
Frei Bernardo “Venerável monge e poeta que é patrono da Arquidiocese de Braga para a Jornada Mundial da Juventude é um verdadeiro modelo cristão para a cultura de hoje! “
Pão e Rosas é o título de um filme de Ken Loach que, aproveitando-se da poesia de James Oppeinhem de 1911, quis repetir o gesto daquelas mulheres do poema fazendo com que os emigrantes mexicanos nos Estados Unidos empunhassem um cartaz durante a marcha de greve por melhores condições de vida onde se podia ler: We need bread but roses too! (“Queremos pão, mas também rosas”).
E era isso que o poema repetia e que mais tarde, nos anos 70, Judy Collins cantaria, num álbum com o mesmo nome.
Não creio que alguma vez Frei Bernardo tenha ouvido falar deste poema, de um seu longínquo contemporâneo. Mas foi nele que pensei, ao lembrar a coincidência dos 91 anos da morte do Frei Bernardo de Vasconcelos, monge beneditino e poeta, e dos muitos mais da de Santa Isabel, mulher de dom Dinis, e que todos conhecemos pelo milagre das rosas.
Duas vidas separadas pelos séculos, mas unidas pela santidade e pela poesia. Frei Bernardo viveu poucos anos, ferido pela dor e pela doença, fazendo da sua vida um pão amassado, uma hóstia viva para o Senhor. Cantou a sua dor e dela fez poesia. A morte foi para ele uma flor, um canto espiritual, um último verso de um poema infinito.
Venerável monge e poeta que é patrono da Arquidiocese de Braga para a Jornada Mundial da Juventude é um verdadeiro modelo cristão para a cultura de hoje! Foi vice-presidente do Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra, namorou, teve crise de fé, trabalhou num banco, estudou artes e literatura, era muito amado pelos colegas em Coimbra, pensou casar, ficou seduzido pelo sindicato nos anos 1920, fez um retiro com os jesuítas e descobriu a vocação ajudado pelo professor padre Cerejeira (sim esse !!, futuro patriarca) e com a ajuda do padre António Coelho decidiu entrar no mosteiro beneditino.
Nasceu em 7 de julho de 1902 e morreu a 4 de julho de 1932, prestes a cumprir 30 anos. No dia em que morreu, domingo, estava prestes a chegar o seu livro de poemas místicos Cântico de Amor. Toda a sua vida foi marcada pela dor e doença. Em Lovaina, Bélgica, já monge beneditino, foi-lhe diagnosticado o Mal de Pott, uma espécie de tuberculose óssea, que o massacrou e moeu como trigo para pão. O seu corpo era uma hóstia em sangue, como escreveu, mas igualmente um par de asas para voar. Com 22 anos, em 1923, no CADC em Coimbra pronunciou uma conferência intitulada O Ideal Cristão que deixou toda a gente de boca aberta ao ver um jovem falar assim. Repetiu a conferência no I Congresso Eucarístico Nacional em Braga em 1924. Passaram 100 anos, mas naqueles dias de chumbo, numa Igreja humilhada e perseguida pela República, refém do seu poder e sob o perigo da fossilização histórica e cultural, o poeta foi a Braga citar os Poetas Malditos franceses (Paul Verlaine entre outros), os nossos portugueses (Guerra Junqueiro, António Nobre, Leonardo de Coimbra, Manuel Ribeiro, etc…). Foi amigo e primo de Teixeira de Pascoaes que o considera uma alma santa e grande poeta …
O processo de beatificação e canonização foi introduzido em Roma e, no dia 8 de Junho de 2016, o Papa Francisco declarou-o venerável, reconhecendo as suas virtudes cristãs em grau heroico, faltando agora um milagre para ser beatificado.
Facilmente esquecemos o quão importantes são para a fé e para a santidade, as flores e a poesia. A rainha santa sabia que nem só de pão vive o homem e todo o pão que se dá aos pobres se transforma em rosas, em poesia. A vida não necessita apenas do que é essencial para o corpo e para a sobrevivência, mas do que é supérfluo, ou melhor, sobressencial, para a alma. Os corações podem morrer de fome como os corpos.
Pão e rosas. Não nos podemos contentar apenas com os frutos, temos direito igualmente ao perfume das árvores e dos prados. Não podemos contentar-nos com o mínimo da vida cristã e espiritual, temos direito (não apenas o dever) à santidade e ao espírito.
Os santos recordam-nos que precisamos de pão, mas de rosas também. Que somos gravidade, mas graça também. Que somos pó, mas pó encantado. Que somos pecadores, mas com a santidade a correr-nos no sangue, desde o batismo.
Mário Rui de Oliveira é padre, autor de O Livro da Consolação, e trabalha em Roma; é postulador da causa de beatificação de frei Bernardo de Vasconcelos










