Breves provocações para o recomeço das aulas

| 1 Set 20

Nas margens da filosofia (XXIV)

 

A pandemia que temos vivido obriga-nos a um novo olhar sobre muitos hábitos que tínhamos como adquiridos. Um deles é o conjunto de actividades que acompanham o recomeço das aulas, envolvendo professores, alunos e pais na azáfama comum de planificar um novo ano lectivo. O que nos leva a revisitar a temática do que é (ou deveria ser) aprender e ensinar.

A presente reflexão tem como público-alvo os alunos mais novos, os seus professores e os encarregados de educação. Tanto uns como outros sofreram na pele as consequências de um ensino à distância, uma novidade para a qual não estavam devidamente preparados.

Na sua obra Understanding Media: The Extensions of Man, Marshall Mc Luhan condensou numa fórmula incisiva o modo como os meios de comunicação determinam quer o conteúdo das mensagens quer a recepção das mesmas. “O meio é a mensagem”, escreveu ele nesta obra que, embora publicada no século passado, se mantém plenamente actual.[1] Ora, grande parte dos nossos alunos do ensino primário e secundário viveram nestes últimos meses ao sabor das imagens,  numa realidade virtual onde a convivência de professores, alunos e encarregados de educação  nem sempre foi conseguida. Há que apreciar criticamente esta experiência. E, a partir desta reflexão, urge repensar o conceito de escola, ou seja, o espaço onde se transmite e se recebe a herança dos conhecimentos, dos métodos e dos modos de viver que constituem uma cultura. Para o fazer, socorremo-nos de Hannah Arendt e do seu ensaio “A crise na Educação”.[2]

O texto em causa é inegavelmente polémico e há mesmo quem o considere reaccionário. Nele, a filósofa expõe as suas teses sobre o que deve ser o ensino, denunciando as consequências perversas da (então) moderna pedagogia americana, cujo “sucesso” se alastrou rapidamente a outros países, entre os quais o nosso. Todo ele gira à roda da questão “por que é que o Joãozinho não sabe ler?”[3] E para explicar esta ocorrência, a filósofa denuncia a valorização quase exclusiva da aprendizagem e a progressiva infantilização do ensino. Preocupados com a motivação dos alunos, os professores temem maçá-los e tudo fazem para dar um toque lúdico às suas aulas. A noção de esforço é afastada e a profissão de ensinante é substituída pela de animador de grupo, de conselheiro e de camarada.

Arendt contesta que as escolas se apresentem como lugares de recreio nos quais domina a perspectiva lúdica. A ideia de um mundo infantil que os adultos devem respeitar, tentando aproximar-se dele e não contrariá-lo, é prejudicial para a criança, colocando-se como obstáculo impeditivo do seu normal crescimento. Segundo a filósofa, a criança é um ser em constante mutação, é alguém que pretendemos educar para que se transforme num indivíduo autónomo, ou seja, num habitante livre do mundo, capaz de nele agir e de eventualmente o modificar. Ora, o mundo em que a criança cresce não é o seu mundo pois nada existe que se assemelhe a um mundo infantil.

Na perspectiva arendtiana, o objectivo da escola é permitir que os alunos partilhem a experiência alcançada pelo mundo “civilizado”. A rejeição da autoridade leva à rejeição da responsabilidade do mundo. Os professores e os pais que dispensam a autoridade tornam-se cúmplices da instabilidade. Pretender que uma criança se torne auto-responsável conduz geralmente a uma situação de risco: entregue a si mesmo, o jovem cai nas mãos de outros jovens e são os mais fortes a ditar as regras. Aprender exige sempre algum esforço e os papéis de professor e de aluno não são permutáveis. A habilidade do professor deverá consistir em encontrar pontes que lhe permitam comunicar com os seus alunos sem que precise de fingir ser um deles.

Outra fonte de preocupações para a filósofa é o excessivo relevo atribuído à pedagogia, em detrimento das matérias leccionadas. A importância de como ensinar tornou-se prioritária, esquecendo-se o papel essencial desempenhado pelos conteúdos. Ora, estes são determinantes para introduzir os alunos no mundo da ciência, da arte e da cultura. A real dificuldade do trabalho escolar tem sido esquecida, pois a motivação dos alunos é a preocupação determinante dos docentes.[4]

Na sua crítica à pedagogia americana com a qual manteve contactos estreitos, a filósofa censura a pouca importância atribuída à meritocracia, entendendo-a como ameaça possível aos ideais igualitários. Para evitar a individualização, os alunos são considerados em bloco, como se constituíssem um grupo, para o qual se propôs a aquisição de determinadas competências. Mais do que o saber, o sistema escolar americano valoriza o saber viver, acarinhando tudo o que permite uma boa socialização. Mas para a filósofa o objectivo da escola não deve ser ensinar como viver, mas sim ensinar como é o mundo. No seu entender, não podemos educar sem ensinar, mas é possível ensinar sem educar.

Embora visando o contexto americano de meados do século passado, este texto de Arendt continua a interpelar-nos. Como todo o bom texto filosófico ele motiva-nos, provoca-nos e leva-nos a tomar posições fundamentadas. E essa atmosfera dialogante e crítica, resultado de partilhas e confrontos, é o clima que mais poderá favorecer o recomeço de aulas que se anuncia.

 

[1] The media is the message, Marshal Mc Luhan, Understanding Media. The Extensions of Man, New York, Mentor, 1964, p. 9.
[2] Hannah Arendt, “The crisis in education”, in Between Past and Future, New York, Viking, 1961 (Citaremos a partir da edição da Penguin, London, 2006 que designaremos por CE).
[3] Cfr.  p. 171.
[4] Cfr, p. 180.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

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