Brincar com a claridade e a escuridão

| 18 Ago 2020

 

“Creio que o filme evoca, subtilmente, que há algo que nos transcende enquanto seres humanos. Talvez seja o hálito divino. Na Galiza, a natureza é forte, está todos os dias a dizer-nos que somos pequenos.”

Estas são palavras de Olivier Laxe, o realizador galego – ainda que radicado em França – acerca do seu filme O Que Arde, publicadas no suplemento ípsilon, do jornal Público, de 17 de Julho último.

Estamos em Agosto, como quase sempre – e às vezes de maneira muito dramática – já com imagens de incêndios que matam pessoas, destroem casas e floresta, deixando nas vidas e na terra cicatrizes bem fundas e difíceis de apagar.

É acerca disso que o filme se debruça, quase como se não fosse mais do que um documentário sobre esse grito dos homens e da terra impotentes para parar essa força destruidora. O próprio realizador diz também: “Sim, é um filme sobre o campo – um gemido de orfandade, um grito do campo.”

O Que arde, depois de uma espécie de introito em que um buldózer vai derrubando eucaliptos (é importante referir que é noite cerrada, porque o efeito luminoso é grande), começa a sua história com a libertação de um homem – Amador – após cumprir a sua pena na prisão, por ser um pirómano. É um homem de rosto duro e triste, muito pouco falador, que regressa à sua aldeia, à sua casa, onde vive a mãe já vergada pelo peso da idade, mas ainda muito activa e forte a cuidar do gado e dos campos. É um dia também triste. Chove e está um céu fechado. Depois de sair da camioneta, um vizinho ainda lhe oferece boleia, mas ele prefere ir a pé. Assim não é obrigado a falar e sempre pode ir ruminando os seus pensamentos.

Chegado a casa, com frio e chuva, Amador vai começar a fazer os trabalhos necessários, sempre muito sozinho (às vezes com a mãe a quem ama filialmente e com uma grande dedicação e ternura), sem nunca dar sinais de que quer restabelecer as ligações com os vizinhos que andam ocupados em recuperar algumas casas velhas para serem turismo de habitação. Chegam mesmo a convidá-lo para trabalhar com eles, mas ele recusa manifestando o seu desagrado com a possível vinda de pessoas estranhas para aquelas paragens.

Para quem conhece o campo e gosta da vida rural ou com ela tem algumas afinidades, este tempo do filme é magnífico pela sua verdade, autenticidade, e até mesmo alguma brutalidade: aquelas árvores rugosas e molhadas, a água que corre, a lama, o gado que sai para pastar, a vaca que cai numa poça e a dificuldade de a retirar… Tudo isso entra pelos olhos dentro de maneira muito intensa.

No entretanto, ainda há uma veterinária que vem tratar de uma vaca, que parece não ficar indiferente diante daquele homem, mas Amador não é homem de muitas palavras, muito menos de abrir o coração. Aquele regresso depois da prisão pesa muito e nós ficamos sem saber o que pensa e que quer da vida aquele homem ensimesmado.

E volta a acontecer o pior. É Verão, e um dia, quando ele regressa de uma cidade próxima onde foi buscar medicamentos para a vaca e até reencontra a veterinária no bar, cruza-se com o carro dos bombeiros. Tinha começado um fogo. Agora, o filme incendeia-se e mostra toda aquela luta desigual e perigosa com o lume que faz arder tudo. Diz o realizador (natural daquela aldeia onde filmou um incêndio real – não há fabricação de efeitos especiais) que o incêndio é uma metáfora: “O lume é mais um espelho. Algo que faz com que as emoções expludam, no final do filme.”

Não parece que tenha sido Amador a incendiar de novo. A verdade é que, dominado o incêndio, ao encontrá-lo, aquele vizinho que lhe tinha oferecido boleia no início, que o tinha convidado para ajudar na recuperação das casas, juntamente com outros, se atiram logo a ele para lhe bater. Para eles, era o culpado de toda aquela desgraça.

Não saberemos. Sabemos apenas que “não é um filme que dê respostas: a natureza humana é complexa, contraditória, paradoxal. Estamos habituados a que, pelo final do filme, haja os bons e os maus. Mas aqui, não, é como na vida: há complexidade, porque somos complexos”.

Falta só dizer, como facilmente percebe quem for ver o filme, que os actores – nomeadamente Amador e Benedicta – não são profissionais. O que torna o filme ainda mais autêntico.

 

O Que Arde, de Olivier Laxe
Com Amador Arias, Benedicta Sánchez e Inazio Abrao
Drama, M/11; Esp/Fra., 2019; Cores, 90 min.

 

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