Já muito foi dito sobre o que aconteceu no Estádio da Luz no passado dia 18, entre Vinícius, jogador do Real Madrid, e Prestianni, jogador do Benfica. No entanto, há dois aspetos que não posso deixar de comentar.
O primeiro é a repetição do “porque é que acontece sempre ao mesmo?”. Esta espécie de destino que parece ter decidido que a coragem se paga com reincidência, como se a repetição de um erro o tornasse menos erro. O segundo é a facilidade com que tantos se apressam a desvalorizar o que aconteceu, como se o desconforto alheio fosse exagero ou drama, e como se a tradição de insultar fosse um álibi moral.
O caso da Luz não foi um raio isolado num céu limpo, tratou-se de uma tempestade que já vimos cair sobre o jogador vezes suficientes para percebermos que não é coincidência. Vinícius tem a ousadia – e a dignidade – de denunciar, mas a denúncia ainda incomoda mais do que o ato denunciado e, por isso, vê-se transformado num alvo, pois o que irrita não é o racismo, é o facto de alguém ter a coragem de o expor.
Surge a reação pública, essa manta de retalhos onde cabe tudo, desde a boa fé ingénua até ao cinismo mais confortável.
Há quem diga que “é exagero”, que “só atrasou o jogo”, que “não se deve dar importância” e há quem faça a comparação entre impropérios e racismo, o que se torna não só absurdo, mas perigoso. Os insultos fazem parte, infelizmente, da dinâmica emocional do futebol. Não são bonitos, não são edificantes, mas não são racismo. Racismo não é um excesso do momento, é uma agressão à dignidade humana, é violência simbólica e discriminação. Misturar tudo no mesmo saco é uma forma conveniente de proteger quem não merece proteção e de silenciar quem ousa dizer “basta”.
Há quem apresente o argumento da “provocação”, esse clássico da inversão moral, como se a provocação – seja ela real, imaginada ou simplesmente inventada – pudesse justificar comportamentos racistas. Nada justifica o racismo. Nada. Não se trata de uma reação, trata-se de uma escolha, e quem escolhe praticá-lo fá-lo com a cobardia de uma camisola a tapar a boca e porque sabe que a consequência não irá além de um sermão morno e uma multa. E aqui entramos no território da cobardia institucional: os clubes, as ligas, as federações, todos parecem mais preocupados com a imagem do espetáculo do que com a dignidade do jogador. Vinícius, que denuncia, é tratado como um incómodo e os agressores, “provocados”, são tratados com indulgência. É a assimetria habitual, reveladora de quem se quer proteger.
No meio desta paisagem, deparo-me com uma publicação nas redes sociais, certamente bem intencionada, de um presbítero do Patriarcado de Lisboa, Pedro Figueiredo, em que este sugere que se recorra a uma aplicação de oração, disponível para instalação, porque no futebol dizem-se coisas muito piores que chamar “macaco”, e não nos devemos desgastar: é preciso é rezar. Bem, talvez consiga perceber a intenção, mas não se pode relativizar: rezar pode até aliviar consciências, mas não basta para resolver problemas que exigem ação, coragem institucional e responsabilidade.
O episódio na Luz não é um acidente: o racismo continua a ter espaço e palco. E enquanto jogadores como Vinícius forem deixados sozinhos na linha da frente, a mensagem é clara: denunciar tem um preço, e esse preço é pago por quem não se cala.
Termino com as palavras inspiradoras do Papa Leão XIV, na sua mensagem para a Quaresma:
“Escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta.”
Que assim seja!
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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