étnicas, religiosas ou de género.”

Mais adiante (no nº 67), defende: “Os dados nos mostram quem são as pessoas atingidas pelo sistema de violência. As mulheres, em especial as negras e indígenas, são impactadas em todas as dimensões da sua existência. Observar esta realidade evidencia a necessidade de se discutir as questões de género, não se limitando à igualdade entre os sexos, mas compreendendo que a libertação das mulheres da situação histórica de opressão passa pela discussão da propriedade privada, da divisão sexual do trabalho, da laicidade do Estado e da Teologia quando impõe um patriarcado como modelo divino de hierarquia social. Além disso, é importante salientar que as relações sociais de classe, de género, de raça, de etnia estão historicamente interligadas”.

Campanha da Fraternidade, Brasil, Ecumenismo

Cartaz da Campanha da Fraternidade 2020, da Igreja Católica e do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, do Brasil

 

A presidência da CNBB sentiu-se na necessidade de vir a público, no início de fevereiro, esclarecer que o teor do documento de base, por ter sido elaborado no quadro de uma iniciativa ecuménica e assim ter sido em devido tempo combinado, tinha a marca do CONIC. E quis tranquilizar alguns setores católicos de que a Igreja [brasileira] “tem sua doutrina estabelecida a respeito das questões de género e se mantém fiel a ela” e, também, que os fundos que vierem a ser reunidos, reverterão para o Fundo Nacional de Solidariedade, sendo aplicados “em situações que não agridam os princípios defendidos pela Igreja Católica”. Sugeriu igualmente que a encíclica Fratelli Tutti, que surgiu depois de estabelecido o documento-base, possa ser tomado também como referência.

Entretanto, quer o CONIC quer algumas das confissões que o integram vieram defender o documento. Em comunicado, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil contestou que o texto-base teria sido escrito por uma só pessoa salientando que foi resultado de um processo coletivo de construção. Contou com a “participação direta de pessoas de diferentes áreas do conhecimento, em especial, sociologia, ciência política e teologia”, e, na parte bíblica do texto “com a colaboração de biblistas de diferentes igrejas cristãs”. Foi ainda “amplamente discutido por uma Comissão Ecuménica formada por oito pessoas e, finalmente, validado por uma Comissão Teológica do CONIC, “integrada por teólogos e teólogas indicadas pelas igrejas-membro do CONIC”. E conclui: “Todas com conhecimento das bases confessionais de suas igrejas e dos documentos doutrinários.”

 

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