Todos nos lembramos com um sorriso das rábulas humorísticas portuguesas sobre a cultura dos papéis. O riso perante o ridículo dos carimbos e documentos que se exigem nos altares do funcionalismo público, sem sentido nem outro destino que não seja um qualquer dossier perdido no pó, evoca uma das características mais simpáticas do povo português: olhar para tudo com um misto de distância, sarcasmo e nostalgia. Valha-nos esse humor, que tão fielmente nos acompanha.
Chegar ao centro da Europa mostra-nos, porém, que as sagas portuguesas dos papéis são uma espécie de entrada de repasto ou de aprendizes de feiticeiro perante o verdadeiro mago. O mundo institucional de Bruxelas é, indubitavelmente, esse mago.
Tudo o que se possa dizer do processo de “entrar no sistema” é pouco. Para almas avessas a camisas de sete varas, como a minha, esse processo configura um verdadeiro calvário e um teste real a várias virtudes – ou, mais exatamente, à dolorosa consciência da sua falta. Desde a paciência, esse vislumbre da heroicidade, até uma aceitação parva e cumpridora que implica sempre uma certa capitulação da sensatez, é disso que venho falar.
A burocracia enterra-nos a sensatez. Nós, almas portuguesas, gostamos de questionar. Questionar, até filosoficamente, em que empregamos o tempo, e resmungar por princípio, porque, graças a Deus, temos o coração ligado ao cérebro e percebemos os impactos que tudo nos provoca.
Ficar calado a cumprir o inexplicável é, por isso, uma forma de barbárie. Barbárie e violência interior, porque o resmungo não encontra eco, mas apenas a citação de uma qualquer Regulation, saída de uma voz neutra – tão neutra quanto a própria Regulation.

Chegar ao centro da Europa mostra-nos que as sagas portuguesas dos papéis são uma espécie de entrada de repasto. Foto © Lina Darjan’s Images
A burocracia transforma os rostos em altifalantes. No meio não há alma: há cumprimento de processos. Quando forçamos um pouco a empatia, o outro lado trata-nos pelo apelido, com um Miss a anteceder, e um ligeiro suspiro que assinala a inconveniência.
A burocracia destrói as relações. A proximidade é tomada de assalto pelo mediador legal, regulamentar, procedimental. A solidão existencial é, por isso, companheira de viagem de quem se aventura pelas lides institucionais do centro da Europa. Só encontra verdadeiro respaldo nos irmãos do Sul, os barulhentos e tardios, os que não sentem culpa por se tocarem, por se rirem e por se espantarem.
Hannah Arendt descreveu magistralmente a desumanização pela via burocrática: a dos que cumprem escrupulosa e metodicamente processos sem saber bem o quê nem para quê, mesmo quando deles depende uma cadeia de morte.
É essa batalha que aqui se trava todos os dias: a de conservar um olhar mais largo, mais fundo e mais alto, no meio de mil exigências de detalhe.
Porque a burocracia nunca pede apenas tempo, esse lugar único e puro de encontro com Deus. Ao ocupá-lo com vazios de sentido, vai estreitando a alma, até lhe roubar a própria respiração do Céu.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
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