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Buscar a inclusão, reduzir desigualdades e construir a paz, desafios de Abril hoje

| 26/04/2021

Jorge Wemans: os padres que acompanhavam os jovens da JEC antes do 25 de abril mostravam que eles não estavam longe do evangelho de Jesus Cristo. Foto captada do vídeo do programa.

 

A defesa da democracia, a redução das desigualdades e a construção da paz foram apontados como grandes desafios que a comemoração de Abril hoje coloca à sociedade e à Igreja Católica pelo jornalista Jorge Wemans, um dos editores do 7MARGENS, numa entrevista ao programa Ecclesia.

O jornalista recordou o seu envolvimento na luta contra o regime autoritário caído em 1974, exemplificando com a sua participação na preparação e realização da vigília pela paz na Capela do Rato (Lisboa), que lhe trouxe a prisão em Caxias. Recordou, a este propósito, a tomada de consciência da situação que se vivia e o lugar que nesse processo teve a participação na JEC (Juventude Estudantil Católica).

Neste contexto, recordou o papel desempenhado por diversos padres acompanhamento do discernimento dos jovens, mostrando-lhes que, “apesar de a hierarquia da Igreja Católica os acusar de falta de fé, de comunistas e opositores”, não estavam longe da fé em Jesus Cristo.

Olhando para o significado de Abril no presente e no futuro, Jorge Wemans sublinhou que “a nossa democracia, como projeto de inclusão, está hoje mais em causa do que já esteve há uns tempos para trás”. “Somos chamados a participar na construção da cidade”, assumindo opções políticas, orientadas para que “a democracia consiga de facto incluir mais pessoas”.

Um segundo aspeto será “reduzir a nossa indiferença em relação às desigualdades”. Em Portugal, como em países de matriz cultural católica, “achamos basicamente que os pobres são pobres porque não querem trabalhar, ou que se distraíram”. Ou seja, que “o problema da pobreza é deles, não é nosso, não é do sistema, não é do nosso dia-a-dia, da maneira como organizamos a sociedade”.

Preferimos não pensar nisso, preferimos culpabilizar os pobres pela sua pobreza, afirmou. “Não há um movimento profundo na sociedade portuguesa nem na Igreja a dizer que não aceitamos ser um dos países na Europa em que, apesar de ser um dos mais pobres, as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres são maiores, que um quinto das pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza. Nós vivemos todos os dias como se isso não fosse connosco.”

Relativamente à questão da paz, Jorge Wemans distinguiu-a da ausência de conflitos armados e alertou para uma “guerra connosco próprios”, através de “discursos de ódio cada vez mais presentes na nossa sociedade”, que se traduzem na afirmação de que “bom era que outras pessoas não existissem”. E não apenas em discurso público, já que, “dentro de cada um de nós, por vezes, somos levados a pensar que há uns quantos cidadãos e umas quantas cidadãs que era melhor que não existissem, que não fizessem parte da nossa sociedade, que tudo ficava melhor se os eliminássemos: ou porque são corruptos, ou porque são diferentes de nós.”

“Este discurso de eliminar outros é também, de alguma forma, uma guerra; é, pelo menos, a negação da paz. É uma guerra de uns contra os outros que nos desvia daquilo que é a democracia, que inclui os que são diferentes de nós”, rematou o jornalista.

 

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