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Bruno Ganz – um sopro de eternidade e um dia

| 21/02/2019

Bruno Ganz – um sopro de eternidade e um dia

by | 21 Fev 19 | Cinema, televisão e média, Sete Partidas, Últimas

Caso alguém precise de uma prova de que Deus existe e me tem muito amor, aqui está ela: uma vez convidaram-me para contracenar com Bruno Ganz numa encenação relativamente privada da peça “Coração a Gás”, do dadaísta Tristan Tzara. Como Deus existe, e gosta muito de mim, arranjou de eu nesse dia ter um compromisso noutra cidade. Assim se pouparam dois recordes Guinness: o meu embaraço e a vergonha alheia do Bruno Ganz.

Foi em Weimar, terra muito dada a milagres e à presença daquele actor. Milagres como a pré-estreia alemã de Vitus – um filme sobre uma criança prodígio, a ambição da mãe e a cumplicidade amorosa do avô – ter tido lugar no pequeno cinema comunal da cidade. Nós chegámos pouco antes do início do filme, e sentámo-nos na primeira fila, que era a única disponível. De modo que no fim, quando o Bruno Ganz veio conversar com o público, ficou em pé ali mesmo à nossa frente, com o seu sorriso caloroso e tranquilo a explicar com toda a simplicidade que tentou fazer um avô como todos gostaríamos de ter tido. Tão perto de nós que lhe víamos bem o brilho gaiato nos olhos quando contava sobre as surpresas de filmar com miúdos prodígio: o modo como o pequeno pianista o observava e começou a imitar (“querem que repita este take, ou já estão satisfeitos?”, perguntava o rapazinho de palmo e meio), as dificuldades de certos dias (“hoje não posso tocar piano, sinto-me como um polvo, vejam como os meus braços estão moles”, dizia, e mandava toda a equipa de filmagem para casa).

O nosso Bruno Ganz. O Bruno Ganz de cada um de nós. Cada qual terá o seu, composto pelas entrevistas que lhe leu e pelos filmes que lhe viu: Cidade Branca, Der Himmel über Berlin/As Asas do Desejo, Eternidade e Um Dia, A Queda, Pão e Tulipas, Heidi (que ele justificou com a sua simplicidade tão característica: “sou suíço, tinha a idade certa para esse papel, ia passar o resto da vida arrependido por não o ter feito”) – entre dezenas de outros.

Sabendo embora que não posso confundir o actor e as suas personagens, teimo em recordar Bruno Ganz como o vi em alguns dos seus filmes mais recentes:

– O frade bondoso e sábio do filme Fortuna, que acolhe um grupo de refugiados, aceitando que o silêncio do mosteiro perdido na imensidão alpina seja abalado pelas convulsões das histórias de fuga e miséria humana. 

– O life coach em The Party: um personagem esotérico meio desligado e bem intencionado, encarnado com muita graça por um Bruno Ganz que – imagino – terá rido imenso ao preparar esse papel.

– Um Tiziano Terzani ferido de morte em O Fim é o Meu Princípio, conversando com o filho sobre os mistérios da vida. Mais uma prova do génio de Bruno Ganz, que conseguiu transformar um monólogo numa conversa entre um ser humano e o seu infinito.

Caso alguém ande à procura de sinais de Deus no nosso mundo, encontra o seu doce respirar no Bruno Ganz destes filmes.  

(Bruno Ganz, nascido em 22 de Março de 1941, morreu no passado dia 16 de Fevereiro, em Zurique, a sua cidade natal; no Porto, decorrerá um ciclo de cinema de homenagem entre 21 e 27 de Fevereiro; em Lisboa realiza-se um programa especial no dia 25)

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